Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

O reata e o desata de quem vive as relações amorosas na pandemia

O reflexo da covid nos relacionamentos produziu casamentos e divórcios; histórias de quem escolheu morar junto ou de quem preferiu dar um basta

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 05h00

Até que a pandemia nos separe. Ou, quem sabe, até que a pandemia nos una. Tem sido assim, entre enlaces e desenlaces amorosos, que muita gente vem atravessando este ano de pandemia. O reflexo da covid nos relacionamentos produziu casamentos e divórcios; histórias de quem escolheu morar junto ou de quem preferiu dar um basta.

Nosso primeiro relato já abraça os principais destinos de uma vida a dois: a separação, a reaproximação e o casamento. No início da pandemia, a auxiliar e professora e passista Alessandra Vânia, 34 anos, e o atendente Vinícius Paltrinieri, 34 anos, terminaram um relacionamento de 7 anos. “Acho que a pandemia piorou o que era uma crise dos 7 anos de relacionamento. Tinha um desgaste da relação que a pandemia piorou muito. Eu achei que o amor tinha acabado e decidi voltar para a casa da minha mãe”, contou Alessandra. 

Os meses pandêmicos foram passando. Alessandra não queria olhar na cara do Vinícius. Mas o afastamento, ainda mais radical por conta do isolamento imposto pela covid, fez com que os dois repensassem essa situação. “A gente conversou, colocou tudo o que estava acontecendo e decidiu voltar. Ninguém, em um casamento, é 100% feliz. Mas este é um momento importante para estar ao lado de quem se gosta. No meio de tantas tragédias, a vida fica mais leve e fácil com alguém do lado”, comentou Alessandra.

Alessandra e Paltrinieri decidiram selar o longo relacionamento em um casamento. Com todas as medidas de restrição possíveis, os dois organizaram uma cerimônia de casamento. “A pandemia mostra quem tem o verdadeiro amor. Muitos amigos se separaram, mas muita gente se uniu também. Conviver não é fácil, mas quem ama consegue superar”, pregou Paltrinieri.

Superação foi um norte para quem quis ficar junto nesta pandemia. A relações públicas Amanda Abed, 28 anos, e a estudante Sabrina Gleason, 27 anos, precisaram encontrar uma forma para que a relação não esfriasse no meio de uma pandemia. 

Quando a covid se instalou no mundo, Amanda estava no Brasil e Sabrina, nos EUA. Como todos sabem, as viagens entre os dois países ficaram (e ainda estão) bastante limitadas. Ou seja, a pandemia colocou uma barreira na história de amor vivida por elas.

Mas qual seria a maneira de Amanda e Sabrina continuarem, fisicamente, juntas? Segundo as normas impostas pelo governo americano, essa viagem só poderia acontecer se Amanda fosse residente ou já estivesse casada. Mas como? 

“A gente participa de um grupo chamado Love is Not Tourism (Amor não é turismo), que reúne pessoas na mesma situação que a nossa, com relacionamentos interrompidos pelo distanciamento imposto pelo coronavírus. Neste grupo, alguém postou que, em Utah, nos EUA, já era possível se casar a distância. E que, com esse casamento, nós poderíamos voltar a nos encontrar”, falou Amanda.

E assim foi feito. Amanda e Sabrina se casaram pelo Zoom. O casamento foi, inclusive, transmitido por uma live no Instagram, para que amigos e parentes pudessem acompanhar a cerimônia. O resultado é que, com os documentos do matrimônio em mãos, as duas puderam se reencontrar. Amanda foi para os EUA e já trouxe Sabrina para o Brasil. As duas estão vivendo juntas e felizes.

Mas nem tudo é “love story”. A professora Cláudia (nome fictício), 41 anos, terminou um casamento de 16 anos no período pandêmico. “Nenhum processo nasce assim do nada, mas o confinamento acelerou um olhar para dentro, forçou um balanço e fez repensar nossas escolhas”, disse. “Antes da pandemia, a relação se equilibrava com a possibilidade de estar em outros ambientes, conviver com outras pessoas. Mas, na situação em que o foco era uma só pessoa por 24 horas, durante meses, não passamos pela prova de fogo.”

