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Ignácio de Loyola Brandão
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O reino de ouro da Lagoa Encantada

"Um conto de Natal, vô, conte uma história de Natal. Tem uma?" Tenho, disse logo. E agora conto: Deste ano que está partindo, em que as mentiras, fraudes e mistificações da política e da economia nos acabrunharam a todos, guardo uma personagem inesquecível. Dona Pequena, cacique da tribo dos jenipapo-canindés no Ceará. Pensaram, meninos (pensaram leitores?), numa mulher cacique? Essa mulher me conduziu à Lagoa Encantada, dentro da qual se refugia um reino de ouro com castelos, ruas, navios, catedrais. Como o imaginário brasileiro é maior, muito mais emocionante que o reino da podridão que está à superfície dos lagos de Brasília. Permitam-me voltar por um instante a esta terra, Aquiraz, que significa a "água ali adiante".

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo; Ignácio de Loyola Brandão

26 Dezembro 2014 | 03h43

Fui ao Ceará levado por Mona Dorf (curadora da Festa Literária de Aquiraz - Flaq), Marilia Lovatel, Aurea Figueira, Jorge Felix, Marisa Moura e Cristina Saboia e Teresinha Holanda. Certa manhã, parti para a Lagoa Encantada, região dos jenipapo-canindés, lugar sagrado. Estes índios foram desalojados da antiga capital cearense pelos portugueses que fizeram verdadeiro massacre, matando e escravizando, aterrorizando de tal maneira que a tribo, bastante reduzida, se escondeu e cheia de medo perdeu sua identidade, nem se considerava índio nem branco. Este conflito ficou conhecido como a "Guerra dos Bárbaros". Os indígenas flutuaram no limbo até 1980 - vejam só, 1980 - quando um historiador e antropólogo chegou à região e fez um intenso trabalho, devolvendo àquela gente sua identidade, da qual hoje muito se orgulha. Dominam as terras do Encantado.

Vivem da mandioca, do milho, feijão, batata-doce, caju. Pescam, produzem artesanato com cipó e as mulheres tecem rendas e fazem louça de barro. O caju tem enorme significado, dele são feitos doces e sucos, além do mocororó, bebida utilizada em festas e durante a realização do ritual do Toré, que invoca as forças do alto para suas lutas.

Desde 1995, Maria de Lourdes da Conceição Alves, primeira mulher no Brasil a ser eleita cacique pela sua gente, lidera a luta pelo cumprimento dos direitos indígenas, pela demarcação de suas terras e em defesa da Lagoa Encantada, ameaçada pela especulação e poluição (a cachaça Ypióca faz o que quer, manda e desmanda, não respeita a lagoa). De Pequena a cacique só tem o apelido. Enfrentou o machismo e se impôs.

Hoje, aos 69 anos, com 16 filhos, 54 netos e 17 bisnetos, ela é um ícone, grande contadora de histórias, cantora e compositora, artesã, líder, alto astral. A Lagoa Encantada e a mata ao redor são fundamentais na cosmologia e unidade do grupo. A memória dos antepassados, a "raiz do índio", "a terra do índio", "o mato", o pertencimento a uma única família são evocados continuamente.

No pátio da escola local, a cacique regeu as crianças que dançaram o Toré, ritual de invocação dos espíritos fortes. No final, um curumim colocou em mim um colar de sementes de plantas do Encantado, destinado a me proteger. À meia-noite do dia 31 de dezembro, colocarei o colar no pescoço e com ele entrarei no novo ano para me defender de Dilma, Lula, Mercadante, etc. Olhando em torno do pátio da escola, via as placas: apyara (banheiro dos homens), kunha (banheiro das mulheres), kunhataí (das crianças), mboé (sala), nheboé (sala de computação), morubixaba (sala do cacique).

Dona Pequena nos levou à lagoa. No fundo dela há o reino de ouro, um palácio, um navio e uma catedral tudo de ouro. A catedral submersa está coberta por uma duna, o Morro do Urubu. Quem leu Monteiro Lobato se lembra de Narizinho descendo ao fundo das águas para encontrar o príncipe. Lobato conhecia os mitos cearenses?

Dona Pequena me apontou um pequeno manancial: "Beba desta água, te fará bem. Quando a fonte acha a pessoa digna, faz descer para ela pepitas ou até correntes de ouro". A água era fresca e boa, mas as pepitas não vieram. A lagoa não deve ter me achado digno. Cada dia mais me encanto com este ofício, que me leva por este Brasil oculto, real. Encantado, por que não? Este é meu conto de Natal, Pedro, Lucas, Felipe, Stella, e vocês todos, leitores.

PS: Deste ano, guardo ainda uma imagem enternecedora. A filha de Mariana Aydar, Brisa, entrando no palco do Centro Cultural São Paulo e rondando por ali, feliz, enquanto sua mãe cantava. Isto foi lindo

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