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O que poderia ter sido não existe

Uma noite, em uma festa, olhei para Alda e percebi que estava apaixonado. Mas como declarar?

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

16 de julho de 2021 | 03h00

Ao meio-dia, as classes deixavam o Ieba e corríamos para a esquina da Rua Quatro, ponto estratégico para observarmos a saída das alunas do Colégio Progresso. Havia centenas de jovens, mas cada um estava ali por causa de uma. Meu interesse era Alda, sempre junto à irmã Maria Ernestina, ambas Lupo. As duas, em seus uniformes brancos, avental xadrezinho preto e branco, passavam por nós e seguiam sem nos olhar, mas sabendo-se olhadas. Fazia parte do jogo. Não era o footing, onde se trocavam olhares prometedores, ou se paquerava. Para mim, a visão da Alda alegrava o dia. Era bonita, diáfana, parecia compenetrada, me dava a sensação de inacessível.

Naquelas manhãs descobri a ansiedade doce da espera e a alegria do encontro, ainda que este encontro existisse apenas na minha mente. Isso me bastava. Atenção terapeutas! As duas irmãs provocavam sensação e anseios.

Mais tarde me aproximei delas. Era crítico de cinema e colunista social, tentava fazer uma crônica semelhante à de Jacinto de Thormes, que revolucionou o gênero no Brasil. Assim, eu as encontrava em festinhas, nos bailes do Araraquarense, em casamentos. Conversávamos, vez ou outra, elas me davam notícia de algum namoro, ou de quem estava interessado em quem, o que dava um tom atraente à coluna. Na época, ao frequentar os jantares do Rotary Club, fiz amizade com dois Lupos proeminentes, o Wilton e o Élvio, que tocavam a fábrica de meias. Uma noite, em uma festa na casa de Wilton, olhei para Alda e percebi que estava apaixonado. Mas como declarar? Ia além da timidez. Como frequentar o círculo dela? A certa altura daquele festa, ficamos lado a lado, Wilton passou e marotamente deixou escapar: “Vocês parecem se dar bem!”. Na hora pensei: é agora, fale. Travado, ela na dela, sem imaginar nada. Ou sabia?

Em uma festa no jardim da casa de Vera de Oliveira, Alda sentou-se ao meu lado. Acaso? Ou de propósito? Dançava-se ao som de Quizás, Quizás, Quizás, Besame Mucho, Love Me Forever, Dindi, Patricia, Only You (com The Platters), Marina, Diana, You Are My Destiny (Paul Anka ainda está vivo, vejam só). Fui buscar um cuba-libre, para ter coragem, e segui firme em direção a Alda, mas vi o jovem Peri Medina chegar antes. Meu mundo caiu, diria Maysa Matarazzo. Fiquei estatelado, Maria Ernestina percebeu: “Não é nada, não, a próxima pode ser sua”. Não foi. Não foi nunca, Alda e Peri se casaram mais tarde. Não sei se começou ali ou quando começou. Algum tempo depois, deixei a cidade.

Em São Paulo, envolvido em projetos determinados, ser jornalista e, talvez, escritor ou diretor de cinema, vida seguiu. Anos depois, já tendo publicado vários livros, editado jornais e revistas, encontrei-me com Alda, Maria Ernestina e Martha, a terceira irmã. Onde? Na mesma esquina da Rua Quatro com a Duque. Coincidência? Simultaneidade? Já então, mais seguro de mim, foi tudo solto, gostoso, sorrisos, lembramos daquelas saídas do colégio décadas antes. Pensava: ainda gosto dela? Sentia o mesmo? Não tinha sentido. A vida tinha corrido.

Uma ou duas décadas se passaram. Em Paris, certo dia, procuramos a casa de Rafael Lupo, na Place des Vosges, onde estava hospedado seu primo Gabriel, filho de Adriana Medina, amiga de infância de Márcia, minha mulher. Gabriel era primo de Rafael, segundo filho de Alda e Peri, e já um joalheiro conceituado da Cartier. Nesta altura, Alda tinha mais três filhos: Claudia, Aldo e Péricles.

A vida tem muitos pontos e vai ligando um a um, até o arremate. A frase não dita, o gesto que não aconteceu, a carta ou e-mail nunca enviados, o telefonema não dado, a visita não feita. O que poderia ter sido não existe. Meses atrás fui chamado para escrever o livro do primeiro centenário da Lupo e mantive intensa troca de e-mails com Liliana Aufiero, diretora-superintendente da empresa. Em meio a tantas conversas, o assunto Alda veio à tona e contei a história. Alda é prima dela. Certa manhã, estávamos ao telefone e Liliana disse “Espere um pouco”. Logo acrescentou: “Alda está no telefone, falem. E conte tudo”. Tinha feito uma conexão de linhas. Susto e prazer.

Do outro lado, a mesma voz me chegou, mais débil, agora de uma mulher de 80 anos. Conversa breve, sem nostalgias, muito pé no chão. Depois de 64 anos após ter deixado a cidade, a trava saiu da garganta. Contei da paixão reprimida. Alda riu suavemente, sempre me lembro do riso dela permeado de leve ironia: “Que louco! Você e eu? Curioso. E agora você me conta isso? Vou ter o que pensar nesta idade. Eu e você. O que seria? Nunca saberemos. Iremos embora os dois com essa dúvida. Mas foi bom saber-se amada”.

Domingo passado, Liliana Aufiero me ligou: Alda acabou de partir.

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