O RETORNO DE ISMAEL IVO

Um dos grandes da dança mundial, o artista volta ao País para escolher oito bailarinos que irão a Veneza

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2011 | 03h06

"Ainda me falta alguma coisa", diz Ismael Ivo. De passagem por São Paulo, sentado na recepção de um hotel de luxo, o bailarino brasileiro retoma os pontos de uma trajetória digna dos contos de fadas: da infância na zona leste da capital paulista aos grandes palcos da Europa e dos Estados Unidos. Um caminho que inclui prêmios, honrarias, além do comando dos maiores festivais de dança no mundo: o ImpulzTanz, de Viena, e a Bienal de Veneza, da qual é o mais longevo diretor.

Qual poderia ser, então, a lacuna dessa história edulcorada? Que posição ainda não teria sido conquistada? "Depois de tudo isso, sinto agora uma necessidade de abrir espaços, de criar pontes", comenta ele. "Eu preciso retornar às origens. Como um filho pródigo."

Mas o vínculo que Ismael tenta agora estabelecer com o País extravasa as suas razões pessoais. "Também tem a ver com o momento do Brasil. Estamos ganhando uma projeção internacional, um respeito em todos os setores: na política, na economia, nos projetos sociais. Lá fora, as pessoas ficam muito surpreendidas com esse tipo de trabalho que é feito aqui, de recuperação do indivíduo pela arte", observa o artista, que se estabeleceu no exterior há quase 30 anos.

Na estada por aqui, sua missão é selecionar oito bailarinos que voltarão com ele para Veneza. Devem ganhar uma bolsa de estudos de seis meses e passar pelo laboratório "antropofágico" do coreógrafo. "Será uma avalanche de estímulos."

A seleção, que partiu de 300 inscritos, tentou buscar jovens que já tivessem certa experiência. Não importa se na dança clássica, moderna, contemporânea. Ou até mesmo como dançarinos de hip-hop. "Não existe uma exigência de determinada proveniência estética."

Outro ponto a ser levado em conta na hora da escolha dos candidatos é o contexto social de onde saíram. "Você não vê só o potencial do futuro artista, mas o indivíduo dentro da sociedade", ele aponta. "Cada pessoa que muda a sua própria vida por meio da arte conta e conta muito."

A estada na Itália incluirá estágios com profissionais de algumas das companhias mais renomadas do cenário internacional: Win Vandekeybus, Anne Teresa De Keersmaeker, William Forsythe. "Eles vão treinar esses meninos não só em cada um desses estilos, mas também revelar seus métodos de criação." As referências passam ainda por caminhos tão díspares quanto a dança dos orixás, o butô japonês ou os rituais sagrados indianos.

Ao expor seus aprendizes a tantos vocabulários, Ismael reafirma suas convicções, sua antiga insistência em definir-se como um Macunaíma. "Todos esses anos na Europa e ainda sou um devoto de Mário de Andrade. Acredito nesse tipo de fusão de linguagens para descobrir o novo. E isso é Brasil."

No clássico livro O Povo Brasileiro, o sociólogo Darcy Ribeiro preconizava nosso protagonismo no mundo, saudava-nos como uma "nova Roma". Se depender de Ismael Ivo, ao menos na dança, as previsões do intelectual hão de se confirmar.

"A nova revolução artística vai vir da América do Sul, especialmente do Brasil", ele diz. Com olhos brilhantes saltados das órbitas, sorriso permanente, o artista discorre sobre um futuro de contornos luminosos.

"O bailarino brasileiro é o mais criativo do mundo. Nós pensamos de uma outra maneira, intuimos de uma outra maneira. Somos, desde o berço, injetados com uma certa qualidade de invenção." E o que pode ser a dança, senão inventar a vida?

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