Otavio Dantas/Divulgação
Otavio Dantas/Divulgação

O recontador de histórias

No espetáculo O Jardim, Leonardo Moreira vale-se de dramaturgia inventiva para traçar um épico familiar

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2011 | 00h00

Há quem acredite que todas as histórias já tenham sido contadas. No século 19, o francês Georges Polti foi mais longe. Assegurou que, na verdade, só existem 36 histórias no mundo. Todo o resto, defendia, seriam apenas variações e combinações desses arquétipos dramáticos. Tese que jogava um balde de água fria nas pretensões de originalidade - de antigos e futuros escritores.

Saudado como um dos mais inventivos nomes de sua geração, o dramaturgo Leonardo Moreira diz não estar preocupado em ser original. "Não quero entrar em um lugar onde fico sempre em busca de um olhar diferente e não falo do que realmente é pessoal", observa o jovem de 28 anos, vencedor do Prêmio Shell de melhor autor em 2010. "Não tenho medo de que algo já tenha sido dito, porque sei que não foi dito do meu jeito."

É, de fato, de um jeito muito particular que Moreira traça a saga de uma família. Em seu novo espetáculo, O Jardim, ele elege a memória como foco. Daí, puxa linhas que o levam a tratar de amores perdidos, separações, lutos e perdas. Nada que o espectador já não tenha visto em algum lugar. Ou vivido. Mas está na maneira como manipula as narrativas o quinhão de surpresa que sua dramaturgia entrega.

Na composição de O Jardim, o autor e diretor repete o caminho que norteou seus dois trabalhos anteriores na Cia. Hiato. Aqui, a questão da diferença volta a emergir com força. O grupo, que já tinha se dedicado a investigar o autismo na montagem Cachorro Morto e diversos tipos de deficiência em Escuro, agora se aproxima de outras enfermidades. "Usamos o Alzheimer para falar das memórias perdidas e a esquizofrenia para tratar das memórias inventadas", aponta.

Os experimentos de deslocamento temporal e espacial que desenvolveu à frente da Hiato também são retomados. E o novo espetáculo surge como um épico dividido em três tempos.

Em 1938, vê-se a separação de Thiago. Ele se despede da mulher com a qual esteve casado e os dois dividem objetos e fotografias. Passados mais de 40 anos, o rapaz se tornou um velho. Não se lembra de mais nada. Mal reconhece as duas filhas e está às vésperas de partir para um asilo. Um relógio quebrado, um suéter velho, um par de sapatos. Foi tudo o que sobrou de Thiago em 2011, quando sua neta vasculha os escombros da casa em ruínas. Despontam evocações de Proust e do Chekhov de O Jardim de Cerejeiras.

Acomodado em plateias separadas, o público acompanhará cada um desses três núcleos dramáticos em etapas distintas. E em uma ordem que não será necessariamente cronológica. Todas as partes da peça, porém, estarão acontecendo ao mesmo tempo no palco. No cenário, há apenas caixas de papelão a dividir uma história - e um tempo - do outro.

À medida que o espetáculo avança, os caixotes do cenário vão caindo. O espectador assiste a uma cena inédita, enquanto outras, que já viu antes, se passam ao fundo. Diálogos surgem ressignificados em outro contexto. De repente, é como se as lembranças fossem reconstruídas fora de ordem, como se tudo acontecesse simultaneamente.

Nessa mistura de tempos que acabam se cruzando, com situações que interferem umas nas outras, o autor toma a memória não só como temática. Ela também dita a própria estrutura fragmentária, segundo a qual a obra se constrói. "É uma dramaturgia fractal. Cada parte funciona como um todo, mas o todo só existe quando recomposto", lembra Moreira.

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