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O que se passa na cabeça de Moebius

Mostra multimídia em cartaz na Fundação Cartier traz não apenas a obra, mas a mente brilhante de Jean Giraud, a quem cabe o clichê de ''Picasso da 9ª arte''

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

Há um ponto em comum entre o mais realista e fidedigno retrato de Mike Steve Donovan, o tenente Blueberry, e o mais híbrido e fantástico dos personagens de Garagem Hermética, um dos mundos criados pelo major Grubert: a metamorfose. Esse tema, que domina os universos criados por Jean Giraud ao longo de 50 anos de carreira, é o grande leitmotiv da exposição multimídia Moebius - Transe-Forme, que seguirá em cartaz até março de 2011 na Fondation Cartier, em Paris.

A mostra é um painel amplo da obra de um desenhista de exceção - a quem alguns chamam de "Picasso da 9.ª arte", em uma dupla alusão ao mestre da pintura e às histórias em quadrinhos. A exposição faz jus a Moebius e traz cerca de 400 trabalhos, entre desenhos, rascunhos, cadernos, pinturas e painéis de HQ, mas vai além, oferecendo ao público dois filmes inéditos, um documentário sobre a vida do autor e a primeira animação em 3D realizada pelo desenhista.

Dividida em duas etapas, a exposição também evoca duas sensações distintas. No primeiro andar, exemplares de desenhos de Jean Giraud são apresentados em sequência, em balcões envidraçados, como se estivessem em uma joalheria. Estão exemplares de Blueberry, de Arzach, de Garagem Hermética, mas também caricaturas e autorretratos do desenhista.

Apesar da riqueza das obras, a forma de apresentação não é uma opção feliz, porque o fluxo de público excepcional e as longas filas que se formam atrás de cada espectador não deixam tempo hábil para a apreciação dos trabalhos.

O resultado é frustrante e não condizente com o dinamismo e a atmosfera de sonho e de surrealidade do trabalho de Moebius/Gir. A primeira parte é salva pelos adesivos gigantes e translúcidos de obras do desenhista, como Amazing Muse, Inside Moebius (2007-2010), colados às paredes de vidro da fundação. Com a luz do sol, os desenhos se projetam sobre o solo, ganham cores e movimentos próprios e formas variadas, além de dialogar com os demais trabalhos expostos.

As falhas da primeira parte não se repetem na sequência. Dedicada à reflexão sobre o mundo que nos envolve, ao homem e a sua capacidade de criação, essa segunda etapa da exposição se torna mais filosófica, e gira em torno de uma questão: o universo teria um "grande arquiteto" ou, ao contrário, seria orientado por uma inteligência própria?

George Lucas. Ali estão exibidas todas as formas metafóricas criadas por Jean Giraud, das abstratas às híbridas, das paisagens desérticas inspiradas no interior dos Estados Unidos às manifestações oníricas - como Le Chasseur Déprime (2008) -, passando pelos destroyers intergalácticos, que parecem estar na origem das maquetes de George Lucas em Guerra nas Estrelas.

Reconhecer em Giraud influências em outras artes, como o cinema, é aliás um dos pontos altos da mostra. São descendentes diretos ou indiretos dos desenhos de Moebius as criaturas de James Cameron em O Segredo do Abismo e Avatar, o extraterrestre de Ridley Scott em Alien, a interação entre o real e o virtual de Steve Lisberger em Tron. Não bastasse a influência, o desenhista mergulha no cinema por meio do filme La Planète Encore, animação inédita em 3D dirigida por Moebius e Geoffrey Niquet.

Também seduz o conflito entre egos artísticos de Giraud, Moebius e Gir, um fantástico, outro realista, ambos virtuoses. A dualidade é explicada pelo próprio criador em um documentário, Meatmoebius, Giraud-Moebius Metamorphoses (2010), escrito e dirigido por Damian Pettigrew e coescrito pelo próprio biografado.

Nesse filme, que mistura making of à narrativa, Giraud fala de si próprio e de suas preocupações, como a própria metamorfose. "Nós nos metamorfoseamos constantemente e isso acontece geralmente em resposta a estímulos variados, visíveis ou invisíveis, internos ou externos, mas que nos conduzem em direção a um movimento de vida, uma mudança física e psíquica", filosofa. "Para mim, a metamorfose plástica que percorre meus desenhos não é um fetiche ou uma achado gráfico; é a metáfora do que se produz no nosso interior em permanência."

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