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O represado

A nostalgia certamente nos trará de volta outras coisas lembradas com carinho, não apenas o bambolê e a Cuba Libre

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

14 de fevereiro de 2019 | 02h00

O rompimento das barragens em Mariana e Brumadinho, onde ainda procuram corpos na lama, não se presta a nenhum tipo de analogia. Nada deve diminuir o puro horror das tragédias repetidas, nenhum outro sentimento salvo os da dor e da indignação – preâmbulos, quem sabe, para o fim da impunidade, e para medidas preventivas antes que outra barragem mate mais. Mas poupar as tragédias de Minas da literatura não quer dizer que não podemos, cada um como quiser, escolher uma metáfora no acontecido. 

Eu escolho as barreiras que não resistiram como metáforas para as fobias e ressentimentos represados da direita brasileira, que, assim como os especialistas em barragens que não previram os deslizes em Mariana e Brumadinho, não previram a explosão Bolsonaro nas últimas eleições. Foram a classe média, o antipetismo, o cansaço com a corrupção, a crise econômica, a ausência do Lula, etc. – uma direita compreensível, portanto – que elegeram Bolsonaro, mas foram os valores e preconceitos antigos que tomaram posse. Foi o represado que assumiu.

Assim a formação do ministério Bolsonaro tornou-se uma espécie de jogo, em que se tentava adivinhar quem – depois, por exemplo, de um ministro da Educação que quer a volta dos cursos de Moral e Cívica e bibliotecas escolares purgadas de marxismo e outros venenos – seria o próximo a ser lamentado. Isso sem falar no máximo de restauração sentimental, a volta dos generais para o Planalto. 

Ninguém sabia que o represado tinha essa força. A nostalgia certamente nos trará de volta outras coisas lembradas com carinho, não apenas o bambolê, a Cuba Libre e campanhas pela pena de morte. O que mais estará represado na alma brasileira que não se sabe? Pra que lado ainda vai nos levar essa mistura de saudade de nós mesmos e como éramos simples, e ao mesmo tempo torcer pelas milícias?

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