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O que salta aos olhos

Durante o trágico 2020, esse presidente, seus filhos – e bajuladores fardados e à paisana – não pararam de bradar “Vida longa à morte!”

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2021 | 03h00

Durante o clima insuportável que precedeu as eleições de 2018, meu amigo desdenhou da minha apreensão. 

Esse amigo era um liberal entusiasmado com o Estado mínimo. Certo, mas a implantação autoritária desse Estado-formiga pode resultar em estado de sítio e guerra fratricida. Ia dizer a ele que o Estado-elefante é nocivo, e que o tamanho do Estado deve adequar-se à construção da plena cidadania numa sociedade verdadeiramente democrática. Mas não falei nada: sabia que a ingenuidade dele ia de par com a aversão a qualquer política pública de inclusão social. 

Mas era ingenuidade ou ideologia extremista? Ele falava em mérito, em esforço individual, e citava cinco ou sete homens e mulheres que, vindos do deserto da vida, tinham construído uma floresta de fortunas. Esses poucos exemplos o confortavam; 80 milhões de pobres e miseráveis não o inquietavam. E ele mesmo não era exemplo de nada. Levava uma vida de Brás Cubas do século 21: um parasita esnobe e herdeiro improdutivo. Usava sua erudição com uma soberba que, talvez à revelia dele, rebaixava os outros. Gostava de recitar “par cœur” e em francês passagens dos Ensaios, de Montaigne. Admito que, nem mesmo sua pronúncia pedante – promessa do mais ridículo –, matava a beleza dos Ensaios. Mas, às vezes, ele era possuído por uma ignorância desavergonhada. Certa vez, disse, sem hesitar, que não havia personagens complexas no Grande Sertão: Veredas

Não quis confrontá-lo. Melhor divertir-se com equívocos aberrantes. E, convenhamos, não se rompe uma amizade por causa de um livro, nem mesmo de uma obra-prima. 

Usei os verbos no imperfeito porque só agora meu amigo mudou. O péssimo, o desastrado leitor de Guimarães Rosa está angustiado com a perda de um parente, vitimado pela covid-19. E arrependeu-se de ter votado num sujeito despreparado, mentiroso e manipulador até o vil populismo, atributos comuns de não poucos políticos. Em todo caso, não há lugar no palácio para os escrupulosos demais. Mas só agora ele assentiu que o palácio foi ocupado por um homem de caráter infame e que, durante o trágico 2020, esse presidente, seus filhos – e bajuladores fardados e à paisana – não pararam de bradar “Vida longa à morte!”. 

Não sei se o meu amigo é um caso clínico. De algum modo, todos nós somos. Mas dois anos longuíssimos não é muito tempo para perceber que o ex-militar e ex-deputado federal pratica a mesma vilania há três décadas? Quando esse sujeito fala, anuncia uma mentira criminosa; quando fica em silêncio, pressente-se um malefício. 

Minha aversão a polêmicas é tão profunda que ignorei as palavras do meu amigo, mescla de confissão e desabafo. Por que um homem de 58 anos, diplomado por uma famosa universidade estrangeira, não adquirira um naco de discernimento político? Às vezes, um diploma é apenas o belo papel timbrado da vaidade. 

Ouvi por telefone as palavras do enlutado, que só agora despertou para a infâmia. E despertou com uma severa autocrítica, que me surpreendeu: “Eu não era um verdadeiro liberal, e este governo não tem nada de liberal”. 

Não usou essas palavras, e sim uma explosão de injúrias, que escutei com deleite. Depois lhe disse que a autocrítica era uma virtude, e até mencionei, com ironia, nosso amado Montaigne: “Também nos corrigimos tolamente com frequência, assim como corrigimos os outros”. 

Desliguei o telefone, abri o livro Romance de Formação e terminei de ler um ótimo ensaio de Willi Bolle sobre Berlin Alexanderplatz. O professor Bolle cita trechos do discurso Sobre a Burrice, proferido em Viena por Robert Musil, em março de 1937. Um desses trechos é: 

“O homem público atuante, desde que está com o poder, diz que foi escolhido por Deus e destinado a atuar na História. Isso se mostra sobretudo quando certa camada inferior da classe média – em termos intelectuais e morais – se manifesta protegida por um partido, uma nação ou uma seita e se sente autorizada a dizer ‘nós’ em vez de ‘eu’.” 

Era uma alusão ao partido de Hitler que, em março de 1938, anexou a Áustria ao Reich alemão. Claro, não se deve comparar o nazismo com a destruição que está em curso no Brasil. Mas essas e outras frases de Musil, ditas numa época tenebrosa, talvez nos ajudem a refletir sobre o tempo presente: 

“A burrice ocasional de um indivíduo pode facilmente se transformar numa burrice constitucional de todos. Os exemplos para essa situação saltam aos olhos”.

E como saltam, meu amigo!

É ESCRITOR E ARQUITETO, AUTOR DE ‘DOIS IRMÃOS’ E ‘CINZAS DO NORTE’

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