O réquiem de guizado

O trompetista e produtor lança Calavera, disco que o ajudou a encarar a morte da mãe com serenidade

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2010 | 00h00

Uma marcha fúnebre sincopada e distorcida abre o novo álbum do trompetista paulistano Guizado. O piano elétrico repete riffs em tonalidade menor. Os metais pontuam a música com saudade contida. Na letra, anjos e nuvens pairam sobre a cama de overdrive.

É a forma com que o músico, habituado a bater forte em produções que mesclam jazz e rock, conseguiu se despedir. A faixa inicial, Amplidão, foi escrita após uma das últimas visitas ao leito hospitalar de sua mãe, que morreu por conta de uma meningite fulminante no final de 2008.

"Quando comecei a gravar, pensei "agora vou fazer música que cure o sofrimento em vez de só falar dele"", conta Guizado ao Estado. "Amplidão é sobre sonhar e imaginar um lugar mais tranquilo. Um além."

A retomada foi difícil. Na época, Guizado curtia sucesso underground com o disco Punx, o primeiro trabalho-solo em sua longa carreira de sideman. Mas o baque o fez passar meses em trânsito entre a casa de sua namorada e as de amigos, tentando lidar com a dor. Quando o contrato de gravação do disco o forçou a entrar em estúdio teve de enfrentar de vez a tristeza. "O pessoal da gravadora me liberou o andar de cima por quatro meses. Tinha as chaves, ficava lá madrugada afora", conta. "A disciplina de ir todos os dias foi o que me salvou. Quando não conseguia produzir, parava, tomava um cafezinho, ouvia um som."

O disco foi batizado de Calavera (caveira em espanhol) em referência à celebração do Dia de Finados na cultura hispânica. A data tem uma conotação festiva nos países da América Central e reflete o modo positivo com que Guizado quis lidar com a perda. "Precisava fazer algo mais brando para dar uma aliviada", contou.

Para a gravação, chamou os companheiros de cena Régis Damasceno (guitarra), Rian Bezerra (baixo) e Curumin (bateria), instrumentistas altamente requisitados no cenário do rock brasileiro. Além de uma lista de percussionistas e naipes de sopro, Céu e a pernambucana Karina Buhr também participaram. "O canto delas completou algo que estava faltando na música. Deu uma leveza, uma cor diferente", conta.

Calavera traz um verniz mais pop do que Punx, trabalho contundente que figurou entre os mais notáveis de 2008. Ambos juntam as fluviais de jazz e rock eletrônico que correm pelo som de Guizado.

Improviso. O jazz o fisgou durante a adolescência. Depois de alguns anos tocando guitarra, andando de skate e ouvindo o pós-punk de Joy Division, The Cure e The Smiths, o músico começou a brincar com o trompete empoeirado que achou na casa de um amigo.

Para aprender, alugava discos de Dizzy Gillespie em um sebo e passava fins de semana improvisando junto ao mestre. Também se matriculou no conservatório Groove, uma das categorias de base para músicos de jazz em São Paulo. Estudou as técnicas melódicas e harmônicas do bebop e, dois anos depois, partiu em busca de uma sonoridade própria.

"A complexidade do jazz me levou a torcer o nariz para o meu passado punk", conta. "Quando saí da Groove, comecei a fazer as coisas à minha moda. Toquei com outras pessoas, conheci outras formas de produzir e comecei a resgatar as minhas referências antigas de pouco em pouco. O resultado não foi nem a postura rock de garagem dos anos 80 nem a do jazz ortodoxo dos anos 90. Foi uma maçaroca que juntei e que fez com que me sentisse mais coeso."

Calavera será lançado no dia 26 de agosto, em show no Sesc Pompeia. O disco pode ser ouvido, em alta qualidade no endereço http://albumvirtual.trama.uol.com.br/lançamentos.

GUUZADO

Sesc Pompeia. Choperia (800 lug.). Rua Clélia, 93, telefone 3871-7700. Dia 26/8, às 21h. R$ 4 a R$ 16.

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