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O que quero nessa quarentena?

O que precisamos fazer é, antes de nos colocarmos a garimpar algo precioso no meio de nossa bagunça, olharmos para dentro e tentar encontrar o que é realmente valioso para nós

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2020 | 03h00

Foi como uma avalanche. Bastou que a perspectiva de quarentena se tornasse real para que começássemos a receber conteúdo. Mais rapidamente do que as notícias sobre o avanço do coronavírus chegavam aos celulares e-books em PDF, cursos online, tutoriais sobre culinária, palestras imperdíveis. E então começaram a se multiplicar as lives, congestionando os aplicativos. Meio dia e oito da noite se converteram numa espécie de horário nobre da internet. 

Da mesma forma que alguns estocaram mais comida do que podem consumir e mais álcool em gel do que usarão em três anos, a quantidade de conteúdo que acumulamos seria suficiente para passar o resto da vida isolados. Parecia uma boa ideia ter várias opções para escolher no tempo livre que se anunciava à frente. No entanto a maioria de nós ainda não leu um livro, não fez um curso, mal terminamos de assistir uma live inteira. 

O que aconteceu? 

Aconteceu o que usualmente ocorre quando temos muitas alternativas diante de nós, fenômeno muito adequadamente batizado de paradoxo da escolha. Temos a falsa sensação de que quanto mais opções nos forem oferecias melhor para nós; acreditamos - equivocadamente - que a comparação minuciosa de todas possibilidades que se nos apresentam levarão à decisão mais recompensadora. Mas na prática não é isso o que acontece. 

Provavelmente muitos de nós já passamos por isso. Acessamos uma plataforma de streaming e nos colocamos a escolher algo para assistir. Uma série está sendo comentada, parece interessante. Mas aquele filme que salvamos em nossa lista poderia vir a calhar. E esse documentário que a plataforma me sugeriu, que interessante. E assim passam-se horas até que desligamos a TV sem termos assistido nada. 

Descobrimos então que o excesso de opções mais atrapalha do que ajuda. Primeiro porque o cérebro tem dificuldade de comparar as características subjetivas associadas a cada uma das escolhas possíveis. O que é mais prazeroso, uma comédia ligeira que nos fará rir ou um drama inteligente que nos fará pensar? Um documentário sobre o comportamento de animais em cativeiro um reality show sobre seres humanos confinados? Como não há critério objetivo que ajude o cérebro a encontrar uma resposta ficamos inseguros diante de qualquer escolha. 

Para piorar, a existência de tantas alternativas aumenta o custo associado a cada escolha. Os economistas chamam de custo de oportunidade a renúncia que fazemos a todas as outras opções quando decidimos por algo. Escolher uma coisa é abrir mão de todas as outras naquele momento. Portanto, quanto mais coisas tínhamos disponíveis, a mais coisas renunciamos ao escolher, o que pode ser frustrante. E pior: tal frustração reduz o prazer da escolha feita. 

Como lidar então com esse exagero de conteúdo em tempos de pandemia? Apagando tudo? Excluindo os títulos da nossa lista de favoritos? Desinstalando aplicativos? Não necessariamente. Nem acho que seja um bom caminho, pois poderia até aumentar a ansiedade pela sensação de perda. 

O que precisamos fazer é, antes de nos colocarmos a garimpar algo precioso no meio de nossa bagunça, olharmos para dentro e tentar encontrar o que é realmente valioso para nós. Com o que desejamos nos engajar de fato? Qual aquele desejo que acalentamos há mais tempo? Qual o curso, o show, o filme ou o livro alinhado com nossos valores mais caros? Se é difícil encontrar essa resposta é porque não temos o hábito de examinar nossos valores. 

Se quisermos aproveitar bem o tempo de quarentena, esse pode ser um excelente ponto de partida. 

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