O real e o surreal se cruzam

Autor mais encenado na Romênia após a queda do comunismo, Matéi Visniec é também repórter da Radio France Internationale há 20 anos. Desde que se exilou na França, em 1987, mais de 20 textos seus foram montados em países como Alemanha, Áustria, Polônia, Finlândia, Itália, Grécia, Turquia, EUA e Brasil. Nenhuma peça até o momento ficou no papel. Todas foram encenadas, algumas por diretores famosos como o cineasta húngaro István Szabo (Mefisto), que assinou, no ano passado, em Chicago, uma elogiada montagem de A Palavra Progresso na Boca de Minha Mãe Soava Terrivelmente Falsa (2005).

O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2012 | 03h12

Surrealista, repleta de observações irônicas, a peça fala de refugiados da ex-Iugoslávia que, após o fim da guerra, voltam para casa apenas para testemunhar o fim de um mundo que conheceram. Um casal quer enterrar o filho, mas não acha o corpo. Seus vizinhos vendem ossos das vítimas do conflito. Aos poucos, o espectador conclui que está vivendo entre vivos e mortos - e que não há muita diferença quando se perde a identidade numa guerra nacionalista.

Para Visniec, tampouco há diferença entre personagens reais e teatrais. Ricardo III Está Cancelada (2001), por exemplo, elege como protagonista o célebre diretor russo Vsevolod Emilievitch Meyerhold (1874-1940), assassinado a tiros na prisão pelo regime stalinista. Visniec mostra Meyerhold às voltas com o pesadelo dos censores ao montar o drama histórico de Shakespeare, associando o rei inglês à figura do ditador soviético. O regime seria mais uma vez atacado por Visniec em História do Comunismo Contada aos Doentes Mentais (1998), ambientada num hospício, em 1953, poucas semanas antes da morte de Stalin. Um escritor medíocre é convidado a recontar a história da Revolução Russa para os insanos - e o faz com linguagem infantil, sendo considerado suspeito por agentes do governo disfarçados de loucos. No final, ele é obrigado a escolher seu lugar: ou fica entre os médicos, ou entre os pacientes.

Visniec também recorreu a personalidades romenas para criar seu teatro do absurdo baseado em fatos reais. Umas delas foi o filósofo Emil Cioran (1911-1995), que refletiu igualmente sobre o absurdo existencial e a tirania da história, temas caros ao conterrâneo dramaturgo, formado em filosofia. Visniec, na peça Os Desvãos Cioran ou Mansarda em Paris com Vista para a Morte (2007), narra seu encontro imaginário com o pessimista pensador, que, ao sair certo dia do prédio das Edições Gallimard, perde a memória, errando por Paris, onde morreu.

Outra celebridade romena, mais próxima do mundo teatral de Visniec, Eugène Ionesco (1909-1994) é revisitado na peça Da Sensação de Elasticidade Quando se Marcha Sobre Cadáveres (2009). Nela, quatro intelectuais romenos, presos em 1959 por criticar o regime comunista, divertem-se na cadeia representando A Cantora Careca, a conhecida peça de Ionesco, maior nome do teatro do absurdo, que nela apresenta a linguagem como um instrumento ultrapassado, incapaz de comunicar o que quer que seja. O cético Beckett, que também desconfiava das palavras, é homenageado por Visniec, que o leu aos 15 anos, em O Último Godot (1987). Na peça, a mais curta de Visniec, escrita aos 31 anos, o incógnito personagem de Esperando Godot surge em cena reclamando ao autor o papel de protagonista. Expulsos de uma representação teatral, ele e Beckett conversam ao lado de uma lata de lixo na rua. Falar, conclui Beckett, é o mais importante, mesmo quando não se tem nada a dizer, respondendo a Godot que, desesperado, confessa não poder viver sem o teatro. Absurdo ou não.

A mais radical reflexão sobre o teatro, porém, veio dois anos antes de seu Godot. Em Le Spectateur Condamné à Mort (1985), Visniec faz da sala de espetáculos um tribunal em que os espectadores são ao mesmo tempo jurados e testemunhas, escolhendo um bode expiatório como réu - uma pessoa da plateia eleita ao acaso, que será condenada à morte no fim da representação sem mesmo saber a razão de estar sendo julgada. Acima de tudo, porém, reina Tchékhov no imaginário de Visniec. Pelo menos duas peças dele falam do dramaturgo russo: A Máquina Tchékhov (2000) e Nina ou De La Fragilité des Mouettes Empaillés (2008), jogo teatral em que o dramaturgo ressuscita um trio amoroso do russo, os escritores Trigorine e Treplev e a frágil atriz Nina. Poético. Arrebatador. / A.G.F.

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