Cláudia e seu agora ex-marido entraram em consenso. “A ideia foi colocada na mesa e abraçada pelos dois. Só não sabíamos se seria possível concretizá-la tão rapidamente (por conta da mudança), mas chegou um momento em que não teve mais jeito. Precisamos deixar de morar juntos”, contou. “O mais complicado é que o isolamento atrapalha na elaboração da separação. A gente não pode sair, aproveitar a cidade, conversar com pessoas novas. Está tudo mais difícil”, concluiu. 

Heróis da resistência. A insistência em realizar um casamento foi uma das formas que muita gente encontrou de manter o relacionamento em pé e funcional. A nutricionista Flávia Borges Tavares Magalhães, 38 anos, e o engenheiro de Obras Anselmo Tavares de Oliveira Magalhães, 48 anos, tinham o casamento marcado para o dia 13 de junho de 2020. Com tudo pago, o casal foi convivendo com a expectativa e manejando as possíveis datas.

Até que, no último dia 27 de fevereiro, um pouco antes de começar a fase vermelha do plano de combate à covid em São Paulo, o casal conseguiu organizar uma cerimônia para poucos convidados e com todas as diretrizes de distanciamento. “Não queria deixar para 2023. A gente tem outros planos na vida. A gente quer ter filhos, quer viajar...”

O casamento também foi uma questão para Anderson Cavalcante da Silva, 33 anos. Ele tinha marcado uma data em março do ano passado para pedir a mão de Catherine Almeida, 35 anos, em casamento. Claro, era um esquema romântico e especial, que envolvia uma viagem e toda uma preparação. Tudo isso precisou ser adiado por conta da covid. “Fiz o pedido em casa mesmo – e depois de pedir comida no delivery. Ela, felizmente, aceitou”, explicou ele.

Anderson e Catherine se casaram no civil e hoje vivem na Inglaterra. Anderson é sócio de uma startup e Catherine, vejam só, trabalha na comunicação interna da AstraZeneca (sim, a da vacina). “Nós somos bastante independentes. Respeitamos o espaço um do outro. Por isso, tem dado certo mesmo em tempos de pandemia”, comentou Catherine.

Juntar os trapos. Alguns casais aproveitaram as incertezas da pandemia para experimentar a vida sob o mesmo teto. O designer Juliano Lamb de Oliveira, 43 anos, está morando com a namorada. “Não sou de São Paulo, não conheço muita gente. Por isso, na quarentena, ficar junto ajuda muito. Claro, não são só flores, é um desafio, mas foi nossa melhor decisão”, lembrou. 

Já o casal formado pela psicóloga Fernanda Gonçalves, 41 anos, e o especialista em comércio exterior Marcelo Fiorato, 30 anos, encontrou uma solução intermediária. Eles não estão morando juntos de forma definitiva, mas Fiorato passa a maioria dos dias na casa de Fernanda. “Tem uma questão prática e econômica de dividir o mesmo espaço. Meu namorado está buscando uma recolocação profissional e dividir as coisas tem ajudado. Além disso, nos damos muito bem. É mais fácil passar por este momento juntos”, ressaltou Fernanda.

Psicólogo e professor da The School of Life, Saulo Missiaggia Velasco disse que a pandemia pode provocar separações porque “potencializa conflitos pequenos e também estimula o surgimento de novos conflitos”. “Convivendo dentro de um único ambiente, as decisões que estavam sendo postergadas ficam mais urgentes e acabam provocando conflitos”, explicou.

Por outro lado, Velasco afirma que a pandemia também fortaleceu outros laços. “Em momentos de adversidade, os laços se fortalecem nas pequenas bolhas de relacionamento, alguns relacionamentos se fortalecem. E os vínculos ficam mais evidentes.”

Para quando a pandemia acabar, o psicólogo aposta nestas duas vertentes: enlaces e desenlaces. “Mudanças abruptas são um gatilho para tomadas de decisões. É provável que as pessoas reorganizem suas vidas depois que isso acabar. Ou seja, isso pode significar tanto novos casamentos ou mais separações”, acrescentou.

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