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Arnaldo Jabor
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O que mudou?

Ao analisar o panorama cultural da mais longa democracia do mundo – os Estados Unidos –, Robert Hughes detectou, em seu livro A Cultura da Reclamação, os sinais de um país dividido, incapaz de lidar com suas verdadeiras necessidades. Pois os perigos previstos já aconteceram: a relação entre campanhas eleitorais e mídia televisiva, a herança puritana da direita, a queda do nível reflexivo, o elogio da superficialidade, a ignorância política das massas, a emergência do neo- moralismo e a onda regressiva do politicamente correto, entre outros.

Arnaldo Jabor, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2016 | 03h00

A verdade assustadora do mundo atual apareceu. Mas, afinal o que mudou em nossas vidas?

Vamos lá.

Mudou a ideia de uma grande pátria americana organizando a sociedade como um parque temático, um supermercado ou uma Disneylândia – 11/9 e agora Trump abriram um buraco negro nos EUA, lá (e no mundo) acabaram a “finalidade”, o “projeto”, a busca de certezas, de “sentido”, a vontade de tudo explicar pela razão, o doce aroma do sucesso a qualquer preço, o “happy end”, o princípio, o meio e o fim, a vontade de esquecer a morte, por sua transformação em espetáculo, mudou a morte, que não está mais num leito burguês com extrema-unção e família chorando, a morte que já é um cachorro pelas ruas, atacando de repente; mudou a guerra, que antes era mundial em duas frentes e agora virou um arquipélago de tragédias disseminadas pelos continentes, mas também voltou a guerra fria com o psicopata Putin; mudou a compaixão, que hoje esbarra na pele de rinoceronte de nossa alma fria, mudaram nossos olhos que ficaram mais duros na contemplação das desgraças, cresceu a religião e a fé, caíram a esperança e a caridade, mudou o sonho de “solução”, a ideia de “futuro redentor”, chegou o fim do “fim da história”, mudou o sonho detergente de uma vida asséptica, sem fraturas, a utopia do conforto total, da harmonia doce do lar, das pérolas faiscantes, a presteza dos serviçais silenciosos e humildes, mudaram os pecados veniais, as deliciosas perversões irresponsáveis, acabou a oportunista e enobrecedora contemplação da miséria “em compota” por militantes imaginários, pois a miséria chegou nas asas da estupidez religiosa, mudou a rebeldia, pois os marginais não são mais heróis – são uma cultura de ameaças, acabou a esperança da revolução fácil, mágica, acabou a “boa consciência” de sermos confortavelmente “a favor do bem”, dos índios, das bichas perseguidas, dos excluídos, das baleias, acabaram as ideias “universais” – ficaram só o singular e o mundial, mudou a inocência que virou cumplicidade, mudou a mentira, que virou verdade, mudou a alegria que virou ironia ou cinismo, mudou o sim e o não – tudo que é negado é real e vice versa, mudou a “esquerda” que virou “direita” – o pretexto “esquerda” virou uma máscara para o fascismo bolivariano na alma, o surrealismo virou piada naturalista, o indivíduo indivisível deu lugar ao indivíduo esfacelado por bombas, coberto de pizzas sangrentas, acabou o “outro”, pois surgiu outro horrendo “outro”, sujo e mortífero, suicidando-se às gargalhadas, mudou também o difuso sentimento ocidental de superioridade, a aparente tolerância e a falsa generosidade, acabou o Ser-para-si, o Nada, o Tempo para a frente, pois o terror nos mandou de volta para o ano 1000, acabou a esperança de achar Deus entre as galáxias, pois Deus já está entre nós armado até os dentes, acabou a deliciosa sensação da fleuma, acaba a “coolness”, pois o homem-bomba desbancou o homem-cool, ficou mais evidente o desejo brutal dos egoístas, disfarçado de sorridente entusiasmo, ficamos mais conformistas e mais medrosos, acabou a democracia “de boca”, entrou em crise a sensação de luxo fabuloso, a ideia de beleza, até mesmo a elegantíssima vivência do desespero crítico na arte iluminista, acabou a “malaise” abstrata, a náusea romântica, a delícia das grandes dores de amor, enquanto a arte se esvai, destruída pelos “efeitos especiais”, acabou a depressão culta que enobrece o sofredor inútil, acabarão os filmes-catástrofe que são mais suaves que a realidade (aliás, o que era mesmo a tal da realidade?), acabou o amor romântico, ficou um amor de consumo, um amor de mercado, não temos mais músicas líricas, nem o lento perder-se dentro de “olhos de ressaca”, nem o formicida com guaraná; só restaram as fortes emoções, as lágrimas, motéis, perdas, retornos, desertos, a chuva, o sol, o nada, pois o amor hoje é o cultivo da “intensidade” contra a “eternidade” e porque temos medo de nos perder no amor e fracassar na produção; mas ainda temos a nostalgia por alguma coisa que pode voltar atrás. Não volta. Nada volta atrás. A infelicidade de hoje é dissimulada pela alegria obrigatória – um “fast food” da alma – pois ser deprimido não é mais “comercial”, nossos corações clamam por socorro de Bruce Willis, Van Damme, Super-Homem, todos desempregados, vagando pelas ruas.

Mudou o tempo – surgiu o enorme “presente” – tudo é aqui e agora; o “passado” virou depreciação. Os meios de comunicação eram extensões de nossos braços, olhos e ouvidos – hoje, nós é que somos extensões das coisas. Com o fim do “sujeito”, seremos todos objetos. Finalmente, a esperança será substituída pelo fatalismo islâmico. Só os homens-bomba vão gozar de livre arbítrio: por uma fração de segundo serão “livres, leves e soltos”.

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