O recorde da estupidez

Nos anos 1960, minha família se americanizou. Tudo o que vinha de lá era lindo: o futuro. Primos passaram a usar camisa polo, tênis brancos, praticar esqui aquático e golfe. Os cabelos eram penteados para o lado com gel. Como um Kennedy.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2015 | 02h00

A febre do consumo pós-guerra substituía o rigor da educação espartana europeia comum no Brasil. Sanduíche, Ketchup e Coca-Cola entraram no cardápio. O cigarro poluiu a sala de jantar. E os enormes e gastões carros americanos tomaram a paisagem urbana.

Junto com a cultura descartável, muitos voltavam de lá fascinados pelas diferenças culturais: eles cumprem as leis, dirigem com prudência, entram em filas; eles próprios colocam combustíveis. Máquinas vendiam jornais nas ruas: colocava-se a moeda e pegava o seu. Por que não pegava todos? Porque são todos honestos.

Havia lá um tipo de respeito desconhecido por nós. E todos respeitavam o limite de velocidade. Um primo contava que, numa estrada deserta do Texas, decidiu testar a potência do seu Mustang alugado, fetiche da época, e acelerou. Foi parado quilômetros adiante. Um avião da polícia com binóculo o flagrara.

Nos anos 1970, um tio morreu na BR-116, a Rodovia Régis Bittencourt, sumariamente conhecida como Estrada da Morte. Entrou com seu Opala na traseira de um caminhão. Um primo de 18 anos morreu ao cair da moto em Santos. Uma prima nunca mais andou sem muletas, depois de um bêbado bater no seu Puma. Perdi colegas e amigos em estradas. Tenho amigos que perderam os pais em acidentes de trânsito. Outros perderam filhos.

Quando vejo a ira causada pela tentativa de controle de velocidade, me pergunto se as pessoas não preferiam que as leis fossem respeitadas e houvesse mais segurança para todos; e menos vítimas nas estatísticas. Se o prefeito ou governador de uma cidade ou Estado instala radares para multar os que violam as leis, é acusado de alimentar uma invisível Indústria da Multa. O radar virou inimigo. Quando é derrubado por um vândalo, comemora-se.

Já vi “especialistas” afirmarem que a redução de velocidade é perigosa. Que é aliada de assaltantes. Que o motorista tem que frear bruscamente para reduzir, causando acidentes. Que os radares só pioram. Me lembro de autoridades do judiciário proibirem radares, anularem multas. Exige-se que haja uma placa indicando: “diminua a velocidade, radar à frente”. A legislação é prudente com os imprudentes, generosa com os infratores.

Nos EUA, as instituições foram se degenerando. Mataram o presidente, seu irmão, candidato à Presidência, dois líderes negros de direitos civis, entraram numa guerra suja e corrupta, apoiaram ditaduras, impeacharam Nixon, envolveram-se em golpes que denegriram a imagem de um Estado libertador. A corrupção policial desorganizou a sociedade. A América se abrasileirou. Mas a vigilância nas ruas e estradas continua severa. E as filas, respeitadas.

Morei em San Francisco, onde até ciclistas são multados se flagrados cometendo irregularidades, como não usar capacete ou indicar que vai virar. Pedestres são multados se não atravessarem na faixa. Mais de 25% da arrecadação vinha de multas. A cidade espalhara radares em todos os cantos, e a população comemorava. Ela pedia radares, para evitar atropelamentos e acidentes em seus bairros: os condutores respeitarão as leis, e o município arrecadará uma grana para melhorar vias, escolas, transporte público, parques, bibliotecas. A imprudência de uns gera qualidade de vida à maioria. Enquanto isso, vamos batendo recordes de morte no trânsito.

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O táxi para cadeirantes é um serviço que se torna fato em todo mundo. Cada cidade tem sua norma. Em Londres, os famosos carros pretos têm rampas acopladas mas laterais. Qualquer cadeirante entra em qualquer carro com a ajuda do motorista. A tarifa é subsidiada.

Na Espanha, é preciso telefonar e agendar. São minivans com rampas traseiras. Fica-se num espaço acolchoado, em que a cadeira se encaixa. A tarifa é comum. Em Nova York como na Califórnia, são caros rebaixados, em que se entra pela lateral por uma rampa. Basta ligar 311 e agendar ou esperar na rua (um litígio judicial pede que 100% da frota seja adaptada). A tarifa é comum. Todos acima podem pegar passageiros não deficientes.

No Brasil, o serviço, claro, tinha que ser mais complicado, burocrático e ineficiente. Não dá lucro a taxistas. No Rio era um modelo. Uma cooperativa serve apenas a deficientes. Um telefone atende toda demanda. O problema é que o tipo de carro que se exige (com elevadores plataforma e teto levantado) e sua manutenção são caros. E, surpresa, não têm isenção na compra do veículo e equipamento. Às vésperas dos Jogos Olímpicos, o serviço pode fechar.

Em São Paulo, a lei 14.401 de 2007 foi feita para agradar a todos de tal maneira que não agrada ninguém, nem passageiros, nem motoristas. São 88 carros com plataforma difíceis de serem agendados. Kassab sabia que o negócio não funcionava. Prometeu dois alvarás de carros comuns e mais dois de carros híbridos a cada cooperativa (frota) que aceitasse um carro adaptado (acessível).

No fim do ano, uma bomba cai no colo das prefeituras. A lei federal 13.146 de julho de 2015 exige que “as frotas de empresas de táxi devem reservar 10% de seus veículos acessíveis à pessoa com deficiência”. Se seguirem as normas cujos veículos deverão ser adaptados com plataforma elevatória na extremidade traseira ou lateral, o serviço continuará deficitário. Mas se seguirem o modelo de rampas do mundo todo, que também transporta passageiros não deficientes...

A Prefeitura de BH opera com táxis com rampas. A do Rio promete isenções. A de São Paulo reconhece que precisa mudar. Luta para ampliar o conceito de acessibilidade através do Projeto de Lei 563/2014, que tramita a passos lentos. Já foi aprovado em quatro Comissões. Está parado na de Finanças e Orçamento. Sua aprovação garantiria um serviço eficaz de táxis com rampas. E mais inteligente.

 

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