O que se ouvia na radiola do John

Essa trilha sonora pode contribuir para dar um claro entendimento do que os Beatles ouviam quando, ainda adolescentes, gestaram a banda mais famosa do planeta. Pesquisa feita pelo diretor Sam Taylor-Wood para seu filme Nowhere Boys, que passou na Mostra de Cinema de São Paulo, e cujo núcleo se baseia no livro Imagine This: Growing Up With My Brother John Lennon, escrito pela meio-irmã de Lennon, Julia Baird.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

Interessante porque a produção resgatou, além dos grandes ídolos inescapáveis da época (Jerry Lee Lewis, Elvis Presley, Eddie Cochran), outros que, quando a gente ouve atentamente, pensa: isso faz muito sentido. É o caso de Screamin" Jay Hawkins cantando I Put a Spell on You, um estilo de cantar berrando que John Lennon soube decifrar como poucos. Também está aqui o incrível caso de Wanda Jackson, cantando Hard Headed Woman.

Essas gravações, de Screamin" (1956) e Wanda (1961), nos mostram que o amálgama que resultou no rock"n"roll é bem mais complexo do que geralmente a gente pensa. É indubitavelmente uma música negra em sua origem, mas que também empresta dos sistemas sonoros brancos, como as bandas de salão. Muitas raridades para os amantes da arqueologia musical, como Rocket 88, de Jackie Brenston and His Delta Cats, de 1951. E outras que não estão nem datadas, como Rockin" Daddy, de Eddie Bond & The Stompers.

Para completar, para os beatlemaníacos de carteirinha, há uma versão desconhecida de Mother, de John Lennon e The Plastic Ono Band, de 1970, produzida por Phil Spector, cedida por Yoko Ono para a produção. A mulher tem uma gaveta infindável, que abasteceu a festa dos 70 anos e vai durar muito ainda, pelo jeito. O filme também "inventou" uma banda para, além de protagonizar o filme, fazer releituras reais desses clássicos, batizada de Nowhere Boys. Proporciona grandes momentos, como a versão que fizeram de That"s All Right, primeiro grande sucesso de Elvis Presley, tomado ao cantor negro Arthur Crudup. Melhor que muito disco de carreira da temporada.

POP

JAMIROQUAI

ROCK DUST LIGHT STAR

UNIVERSAL

PREÇO: R$ 29,90

Jamiroquai volta às pistas com inspiração no Chic

Na passagem pelo festival Natura Nós, em outubro em São Paulo, o Jamiroquai deixou evidências de sua adesão retrô total ao som disco-funk da lendária banda Chic. Não que isso seja grande novidade em suas referências, mas na ocasião o grupo mostrou algumas faixas do novo álbum, Rock Dust Light Star, que agora confirmam a tendência. Se caíram bem no roteiro recheado de hits de quando vigorava a expressão acid jazz e Jay Kay era comparado a Stevie Wonder, sobrevivem isoladas. Entre altos e baixos, a banda foi deixando para trás certos maneirismos e fincou bandeira própria na praia da dance music, onde nem sempre há concessões às rugas da maturidade que ostenta altiva agora. Os ouvintes ocasionais de seus clássicos das pistas podem se surpreender com as boas canções do novo álbum, que tem uma cara contemporânea, apesar da base vintage. Funk dançante que liga o batidão à ambiência de um Daft Punk, White Knuckle Ride leva jeito para se juntar a essa coleção de hits. No entanto, há mais a apreciar, entre balada romântica, approach com o rock e o reggae e o elaborado instrumental da banda - com potentes linhas de baixo e seção de metais em alta. / LAURO LISBOA GARCIA

OUÇA TAMBÉM

THE SWEETEST PAIN

Artista: Dexter Wansel Álbum: Time Is Slipping Away Gravadora: EMI Preço: desde US$ 23,13 (www.amazon.com)

ROMÂNTICO

JAMES BLUNT

SOME KIND OF TROUBLE

WARNER

PREÇO: R$ 32

Blunt só não livra o mundo da tortura de sua choradeira

Pretensão pouca é bobagem. Não bastasse Kanye West dizer que seu disco é digno das obras-primas de Picasso e Michelângelo, como se fizesse arte, James Blunt agora anda posando de salvador do planeta. Disse em entrevista recente que teria evitado a Terceira Guerra Mundial ao desobedecer a ordem de um general americano para atacar combatentes russos no Kosovo em 1999, quando dirigia o batalhão do exército britânico. Uh, que poder. No entanto, não livrou o mundo de algo mais prosaico: a chatice de sua choradeira. Em 2005, não houve um canto sequer do mundo "civilizado" livre da tortura de You"re Beautiful, que foi até banida de uma rádio britânica por pressão dos ouvintes. Agora o lamurioso cantor vem com outras baladas do gênero e umas cançõezinhas mais animadinhas (e bem produzidas), como o folkbilly Stay the Night, primeiro single de Some Kind of Trouble. Quando se aventura no rock, Blunt é tão convincente quanto a Vanusa cantando o Hino Nacional. No entanto, os "sertanojos" têm vasto material para fazer versões. /LAURO LISBOA GARCIA

