O rei do filme noir

Clássico maior do gênero, 'À Beira do Abismo' chega ao mercado com um faroeste e um épico do diretor

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2013 | 02h17

O diretor norte-americano Howard Hawks (1896-1977) foi o principal diretor de estúdio na Hollywood dos anos 1930. Lembrado como o criador do gênero 'screwball comedy' - a comédia maluca, burlesca, de ritmo acelerado -, iniciado com Suprema Conquista (Twentieth Century, 1934), Hawks assinou também o maior clássico dos filmes noir, À Beira do Abismo (The Big Sleep), lançado agora em DVD duplo (com a versão de 1946, a oficial, e a de 1945, redescoberta há alguns anos). O filme integra uma caixa da Versátil com duas outras produções do diretor, o faroeste O Rio da Aventura (The Big Sky, 1952) e o épico Terra dos Faraós (Land of the Pharaohs, 1955). Detalhe: tanto À Beira do Abismo como Terra dos Faraós têm como roteirista William Faulkner (1897-1962), Nobel de Literatura de 1949. No primeiro caso, Faulkner faz toda a diferença. No segundo, não faz a mínima.

Hawks ficou conhecido como o "camaleão" de Hollywood, por testar seu talento em vários gêneros, da melhor screwball comedy de todos os tempos, Levada da Breca (Bringing Up Baby, 1938) ao clássico faroeste Rio Vermelho (1948). Fez dois dos melhores filmes 'noir' da história do cinema, Ter ou Não Ter (To Have and Have Not, 1944) e À Beira do Abismo, levando o cineasta francês Jacques Rivette (de A Religiosa) a se referir a ele como "gênio" na revista Cahiers du Cinéma. Orson Welles dizia que Hawks fazia prosa, enquanto John Ford era o poeta da tela. É uma boa definição. Em sua História do Cinema, recentemente lançada pela Editora Martins/Martins Fontes, o crítico Mark Cousins classifica Hawks de um "produtor astuto", antenado com o gosto do público e pouco sensível a efeitos (ele nunca usou flashbacks, não há travellings em seus filmes e a câmera nunca saiu da altura do ombro, lembra o autor). A visão de Ford é, de fato, mais poética.

A diferença entre os dois é que Hawks, mesmo contra a vontade, foi um protofeminista - e isso fica claro nos três filmes da caixa. À Beira do Abismo, a despeito de ter como figura central o (machão) detetive Philip Marlowe (Humphrey Bogart), criado por Raymond Chandler, gravita em torno da protagonista feminina, a fatal Lauren Bacall, causa das duas versões agora lançadas - a mais famosa, de 1946, com 18 minutos a menos, e a versão do diretor, de 1945, mais longa por exigência do poderoso Jack Warner (que queria Bacall mais tempo na tela). A versão com os cortes sacrifica até sequências fundamentais para o entendimento da história - por exemplo, a cena que revela o assassino do motorista do general Sternwood. De qualquer modo, a trama é tão intrincada que nem mesmo Faulkner saberia explicar a fixação do general na figura do seu contratado Marlowe que, assediado pela filha mais nova do militar, uma Lolita ninfomaníaca (Martha Vickers), prefere a mais velha (Lauren Bacall), divorciada, emancipada, mas igualmente difícil - além de tudo, chantageada por um crápula do submundo de Los Angeles, que ela e a irmã frequentam.

Dizem que Hawks era bissexual, o que explica não só a personalidade do ambíguo general de À Beira do Abismo como a súbita atração do jovem aventureiro Boone (Dewey Martin) pelo rancheiro Jim Deakins (Kirk Douglas) em O Rio da Aventura, faroeste passado em 1832. Nele, a dupla une-se a uma expedição de barco pelo rio Missouri, comandada por um francês, que ainda leva uma bela índia raptada (Elizabeth Threatt) para ser devolvida à tribo dos Pés-Negros. Kirk Douglas tem um dedo amputado na aventura, é frequentemente agredido, mas não tira o sorriso do rosto. Seu parceiro Dewey Martin, racista e hostil à presença da índia, cai apaixonado pela antípoda, mas fica dividido entre seguir o amigo aventureiro ou formar um lar com o outro lado do triângulo.

Apesar de ser um faroeste, não há muita ação em O Rio da Aventura, que compensa o espectador com uma bela jornada por paisagens idílicas dos EUA e a história da amizade leal entre Boone e Deakins, além de oferecer uma visão positiva da cultura indígena americana, sacrificada em outros filmes do gênero por preconceito de alguns realizadores. O cineasta Peter Bogdanovich, que entrevistou o diretor, culpa os produtores pelo corte de 20 minutos na duração original (141 minutos) e o espectador percebe que a versão restaurada é de qualidade irregular porque a parte amputada só foi encontrada numa versão de 16 milímetros - e ampliada a partir dela. O DVD traz nos extras um depoimento de Hawks sobre o filme, além de uma entrevista com Kirk Douglas.

O formato também é um problema em Terra dos Faraós. Filmado em Cinemascope, para mostrar como os irmãos Warner não poupavam dinheiro a fim de agradar ao público, o épico, naturalmente, perde na versão em DVD. Porém, vale conferir os esforços de Hawks para reconstituir o que teria sido a construção da pirâmide do faraó Quéops (também conhecido como Khufu, em egípcio antigo). Hawks, formado em engenharia mecânica, tinha todo o interesse em revelar os detalhes da complexa arquitetura das pirâmides egípcias - e boa parte do filme é ocupada por milhares de extras carregando blocos de pedra pelo deserto. Não há cenas de guerra ou batalhas, apenas uma luta de espadas entre Khufu (Jack Hawkins) e o capitão responsável pela guarda de seu tesouro, que se bandeia para o lado da traidora esposa do faraó.

Embora seja difícil identificar a presença de Faulkner por trás do roteiro (ele só aceitou o trabalho pelo dinheiro), há alguns raros bons diálogos em Terra dos Faraós, especialmente entre o faraó e o arquiteto encarregado da construção da pirâmide, Vashtar (James Robertson Justice) - um ateu construindo uma tumba com tesouros para serem consumidos no outro mundo pelo inimigo. É um épico de pouco fôlego, mas ainda assim é Hawks.

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