O renovado prazer de apenas narrar

O início de Juliet, Nua e Crua, novo romance do inglês Nick Hornby, é instigante: o casal Duncan e Annie invade o banheiro masculino de um bar em Minneapolis onde, em um certo reservado, ele posa para uma fotografia. Não se trata de um reservado qualquer: foi ali, nos anos 1980, que o cantor Tucker Crowe decidiu repentinamente abandonar a carreira para começar uma vida de reclusão. Crowe jamais revelou o teor da epifania que o convenceu a alterar sua trajetória. E, mesmo insolúvel (ou por causa disso), o mistério alimentou o desejo do pequeno mas resoluto fã-clube do artista, reunido pela internet por Duncan e disposto a refazer continuamente todos seus passos até a opção pelo silêncio.

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

Um dos ícones da cultura pop, Hornby, que propagou a febre de fazer listas de qualquer coisa, tornou-se famoso pela palavra direta. "Nunca me interessei pela linguagem, pois ela é apenas uma ferramenta para o que tenho a dizer", explicou ele ao Estado, em uma conversa durante a Feira de Frankfurt, em 2005. "Se minha intenção é falar sobre um copo d"água, escrevo apenas isso "um copo d"água", não preciso de mais nada."

Juliet, Nua e Crua revela que, de fato, a peregrinação de Duncan e Annie é despejada sobre as páginas de forma propositalmente simples, quase sem sobressaltos. Mas o que diferencia a escrita de Hornby são em especial as pequenas digressões, que se transformam em buracos em um asfalto aparentemente perfeito.

O questionamento de Annie, por exemplo. Aos poucos, ela percebe que a paixão do companheiro pelo cantor aposentado cria empecilhos em seu relacionamento. O arranhão é visível, aliás, nos primeiros parágrafos, quando Duncan, posando dentro do reservado, observa: "Se os banheiros pudessem falar, hein?", acreditando que, assim, teria finalmente a resposta para o mistério da aposentadoria. "Annie estava feliz por aquele não poder", escreve Hornby. "Duncan iria querer papear com o banheiro a noite inteira."

Quando volta à Inglaterra, o casal descobre uma nova versão do álbum de maior sucesso de Crowe, batizado exatamente de Juliet. Trata-se de uma demo, mais conhecida por Naked (Nua). Assim, a versão, que se torna conhecida por Juliet, Naked (o título original do livro) agrava a crise no relacionamento do casal, especialmente quando surge uma divergências de opinião, com Duncan adorando e Annie detestando. A situação piora quando ela descobre que seu companheiro dormiu com outra mulher. É o suficiente para que uma combalida convivência de 15 anos aproxime-se do precipício.

E, se o momento já é tenso, piora quando o próprio recluso, Tucker Crowe, abandona momentaneamente o silêncio autoimposto e entra em contato com Annie para elogiar sua resenha sobre o disco publicada no site de Duncan - ele se encanta com o perfeito entendimento dela sobre sua sensação de viver à deriva. Pior: com isso, inicia-se uma troca escondida de e-mails na qual uma foto enviada por Tucker vai parar na porta da geladeira do casal, sem que Duncan perceba estar diante de seu grande ídolo e futuro rival amoroso.

Forma-se um triângulo, por meio do qual é escancarada para o leitor a vida reclusa de Tucker, ao mesmo tempo em que os erros do relacionamento de Annie e Duncan alteram sua rotina na decadente cidade inglesa de Goolleness, onde moram.

Domínio. À medida que a leitura avança, desponta a indisfarçável satisfação de Hornby em contar essa história. Escrevendo em sua própria voz, o autor não se sente obrigado a fazer as vontades do leitor. Na verdade, ele retorna a seu velho modo de escrever como se o leitor fosse um hóspede não convidado, chegando na noite errada a uma casa escura. Cada personagem de Juliet, Nua e Crua está lá por inteiro, esperando o leitor abrir o livro, para saltar sobre ele como aquelas obras infantis que projetam castelos ocultos entre duas páginas.

O escritor revela segurança ao manipular seus personagens, principalmente obsessivos como Duncan, um aficionado por internet e cultivador da música pop, figura capaz de revelar detalhes sobre os ídolos mas que se confessa incapaz de identificar os próprios problemas mais próximos. Também é hábil em descrever figuras tão emblemáticas da música como Tucker Crowe, identificado pela imprensa americana como um amálgama de Bob Dylan, Bruce Springsteen e Leonard Cohen. Se não avança nem um milímetro na qualidade de sua prosa, Nick Hornby continua imbatível na descrição límpida dos dramas humanos.

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