O real e o enigma

Tema da representação é o mote das inteligentes obras de Liliana Porter

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2011 | 03h09

Sobre uma prateleira de madeira, uma pequena e banal estatueta de gesso representa um casal dançando - mas a mulher está sem cabeça. A artista argentina Liliana Porter, autora da obra, intitulada Dancers, ri: "Ele está olhando fixamente para ela e nem percebeu a falta", brinca. Interessa a Liliana, como ela afirma, o humor que representações feitas com os mais variados objetos, bibelôs e ícones da cultura de massa - Elvis Presley, um Mickey -, colocados juntos e numa escala diminuta, podem gerar. "Nada como uma aparente e diminuta construção visual, sintética a ponto de ter que lidar com o próprio vazio ao redor para deixar claro o caráter enigmático do real, seu lado mais escorregadio", define o curador Adolfo Montejo Navas sobre a produção da artista.

Dizer que Liliana Porter cria narrativas em cada uma de suas obras seria pouco como se vê na exposição The Enemy e Outros Olhares Oblíquos, mostra individual da destacada artista na Luciana Brito Galeria. "Melhor dizer que são narrativas epifânicas", afirma Montejo Navas, curador da exposição, centrada na produção realizada pela artista, principalmente, entre 2008 e 2011 (de período anterior há, no conjunto, apenas a fotografia em preto e branco de 1973). O uso de miniaturas é uma marca das inteligentes, sutis e humoradas criações de Liliana Porter, mas quantas vezes, dentro desse universo de coisas diminutas, as metáforas da artista tratam de 'pequenas grandes tragédias'.

A obra The Enemy (O Inimigo), que está no título da exposição, é um intrigante trabalho de 2007 em que uma grande tela branca abriga uma assemblage de um soldadinho apontando um revólver para um diminuto espelho oval. "São olhares oblíquos que a artista estabelece no tempo, entre os trabalhos e o espectador, sempre em diagonal, nunca direto, simples", explica o curador.

Liliana, que vive em Nova York, transita entre diversos gêneros como o vídeo (em que a parte sonora, tão importante, foi feita por Sylvia Meyer), a fotografia, a pintura, o desenho, bordados, a assemblage; se diverte com as menções à história da arte - como nas peças sobre Brancusi e Magritte -, mas, como ela brinca, mais uma vez, seria melhor perguntar a um analista o por quê de agora colocar, em suas mais recentes obras, uma questão de "tsunamis", "grandes catástrofes", "tudo que se perde", diz.

Subvertendo a clássica tradição da pintura, a artista "dinamita" telas, como em Untitled With Glass Ship (Sem Título Com Navio de Vidro), com a narrativa em que uma enxurrada de tinta branca engole pequenos objetos e uma paisagem - e um diminuto homem está com uma pá tentando, em vão, limpar a cena. "Os temas que me preocupam é a relação entre as coisas e quem as vê; a consciência de que toda percepção é uma releitura, o tema das 'certezas' e 'equívocos'; o das correções arbitrárias que fazemos para entender", ela define.

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