O rádio faz 80 anos no Brasil

Há exatos 80 anos, o Brasiltestemunhava o que ficou conhecida como a primeira transmissãoradiofônica no território nacional. O cenário foi uma exposiçãocomemorativa pelos cem anos da Independência, no Rio de Janeiro, que contoucom a presença de figuras ilustres, como a do então presidenteEpitácio Pessoa. Reuniu também autoridades estrangeiras, entreeles o príncipe Alberto da Bélgica, interessadas em conhecer asrealizações brasileiras de 1922. Para o evento, visitantes norte-americanos carregaramdois transmissores, que foram instalados no alto do Corcovado. Opresidente foi o primeiro a fazer o teste nas novasaparelhagens. Por meio de uma legítima transmissão radiofônica,seu discurso foi veiculado por 80 alto-falantes, distribuídospela área da feira internacional. "Mas o som estava tão ruim,tão incipiente ainda, que o impacto foi muito reduzido", diz oprofessor da USP André Barbosa Filho, especialista em rádio. Há quem discorde da data oficial, como os pernambucanos."Em 1919, algumas pessoas realizavam pesquisas, no Recife, masas transmissões ainda não tinham voz humana e, mesmo as quetinham, não apresentavam uma programação", diz Barbosa. Segundoele, as comemorações devem se estender até o dia 21 de setembrodo ano que vem, data em que se lembra o nascimento do etnólogo eescritor Roquette Pinto, considerado pai do rádio no Brasil. Eledivide esse título com Henry Morize. Em abril de 1923, ambosfundaram a primeira rádio no País, a Sociedade do Rio de Janeiro, que começou a funcionar com aqueles dois transmissores trazidospelos norte-americanos no ano anterior. No mesmo ano da primeira transmissão de rádio no Brasil,em 1922, foi fundada a rádio BBC de Londres, pioneira naveiculação de uma programação diária. Desde o início, a emissoraseguia três objetivos imprescindíveis, estabelecidos por seuestatuto: lazer, entretenimento e educação. Roquette Pinto seinspira nesse formato nos primeiros anos de vida do rádio noBrasil. Em 1926, o Congresso norte-americano admite o uso doscomerciais nas programações de rádio. "Os EUA estabelecem maisuma norma e passam a injetar dinheiro no rádio, o que incentiva aprofissionalização de seus funcionários", afirma Barbosa. A inserção dos comerciais publicitários ajudou também amodificar a linguagem radiofônica. Nesse contexto, surgem osfamosos jingles. "No País, os jingles existem desde a década de30, quando foi ao ar um anúncio da Padaria Bragança, escrito porAntonio Nassara, em ritmo de fado", comenta o publicitário LulaVieira, que reúne em seu arquivo pessoal cerca de 10.000 jinglesgravados. "Os nossos maiores compositores, como Ary Barroso,faziam músicas para anunciantes." Inicialmente, somente um grupo restrito, endinheirado,tinha acesso ao aparelho. Nos anos 30, entretanto, sepopularizou e se consolidou, com o barateamento tanto dostransmissores quanto dos receptores. Nascem os speakers(locutores) e os programistas (produtores). Entre os speakers,Nicolau Tuma é citado até hoje como uma das figuras maiscriativas e importantes. Foi o mentor do termo ´radialista´ eficou conhecido como ´speaker´ metralhadora durante a narraçãodo jogo de futebol Vasco e Flamengo, no Estádio de São Januário,em 1934. "No intervalo, pedi para o humorista Barbosa Filhoassumir o microfone enquanto eu descansava um pouco. E elefalou: esse não é gente, é uma metralhadora. Fala mais depressaque o jogo." Foi justamente num programa de Tuma, em 1938, que aatriz Vida Alves, famosa mais tarde por protagonizar o primeirobeijo na TV, iniciou sua carreira no rádio. "Participei deprogramas infantis, cantando, mas só assinei meu primeirocontrato em 1944. Participei de radioteatros e radionovelas",recorda. "A rádio foi o berço de quase todos os artistas queforam para a TV." A década de 40 marcou a época de ouro da radiodifusão,com uma cobertura de 60% da população brasileira. "Os gênerossurgem em sua totalidade, como o jornalismo, programas culturais radionovelas, programas de humor", enumera André Barbosa.Houve produções históricas, como o lendário Repórter Esso,que permaneceu no ar durante 28 anos. Outras atrações são osprogramas de auditório, que atraíam multidões aos teatros, deonde eram transmitidos, e criaram mitos, como as cantorasMarlene e Emilinha Borba, rivais dentro e fora do rádio. Com achegada da TV, nos anos 50 - trazida por Assis Chateaubriand -,houve um esvaziamento nas emissoras de rádio. Artistas, técnicos entre outros profissionais, migraram para a TV, em busca denovas oportunidades profissionais. Em 1958, foi fundada a RádioEldorado que, entre outras ações, lutou contra a obrigatoriedadede transmitir A Voz do Brasil. Desde aquela época até hoje, a radiodifusão viu osurgimento das emissoras FMs, a popularização das AMs, a criaçãode rede de emissoras por satélite. E atualmente, se discute arádio digital. Hoje, quase 90% da população tem pelo menos umaparelho em casa. "Para mim, é o começo de tudo", diz aapresentadora Hebe, que passou pelo rádio. "Aproximou aspessoas, como hoje nos reunimos na frente da TV."

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