Clayton de Souza/AE
Clayton de Souza/AE

O reerguer do versador de primeira

Refeito de quedas pessoais, Junio Barreto vai além do samba em seu segundo álbum

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2011 | 00h00

No sobe e desce dos moinhos sentimentais, quem ganha novamente é a música brasileira. Nesta linha, depois de Otto, com Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (2009), e de tantos outros exemplos na história do cancioneiro nacional, agora é a vez de Junio Barreto se nutrir de insucessos pessoais para emergir com um dos melhores discos deste ano, Setembro.

O título do álbum, o mesmo que batiza a segunda faixa do novo trabalho - que será lançado no início de outubro em shows, CD, vinil e em formato digital -, foi escolhido pelo compositor e cantor pernambucano justamente para fazer a metáfora com a primavera e o período do ano em que tudo recomeça a florescer.

Gravado entre abril de 2010 e junho deste ano em São Paulo e Recife e mixado em Paris por Pedja Babic, Setembro chega ao mercado sete anos depois do primeiro e homônimo disco de Junio Barreto. "Demorou todo esse tempo muito por descuido, preguiça e acomodação minha. Quando eu fiz o primeiro disco, cheguei a fazer 100 shows aqui em São Paulo em um ano, fora nos outros cantos em que eu tocava. Eu acho que acabei me apegando muito àquele disco e foi rendendo. Eu funciono muito na pressão", diz Junio.

Neste meio tempo, o público ficou sem as composições dele apenas em discos mesmo. De 2004 para cá, ele fez trilhas para cinema (filmes de Lírio Ferreira e Paulo Caldas), para TV (documentários da TAL, Televisión América Latina), para a série de Isa Grinspum, O Povo Brasileiro. Além disso, escreveu para nomes como Céu, Nina Miranda (no 3 na Massa) e Bárbara Eugênia, tendo também temas seus regravados por Gal Costa, Lenine, Roberta Sá e Maria Rita. E ainda teve tempo para lançar um EP, há três anos, com Colarzinho de Pedra Azul, Bonita de Pedra e Céu e A Quem Glória Possa Ser, todas de sua autoria.

Assim como no primeiro disco, o novo trabalho de Junio Barreto tem forte presença do samba, com menos elementos recursos eletrônico. Sempre bem amparado, o compositor e cantor contara no anterior com produção de Alfredo Belo (DJ Tudo). Desta vez, quem assina a função é o amigo de longa estrada Pupillo, que também toca bateria e diversos instrumentos de percussão como ebow, tenori-on e até uma garrafa long neck funcionando como um agogô, na marcação da tropicalista Setembro. "Com o Alfredinho eu dei muito palpite (risos). Pupillo eu deixei mais ele trabalhar, mas eu gosto muito dos dois", comenta Junio.

Setembro fora pensado inicialmente para ser um disco de gafieira. Ganharia até o nome de Gafieira Espacial, mas, aos poucos, o gênero foi sendo totalmente desconstruído. Isso aparece nos timbres e na estética sonora do álbum de extremo bom senso, em faixas bem distintas entre si, mas que conferem uma unidade ao disco.

Todos os temas foram gravados com os músicos tocando juntos, sem sobreposições ou edições, com registros analógicos e com instrumentos que acabaram de ser lançados, com sonoridade inédita até então, como os teclados de Apollo 9.

Observar na ficha técnica os nomes que atuam no novo disco de Junio Barreto soa como covardia, no melhor sentido possível. Logo de cara, os trabalhos são abertos com a jangadeira Serenada Solidão, parceria com Gustavo Ruiz, que toca a guitarra, acompanhado de Vitor Araújo (piano), Fabio Sameschima (baixo) e Pupillo (bateria), que aparecem separados em diversas faixas de Setembro, como os verdadeiros achados poéticos, melódicos e instrumentais de Jardim Imperial, Rios de Passar e Noturna. Serenada Solidão e alguns outros temas - pelos timbres e, principalmente pelo uso de rhodes e teclados - lembram a elegância dos sambas interpretados por Bebeto Castilho, do Tamba Trio, e Miltinho no passado.

Pupillo aparece tocando em nove das dez faixas do álbum, menos em Passione, parceria de Junio e Jorge du Peixe, gravada com os amigos do Mombojó no instrumental. Além de Pupillo e Jorge, a Nação Zumbi marca presença também com Dengue no tema que batiza o disco e também em Passione. O álbum ainda conta com os coros etéreos de Céu, Luisa Maita e Marina de la Riva em Jardim Imperial, Rios de Passar e Fineza.

Entre os diversos craques de Setembro, destaque também para o naipe de trombones arranjado por João Carlos Araújo em Rios de Passar e na dançante e instrumental Vamos Abraçar o Sol. "É uma honra poder contar com todo mundo que participou do disco, tudo na camaradagem. Já imaginou quanto custaria para eu ter o Seu Jorge (que toca violão em Fineza) no meu disco?"

As letras do cantor e compositor nascido em Caruaru - que foi moleque para o Recife e mora em São Paulo - são um capítulo à parte. Versos que em muitas vezes já surgem com melodia na cabeça deste autodidata musical de 47 anos. Em relação à linguagem, há um rebuscamento, mas também o simples sem ser simplório. Não é à toa que Junio já foi comparado a Guimarães Rosa e Manoel de Barros. Sobre o canto, dizem que seu timbre tem um registro entre Chico Buarque e Luiz Melodia. Deixemos de lado todas as comparações. Junio Barreto é maior do que todas elas, traçando seu próprio caminho. Agora é esperar que não demore mais sete anos para presentear seus ouvintes.

JUNIO BARRETO

13/10

Sesc Vila Mariana

Rua Pelotas, 141. 21 h. De R$ 6 a R$ 24.

14/10

Circo Voador (Rio)

Rua dos Arcos, s/nº, Lapa. 22 h

15/10

Sesc Sorocaba

Avenida Washington Luiz, 446, 19h30. Grátis

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