O raro barroco italiano ao trompete

Como solista de concerto, o trompete só se emancipou depois da invenção dos pistões, em 1815, quando passou a emitir toda a gama cromática. Durante o barroco, os trompetes naturais eram diatônicos, ou seja, só podiam emitir os harmônicos naturais. De um lado, os trompetistas eram muito prestigiados, porque tinham funções utilitárias importantes nas cidades e como instrumento militar. Mas as suas limitações técnicas o marginalizaram da produção concertante do barroco do século 18.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2010 | 00h00

Por esse motivo, o repertório barroco para trompete é limitadíssimo. Não há trompetista que não inveje a fabulosa e ampla literatura concertante do século 18 para violino e oboé, por exemplo. A inteligente, bela e jovem loira trompetista britânica Alison Balsom (foto), que há pouco emocionou a plateia da Sala São Paulo em excelente concerto com a Orquestra Sinfônica Brasileira, realizou o desejo de tocar o barroco italiano adotando o delicioso procedimento que músicos e compositores do século 18 praticavam à vontade: quando gostavam de obras alheias, simplesmente as adaptavam, transcreviam e assumiam sua autoria. Todo mundo era pirata. O conceito de obra de arte ainda não existia - vivia-se a mesma febre libertária que hoje se pratica na internet.

Balsom foi particularmente feliz na escolha do buquê das obras de seu mais recente CD, Italian Concertos, lançado no mercado internacional pela EMI Classics, onde toca ao lado do Scottish Ensemble.

Como se pôde constatar ao vivo na Sala São Paulo, Balsom possui afinação e domínio do instrumento raros. Parece "pinto no lixo", como dizia Jamelão, ao transcrever ela mesma dois concertos para violino de Vivaldi (RV 356 e RV 310) e até uma encantadora sonata de Tomaso Albinoni. No caso, uma bela "sonata da chiesa" (proibidas pela Igreja, as danças eram substituídas, na sonata da chiesa, por pares de movimentos lentos e rápidos).

Mas o concerto mais surpreendente é o do compositor napolitano Domenico Cimarosa, conhecido por suas óperas (quem não conhece "Il matrimonio segreto"?). Ele nada escreveu para trompete; Arthur Benjamin "construiu" a partir de seus temas mais conhecidos. Outro detalhe: Benjamin escreveu para oboé, e aqui o concerto é transcrito para trompete. O tom cantabile e as belíssimas melodias seduzem à primeira audição: começa com uma introdução Larghetto, seguindo com um Allegro, uma Siciliana e um Allegro giusto final. Qualquer semelhança com temas líricos não é mera coincidência.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.