O resto é silêncio no bairro de Botafogo

Com o fechamento do Cinemathèque, o Rio perde mais um espaço de show

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2010 | 00h00


A despedida. Autoramas no último dia de casa que, por suas dimensões, permitia maior proximidade do artista com o público. Foto: Marcos de Paula/AE

 

  A revelação Maria Gadú começou lá. O Fino Coletivo também. O veterano Marcos Valle escolheu seu micropalco para a gravação do DVD Conecta. O Cinemathèque, casa com espírito alternativo que funcionou num imóvel alugado em Botafogo, desde 2007, silenciou no último fim de semana, deixando na mão um público ávido por novidades e carente de espaços para shows.

Numa cidade em que o palco mais tradicional, o Canecão, passa por problemas na Justiça, em que praticamente não há lugares para se ouvir jazz e bossa nova (com o fechamento do Mistura Fina e outras do gênero), e onde os maiores locais são grandes e longe demais (Arena, para até 15 mil pessoas, e Citibank Hall, para 8,4 mil, na zona oeste), a notícia é mais triste ainda.

"Aqui é o lugar de quem está começando. Hoje vim pelo Autoramas", contou a publicitária Ana Beatriz Bordini, de 22 anos, na sexta, noite do show da despedida. "O Rio tem muito lugar pra samba, tem a Lapa, mas é só", reclamou o cineasta mineiro Marcio Ventura, de 31, habitué do Cinemathèque.

O proprietário Leo Feijó (sócio de Daniel K e Rodrigo Pinto) foi contactado pelos donos do imóvel recentemente, com a notícia de que ele seria demolido. Leo encerra suas atividades ali, mas já procura outro ponto. "Paramos no melhor momento, de programação, público e faturamento", lamenta Leo, que, com sua casa, acabou por dar fôlego ao chamado Baixo Botafogo, com a abertura e incremento de bares e os cinemas de arte que já existiam.

Gabriel Thomaz, guitarrista e vocalista do Autoramas, lembra que já tinha tocado no adeus à Casa da Matriz, primeiro espaço de Leo, no mesmo bairro, e que também teve de trocar de endereço. "O Rio sempre foi diferente de São Paulo, onde tenho a impressão de que qualquer gênero musical, desde que bem-feito, dá certo. No Rio as pessoas têm que se acostumar primeiro."

Ele viveu noites memoráveis no Cinemathèque, como as canjas em shows de amigos e a noite em que deu problema numa corda e alguém da plateia resolveu. Essa intimidade com o público é explicável pelas dimensões do espaço para shows. Cabem 200 pessoas, e, sendo o palco baixinho, a relação com os artistas fica ainda mais estreita.

O problema não é só o fim do Cinemathèque. "As outras cidades tem dois ou três lugares para cada tipo de artista. No Rio, não tem", reclama Carlos Costa, empresário de Ivan Lins. Quando vier divulgar o CD Intimate, que gravou na Holanda, Ivan gostaria de tocar no Teatro Tom Jobim. "Mas lá também não tem estrutura de som e de luz para um show como o dele."

João Mário Linhares, que hoje trabalha com Ney Matogrosso, Roberta Sá e já passou por Nana Caymmi, MPB 4, João Bosco, Fernanda Abreu, Edu Lobo - são 35 anos de show biz -, sente falta de casas com 500, 600 lugares (caso do Tom Jobim). "Lembro do Gal Tropical em cartaz por seis meses... E do Tom Jobim dizendo que tudo que ele mais gostava era fazer temporada no Canecão de quinta a domingo", diz Linhares, para quem a solução é a abertura de casas novas.

O jornalista Nelson Motta, colunista do Estado, não gosta da acústica do Vivo Rio, atual opção ao Canecão. Morador de Ipanema, acha o Citibank Hall e Arena muito distantes e "frios" e se diz encantado com o Teatro Tom Jobim, "para formações mais acústicas, como shows de jazz e bossa nova".

"A falta de espaços virou um problema crônico no Rio, e o mercado de música sofre com isso. A legislação é muito antiga, de 1976, e não estimula novos empreendimentos. E, com o aquecimento do mercado imobiliário, derrubam-se as casas para construir prédios", afirma Leo Feijó, do Cinemathèque. "O momento é delicado", acrescenta.

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