Imagem Leandro Karnal
Colunista
Leandro Karnal
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O real da realeza

Como seriam as reuniões entre o irônico Churchill com a jovem e insegura Elizabeth?

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

04 Janeiro 2017 | 02h00

Uma página nova de um caderno escolar apresenta letra mais cuidadosa do que as finais. O início da viagem é tomado de expectativas risonhas, ao passo que seu fim traz o cansaço da volta entremeado das memórias do percurso. O novo é verde, viçoso e tem o frescor da aurora. O velho é sépia. Começamos 2017. 

Gosto de filmes e séries históricas que mostrem anos iniciais de um governo, de personagens em construção. Como eram as pessoas que depois acumularam muita experiência? É o caso da primeira temporada de série televisiva The Crown, do mesmo Peter Morgan que havia elaborado o roteiro de A Rainha (Stephen Frears, 2006). 

The Crown mostra Elizabeth II no aprendizado para sua longa carreira de rainha. Claire Foy faz o papel da jovem soberana, a primeira a não ser sagrada imperatriz desde sua trisavó Vitória, já que a Índia tinha se tornado independente em 1947. Quem olha hoje a chefe de Estado nos seus 91 anos incompletos tem a tendência a se esquecer de que ela é soberana desde antes do seu 26.º aniversário. Porém, ela veio ao mundo sem ser herdeira direta do trono e passou a infância longe do peso da coroa. Elizabeth teve de aprender. 

Margeando o conhecimento histórico, séries e filmes apresentam um certo compromisso com o real. Precisam colocar as pessoas com seus nomes corretos, as datas e demais referências, para que todos reconheçam verossimilhança com os fatos. As molduras são preenchidas com imaginação. Dormiria o austero príncipe Philip, duque de Edimburgo, completamente sem roupas? Duas vezes a série expõe as nádegas do real consorte ao espectador. Filmar o passado implica liberdade criativa. O público vê e confia no que observa, porque identifica as personagens históricas, que parecem corretas. O caixilho é o Real da realeza. A audiência cresce porque a tela é fantasiosa, aproximando as personagens do nosso mundo (ou, ao menos, do mundo folhetinesco). A história dá o ar de legitimidade, o enredo fornece o sabor que procuramos. Há mistura do didático e do lúdico, cada um preenchendo as lacunas do outro. 

Como seriam as reuniões entre o irônico Churchill com a jovem e insegura Elizabeth? Um conservador respeita muito a coroa, mas o velho primeiro-ministro conseguiria controlar ao menos uma frase venenosa de soslaio? A Elizabeth II verdadeira não deixou uma análise pormenorizada, mas chorou no enterro de Churchill, em 1965. Havia afeto entre eles. 

A família real emerge cheia de humanidade e contradições. A rainha-mãe entra numa crise depressiva após a morte do marido. Tem de deixar o palácio de Buckingham, como manda a tradição. As filhas cresceram e deixaram de precisar dela. Torna-se uma viúva, quando tinha menos de 52 anos. Viveu ainda meio século e teve de se adaptar a novas realidades. Teria tido tais crises? Morreu centenária. Teria Elizabeth II cobrado da mãe a educação deficitária que recebera? The Crown afirma que sim. Tudo faz parte de um exercício do plausível e da busca do diálogo com o público atual. O castelo de Mey foi, de fato, adquirido pela rainha-mãe no norte de sua Escócia natal. Era seu refúgio e mostrava uma vontade de isolamento. As cenas com o proprietário antigo são buscas de substância televisiva. 

Mas o centro da obra é a própria rainha Elizabeth II: seus flashes durante a Segunda Guerra, suas memórias do tio abdicando quando contava 10 anos de idade (ato que a acabaria conduzindo ao trono). O centro da trama é o choque do senso de dever e suas angústias pessoais, seu atrito com a irmã em função do amor ilícito de Margaret com Peter Townsend, sua relação com a figura hierática de Mary de Teck, sua avó. O choque é entre Elizabeth de Windsor com Elizabeth II, entre a mulher e a personagem. Na prática, é o desafio de todo monarca. José Murilo de Carvalho começa a biografia de D. Pedro II comentando o atrito entre o imperador e Pedro de Alcântara, homem alto, tímido e de voz fina, que queria ser professor, apenas. Objetivamente, é a colisão que todos enfrentamos nos nossos múltiplos papéis. 

Mas há uma coisa na série que provoca ligeira melancolia. Alguns dos discursos feitos por Churchill, especialmente a fala após a morte de George VI e a ascensão da nova rainha, citam trechos da época, reproduzidos na tela. O gabinete escuta ansioso, na esperança de ver fraquejar o velho leão. Há uma pausa retórica que parece confirmar que ele está senil. Depois, segue-se uma das páginas mais memoráveis da retórica do século 20. O discurso pode ser escutado na internet, na voz idosa, mas firme de Churchill. Na série, o encadeamento das cenas é muito bom, coroado com a performance teatral da velha rainha Mary se curvando diante da neta e reconhecendo, em seu luto profundo, que um novo poder surgia na frágil Elizabeth. O trono é mais poderoso do que seus ocupantes. Mary se inclina enfaticamente e demonstra que não existe mais Elizabeth de Windsor, mas apenas a rainha Elizabeth II.

Essa é parte da magia das monarquias: a liturgia do cargo antecede e se amplia sobre as pessoas. No campo simbólico, as repúblicas sempre falharam miseravelmente diante da força histórica e sagrada do trono. A célebre música de Haendel usada em coroações, Zadok the Priest, com sua grandiosidade épica, seria inconcebível numa posse em Brasília. 

Mas eu falei de ligeira melancolia. Sim, porque ouvir Churchill discursando me remete aos discursos atuais sob o trópico da crise. Temos homens preparados e já houve até pessoas cultas na presidência. Mas a falência da nossa retórica é brutal. Os políticos falam mal, pronunciam de forma péssima e, quase sempre, expressam ideias pouco elaboradas. Insultam-se, matando o decoro, a inteligência e a esperança num Brasil melhor. Por que melancolia? Porque um dia os discursos estiveram inscritos nas páginas da literatura mundial; hoje, amiúde, constam em autos judiciais de acusações recíprocas de rapinagem. Moldura e tela ficaram de qualidade duvidosa.

Volto à ilha do Norte. Talvez a magia não seja a rainha em si, ou sua opacidade, mas como é absorvida pelo glorioso sol de Windsor que ofusca seu despreparo. Na nossa República, a mediocridade é exaltada e a ribalta política traz à tona o caráter tosco e raso dos nossos líderes. Não sou um monarquista, mas confesso que ser republicano está cada dia mais árduo... God save the Queen! Que Marianne, símbolo da República, tenha uma ou duas aulas de etiqueta e de dignidade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.