OUÇA TAMBÉM

YOU GIVE ME SOMETHING

Artista: James Morrison Álbum: Undiscovered Gravadora: Interscope Preço: desde US$ 7,41 (www.amazon.com)

SOUL

RAY CHARLES

RARE GENIUS CONCORD

Preço: R$ 32

Vai comprar um último CD este ano? Compre este

Ah, se toda obra póstuma chegasse com esse respeito e essa vibração... Ray Charles (foto)está vivinho, em forma, neste disco cheio de "gravações raras" e uma descoberta de dar arrepios. Por aquelas razões que ninguém explica direito, nunca havia emergido dos porões a sofrida canção Why Me, Lord, que Ray gravou com Johnny Cash em algum estúdio de Nashville no ano de 1981. Não há informação de quem são os músicos que os acompanham, como ocorre em várias faixas do disco. Impressiona a qualidade das gravações, que embora tenham sido registradas entre 1970 e 1995, têm o brilho de quem fez tudo ontem mesmo. Its Hurts To Be In Love é um suingue daqueles safados, cheio de sopros, que Ray tocava com aquele sorriso de levantar plateias. Uma força de outra natureza surge no blues There"II Be Some Changes Made, de 1990, com solo de piano elétrico de Ray e músicos adicionados para o lançamento do disco. Aqui, aparecem Keb"Mo na guitarrinha de fundo e Bobby Sparks no Hammond. Sem palavras. / JULIO MARIA

OUÇA TAMBÉM

EVERYTHING I NEED

Artista: Keb"Mo (bluesman) Álbum: Slow Down (1998) Gravadora: Sony

Preço médio: R$ 26

COVERS

VÁRIOS

GEORGE HARRISON - TUDO PASSA

DISCOBERTAS

PREÇO: indefinido

George Harrison é vítima de mais um equívoco

Ter brasileiros cantando em inglês já depõe contra qualquer projeto de covers. A calamidade se agrava quando as vítimas são um ícone como George Harrison (1943-2001) e seu grande clássico All Things Must Pass, Não bastasse uma horrível compilação de Harrison lançada em 2009, agora vem mais uma apropriação descabida da música dos Beatles realizada pelo produtor Marcelo Fróes. Até Milton Nascimento, Fafá de Belém e Zé Ramalho se envolveram nisso, em meio a arranjos equivocados e intérpretes insignificantes, como Lia Sabugosa, Leo Von e Luen (!). Já passou. / LAURO LISBOA GARCIA

OUÇA TAMBÉM

O AMOR VEM PRA CADA UM

Artista: Zizi Possi. Álbum: Letra & Música: George Harrison (2009). Gravadora: Coqueiro Verde. Preço: R$ 9,90

ROCK POP

BON JOVI

GREATEST HITS

SONY

Preço: R$ 32

As virtudes de uma banda que nasceu para ser coletânea

Algumas bandas funcionam em coletâneas, outras não. O Bon Jovi nasceu para fazer só greatest hits. Ninguém precisa ter seus discos, basta ter suas coletâneas. E, assim, esta aqui vira um ótimo negócio. Tudo o que eles fizeram de bom e duradouro está aqui: Always, Born to be My Babe, Braze of Glory, I"ll Be There For You, Bad Medicine, You Give Love a Bad Name... Os caras vieram ao Brasil este ano e mostraram estar com tudo (ou quase) em cima. E deixaram esse clima de revival que não faz mal a ninguém. Dos tempos em que o rock servia também pra se apaixonar. / JULIO MARIA

OUÇA TAMBÉM

FALLEN FRON GRACELAND

Artista: Ritchie Sambora Álbum:

Undiscovered Soul Gravadora: Mercury Preço: R$ 26

POP

ROXY MUSIC

LIVE IN AMERICA

ST2

Preço: R$ 30

Roxy Music e um show do tempo dos visionários

Um show do Roxy Music gravado em Denver, no Colorado, em 1979, mostra como era no tempo em que as bandas ambicionavam mudar o rumo da música. O Roxy de Phil Manzanera, Andy MacKay e Bryan Ferry até quando fazia rock"n"roll (casos das faixas Trash e Out of the Blue) era diferente. Solo de sax fundamental em A Song for Europe, grande sopro de Andy Mackay. O funk é outra coisa em Still Falls the Rain. Gospel pagão move teclados de David Skinner em In Every Dream Home a Heartache. A new wave não existiria sem Do The Strand (pré-Talking Heads). Absurdo. /JULIO MARIA

OUÇA TAMBÉM

TENDER IS THE NIGHT

Artista: BryaN Ferry Álbum: Olympia Gravadora: EMI Music

Preço: R$ 30

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