O reformador dos formatos operísticos

Quase teatro. Ao apresentar Orfeo ed Euridice, em 1762, Christoph W. Gluck mudou as feições da ópera que se conhecia até então. Compositor de origem alemã, Gluck fez a maior parte de sua carreira em Viena. Lá, aproximou-se dos preceitos do teatro clássico, e, por diversas ocasiões, lançou mão dos temas míticos gregos.

O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2012 | 03h15

Por suas convicções, o músico ficaria conhecido como um reformador da tradição operística, o que seria determinante para as inovações trazidas, mais adiante, por Wagner e Puccini.

Primeira de suas obras-primas, Orfeu e Eurídice livrava-se dos adornos supérfluos que caracterizavam o gênero. Negava também as habituais árias vistosas - mero pretexto para exibições de virtuosismo vocal. Passava a valorizar o encadeamento da trama e o efeito dramático. Integrava ainda os balés, geralmente desconectados do contexto, ao conjunto da obra.

Em Alceste, título de 1767, Gluck detalhou de forma mais precisa os preceitos dessa sua "reforma": falava no drama per musica, o que significava colocar a música a serviço da ação.

Examinado esse contexto, é possível dizer que Antônio Araújo - diretor reconhecido por sua trajetória no teatro - encontra em Orfeu e Eurídice um território no qual pode se sentir relativamente à vontade. "Há cenas que são teatro puro", define ele.

Em sua versão para a obra, Araújo optou pela manutenção integral, tanto da música quanto do libreto. Mas alimentou-se do mito grego de Orfeu para mudar as feições da encenação. Excessivamente festivos, os tons com os quais Gluck pintou a trajetória de Orfeu e sua amada são relativizados. Merecem traços irônicos, que ajudam a matizar a visão redentora e aproximá-la do sentido trágico do mito.

Os balés previstos na ópera também mereceram novos contornos. O coreógrafo Alejandro Ahmed, fundador da companhia Cena 11, convocou alunos da escola de dança do Municipal e buscou uma movimentação que escapasse dos minuetos: formas tradicionais que acompanhavam as sinfonias e suítes.

No comando do Teatro da Vertigem, Araújo ficou conhecido por sua habilidade em usar espaços não convencionais: hospitais, presídios, igrejas. Em sua experiência anterior como diretor de ópera, quando assinou a montagem de Dido e Enéas, ocupou a sede da Central Técnica de Produção do Teatro, um galpão na região do Canindé.

Agora, ele toma posse da Praça das Artes, espaço ainda inacabado que abrigará as futuras sedes dos corpos estáveis do Municipal. Em pleno Vale do Anhangabaú, o diretor desenha uma montagem que redimensiona a visão do inferno: o mundo de Hades não está distante. Tem os mesmos contornos de São Paulo.

Outra novidade da montagem é o lugar reservado aos músicos. Regidos por Nicolau de Figueiredo, a Orquestra Sinfônica Municipal e o Coral Paulistano irão o ocupar o centro do palco. / M.E.M.

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