O reconhecimento de um intelectual

Resgate da trajetória do alemão Rüdiger Bilden, que influenciou a obra de Gilberto Freyre

ELIAS THOMÉ SALIBA , O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2012 | 02h06

Apesar de imigrante alemão ilegal, ele iniciou sua trajetória acadêmica em Nova York, na Columbia University, em 1917, justamente na época em que uma autêntica histeria antialemã varria o país no pós-guerra. Em 1920, quando sua carreira parecia tão promissora quanto a de seu jovem colega brasileiro, Gilberto Freyre, ele definiu a escravidão e a história do Brasil como foco de seus estudos. Enfrentando dificuldades, conseguiu um auxílio para a viagem ao Brasil, em 1925, onde aprofundou suas pesquisas para escrever uma história do País. Perfeccionista incorrigível, fluente em cinco línguas (incluindo o português), afinado com a metodologia germânica empirista e orgânica e rejeitando radicalmente o racismo e eugenia dominantes na época, concentrou sua atenção inicial na diáspora africana e na miscigenação como singularidades para construir uma nova interpretação da história brasileira. O problema é que, por circunstâncias as mais diversas, ele nunca conseguiu escrever seu livro; e quando, em 1933, seu amigo Freyre lhe enviou o seu Casa-Grande & Senzala, reconheceu ali, constrangido, muito de sua interpretação da história brasileira.

Essa é a história de Rüdiger Bilden (1893-1980), que tem sua trajetória intelectual reconstruída por Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke, em O Triunfo do Fracasso, uma extraordinária pesquisa sobre o fracasso de um brasilianista pioneiro e um belo painel sobre revezes, mesquinharias e contingências da vida intelectual. Pesquisa extraordinária porque, com exceção de alguns poucos registros e cerca de 200 cartas, Bilden não deixou quase nenhum registro de sua vida. Maria Lúcia realiza a proeza de esmiuçar traços do personagem através de registros indiretos, dispersos na correspondência daqueles que privaram de sua amizade, como William Shepherd, Franz Boas ou Oliveira Lima, e em inúmeras referências erráticas, cujo exemplo maior é a existência de dois atestados de óbito de Bilden, o de 1970, forjado para resolver pendências de herança, e o verdadeiro, de 1980. O resultado é uma narrativa envolvente, cheia de episódios interessantes, como o das reações de Bilden aos profundos contrastes que ele vivencia no Brasil; as discriminações sucessivas que sofre no meio intelectual americano, primeiro durante a conjuntura da 2.ª Guerra Mundial, e, depois, durante as perseguições na época do macarthismo. Por vários motivos, ele nunca conseguiu concluir seu livro, mas o maior deles talvez tenha sido o fato de nunca haver alcançado qualquer estabilidade profissional. Como professor contratado, passou por várias instituições, sempre endividado com os amigos e, no final da vida, imerso na pobreza e na solidão. Tão solitário que, em relação aos últimos 20 anos de sua vida, não sobrou nenhuma referência. Mas os azares da fortuna também foram inclementes para Bilden: o incêndio em sua residência em 1924, que resultou na queda da esposa grávida e na perda do bebê, é um dos lances mais dramáticos. Até o convite para assumir a curadoria da Coleção Oliveira Lima em Washington, que finalmente lhe garantiria alguma estabilidade - enviado por Flora de Oliveira Lima, foi extraviado pelo eficiente correio americano em 1940 e outra pessoa acabou contratada!

A surpresa de Bilden, em 1933, ao verificar quanto Freyre expunha no seu Casa-Grande & Senzala ideias havia tempo defendidas por ele - e com as quais o brasileiro tinha discordado no passado -, vem apenas demonstrar que, na história intelectual, os conceitos não precisam ser impressos para serem difundidos. As ideias de Bilden eram bem conhecidas por inúmeros intelectuais que privaram do seu círculo de sociabilidade naqueles anos. O próprio Freyre foi aquele que mais poderia ter feito para evitar que Bilden caísse na quase total obscuridade - mas, à medida que os anos passavam, suas referências ao amigo alemão foram escasseando até desaparecerem totalmente. Maria Lúcia comprova o esforço progressivo de Freyre para minimizar a importância de Bilden, especialmente no estágio no qual isto fica mais evidente - quando Freyre já usufrui a almejada fama e Bilden, a completa obscuridade. Infelizmente, nessa relação conflituosa e destituída de quaisquer traços de generosidade, Freyre não está sozinho, pois partilha atitudes que são, até hoje, intrínsecas não apenas à vida intelectual, já que ninguém quer se associar aos perdedores. A autora recorre ao cáustico Arthur Miller, que dizia que ninguém quer se associar a perdedores, pois quem fracassa representa o "esquecimento, ao passo que as pessoas que são bem-sucedidas são amadas, porque exalam alguma fórmula mágica para evitar a destruição e a morte".

De qualquer forma, Bilden fracassou como cientista social e historiador, mas, nos anos posteriores à 2.ª Guerra, solidarizou-se com o ideal da chamada Renascença do Harlem, tornando-se um educador engajado e ativista do movimento negro. Seu projeto posterior de escrever um livro sobre o sertão e as populações sertanejas do Brasil também permaneceu apenas no limbo dos projetos nunca realizados. De tudo que ele concebeu restaram apenas artigos esparsos e um texto inédito de 1931 - reproduzido em apêndice do livro -, no qual se percebem alguns insights pioneiros, que hoje se transformaram em lugares-comuns na interpretação da história social brasileira. O papel de Bilden na virada da compreensão da história brasileira, ocorrida na primeira metade do século 20, pode ser visto, contudo, como uma espécie de triunfo já que, na história intelectual, ele acabou sofrendo, como tantos outros, daquilo que os historiadores das ideias chamaram de "efeito São Mateus", expresso na conhecida parábola dos dez talentos: "A qualquer um que tiver será dado e terá em abundância; mas ao que não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado". O Triunfo do Fracasso restitui à figura de Bilden um pouco daquilo que, afinal, por justiça lhe pertencia, pois no percurso intelectual ainda vale a definição de Hugh Trevor-Roper: "A história não é simplesmente aquilo que aconteceu: é aquilo que aconteceu no contexto do que poderia ter acontecido".

ELIAS THOMÉ SALIBA É HISTORIADOR, PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.