Diego Ciarlariello
Diego Ciarlariello

O registro visceral de Filipe Catto

Em seu primeiro DVD e CD ao vivo, o cantor e compositor gaúcho mostra suas interpretações intensas e teatrais

MARINA VAZ, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2013 | 02h12

Filipe Catto quer mostrar do que é feito. Feito de uma interpretação que passa mais pelo sentimento do que pela razão, e que, por isso, varia a cada show. Feito de composições que falam de amores e desamores, com narrativas quase cinematográficas. Feito de entrega - às palavras, à música, ao palco. Agora, o cantor e compositor gaúcho lança seu primeiro trabalho ao vivo, Entre Cabelos Olhos & Furacões, que o Canal Brasil exibe no domingo, às 17 horas e chega às lojas, em DVD e CD, na terça-feira.

A apresentação foi gravada em São Paulo, onde Filipe mora desde 2010. Nesse ano, ele saiu de Porto Alegre para participar do projeto Prata da Casa, do Sesc Pompeia, e não voltou mais. Os dois dias de show, sob direção de Ricky Scaff, tomaram o Auditório do Ibirapuera, em fevereiro. O título do trabalho pega emprestado um verso da música Ave de Prata, de Zé Ramalho, incluída em seu primeiro álbum, Fôlego, de 2011.

O ponto de partida para o show foram, justamente, as músicas dessa sua estreia oficial (em 2009, ele já tinha lançado um álbum com seis faixas, de forma independente e pela internet). Mas Filipe não se limita a esse repertório. Das 27 canções interpretadas no DVD, 11 são de Fôlego - entre elas, Saga, que o projetou nacionalmente ao ser incluída na ótima trilha sonora da novela Cordel Encantado.

Suas composições próprias são mescladas com interpretações que passam por Nelson Cavaquinho (Luz Negra), Maysa (Meu Mundo Caiu) e Fábio Jr. (20 e Poucos Anos). Também há espaço para contemporâneos, como Pélico (Sem Medida) e Arnaldo Antunes (2 Perdidos).

A aparente mistura de estilos ganha unidade em sua voz impecável e rara de contratenor. Quem já conhece seu trabalho pode perceber que, neste show, a voz de Filipe está menos aguda. "Eu estou me domando, de uma forma sadia. Comecei a valorizar mais a timbragem dos graves", revelou o cantor, durante encontro com o Estado.

Nada que altere a força de suas interpretações, sempre marcantes, tanto para a plateia quanto para o próprio artista. "Eu nunca sinto que sou o mesmo depois que saio do palco."

Um dos momentos mais viscerais do DVD é a dobradinha, com arranjos de blues, da música Rima Rica/ Frase Feita, de Nei Lisboa, com Puro Teatro, em espanhol, consagrada na voz da cantora cubana La Lupe.

Ali, no palco iluminado apenas por um coração de néon rosa e azul, o cantor, ajoelhado, entoa os primeiros versos: "Desculpe, meu bem, se ontem te fiz chorar/ Mas a vida é assim mesmo/ Não se pode exigir/ Pouco dá pra esperar". Um momento a princípio introspectivo, que ganha mais e mais força, arrancando aplausos da plateia antes mesmo de seu fim catártico.

Filipe também apresenta uma música inédita, A Sós, que demorou anos para ficar pronta e revela sua maneira atual de criar. "Hoje, estou muito mais artesanal como compositor", diz. "Estou pensando a canção como um bordado, que você vai fazendo dia após dia."

As interpretações mais contidas são reservadas para músicas como Nescafé (parceria de Alexandre Kumpinski, Ian Ramil, Diego Grando e Marcelo Souto). Nela, uma simples lâmpada branca ilumina apenas o rosto de Filipe. A cena, já bonita quando vista da plateia, ganha ares ainda mais poéticos ao ser observada, na gravação, por vários ângulos. "Dentro do projeto do DVD, a gente quis fazer uma abordagem com as câmeras não só de gravar e mostrar a apresentação, mas também de propor maneiras de traduzir as sensações do show", diz.

O lado mais descontraído do espetáculo tem seu ponto alto no dueto feito com a cantora paulista Blubell, em Johnny, Jack & Jameson. A música, composta em inglês por Filipe, é como uma declaração de amor às três marcas de uísque citadas no título. "Ela nasceu como uma brincadeira, eu não levava a sério; mas, um dia, resolvi cantá-la num show e a plateia pirou", lembra. Interpretada pela dupla entre passos inspirados no charleston, ritmo que marcou a década de 1920, a canção se torna ainda mais dançante.

Já no bis, o show é encerrado com versos de Fábio Jr.: "Nem por você, nem por ninguém/ Eu me desfaço dos meus planos/ Quero saber bem mais que os meus vinte e poucos anos". E só então nos lembramos que Filipe tem apenas 25 anos - embora ele já saiba muita coisa.

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