ISABELLA SCLOVSKY
ISABELLA SCLOVSKY

Como o isolamento em casa transforma nossa relação com o tempo

Há quem busque formas inventivas e proveitosas de passar a quarentena, enquanto os mais ansiosos podem recorrer a hábitos menos saudáveis. Oscilar entre os dois momentos também é comum

Ana Lourenço e Júlia Corrêa, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2020 | 05h00

Nem todo mundo reage da mesma forma às restrições da quarentena. Há aqueles que buscam formas inventivas e proveitosas para contornar as dificuldades do momento; há os mais ansiosos, que recorrem a hábitos menos “saudáveis”, desenvolvendo ou intensificando uma série de vícios. E, como ninguém é de ferro, há também aqueles que alternam entre esses dois modos, com períodos de dedicação e outros de maior desânimo. 

“Não existe certo e errado, mas, sim, o que é viável para cada um”, afirma a psicóloga Alessandra Spagnol, que atua na área de desenvolvimento pessoal. Como ressalta a profissional, em situações como a que estamos vivendo, a diversidade de comportamentos se explica pois cada um de nós tem seu “mapa mental”, formado pelas experiências individuais vivenciadas ao longo do tempo.

Gabriela Gomes decidiu lidar com essa ambivalência de um modo bem criativo. No podcast Amor de Quarentena: Cartas do Isolamento, composto por dez episódios de até seis minutos, ela narra histórias de personagens fictícios, criados por ela, traduzindo diferentes perspectivas e sentimentos engrandecidos durante esse período. Indagações como “será que quando tudo isso acabar vai ser como o carnaval?” ou “será que a quarentena tende a deixar as pessoas mais sinceras ou sentimentais?” são feitas nos relatos. “Eu queria que atingisse a maioria de pessoas possíveis, por isso cada carta é um personagem, de maneira que pudesse ser um alento na escuta afetiva”, explica ela.

A ideia surgiu depois do nascimento da sua filha, agora com dez meses, quando precisou lidar com a questão do pós-parto. “Em Portugal, onde moro, o inverno estava chegando e eu não podia sair de casa com a bebê. Então, quando veio a pandemia, eu me vi em uma situação melhor, no sentido que já tinha passado por aquilo. E percebi que era uma oportunidade para escrever e criar para pessoas que estivessem passando por esse processo de isolamento”, conta. Assim, o tempo dentro de casa se tornou um incentivo a passar mais tempo com a filha e o marido, mas também o momento para dar início a um novo projeto: traduzir esses sentimentos de agonia, angústia e expectativas trazidos com a quarentena em palavras de conforto para os seus ouvintes. 

Isabella Sclovsky e sua mãe, Marcia Bystronski, também aproveitaram o tempo juntas em casa para desfrutarem de um hobbie em comum: fazer arte. “Estava me fazendo muito mal ficar parada e não saber o que fazer e o que vai acontecer. Então, a minha mãe sugeriu que eu fizesse umas mudanças no meu quarto. Procurando objetos de decoração, a gente encontrou um tapete muito lindo, com detalhes que a gente não está acostumado a ver, e minha mãe sugeriu da gente fazer”, relata Isabella. Esse, porém, não foi a primeira grande arte da dupla. “A gente gosta de projetos grandes, mas o tapete veio para dar sentido para a quarentena”, diz ela.

“Acredito que estratégias da saúde mental nessa época são muito importantes e a pintura não estava sendo suficiente pra mim porque eu descobri que eu preciso da saúde mental para pintar e não o contrário. E o tapete, por ter essa parceria com a minha mãe, uma do lado da outra, tem mais força ainda”, afirma Isabella. Até a avó, Suzanna, foi puxada para fazer parte do projeto. “A gente vai para a casa dela com duas máscaras, a de pano e a de acrílico, e como o tapete é muito grande (2,5m x 1,5m) ela faz uma extremidade e a gente faz a outra”, conta a neta. “Ao invés de esperar alguma coisa acontecer, eu estava fazendo uma coisa acontecer”.

Foi com propósito semelhante, para sentir um domínio maior de seu tempo, que o economista Guilherme Lopes, de 27 anos, decidiu regular a sua rotina durante a quarentena. “Depois do susto inicial, consegui me organizar melhor, estruturando uma rotina para não ficar mergulhado naquele caos”, explica ele, que, num primeiro momento, teve dificuldades em equilibrar o trabalho e a vida pessoal em casa. 

Engajar-se em atividades que geram bem-estar, como a prática de ioga e meditação, e estudar assuntos de seu interesse foram algumas das saídas encontradas pelo economista. “Iniciei um plano de acordar super cedo para fazer as minhas coisas antes de começar a trabalhar, para aproveitar as minhas melhores condições para algo meu, não ao fim do dia, já destroçado pelo dia de trabalho. Então, acordo às 5h30 da manhã, tomo banho, e aproveito bem das 6h às 8h como um período de bem-estar para mim”, detalha.

Essa readequação em busca de uma rotina mais saudável, no entanto, não é de fácil execução para todos. Em tempos “normais”, o pesquisador de cinema Miguel Fernandes consome um maço de cigarro ao longo de dois ou três dias. Mas, com o isolamento, ele passou a consumir a mesma quantidade em apenas 24 horas. “Além de aliviar a ansiedade, fumar, para mim, é um prazer; numa situação como a pandemia, em que outros prazeres estão proibidos, isso se intensifica”, justifica ele.

Comportamentos como o dele têm relação com outra consideração feita pela psicóloga Alessandra – a de que o cérebro humano busca evitar confrontar aquilo que é novo, já que isso demanda mais energia. “Nosso cérebro busca zonas de conforto, com recompensas de curto prazo. Quando me vejo diante de uma situação inesperada, vou me apegar a esses hábitos conhecidos, pois é mais seguro para mim, sei quais ganhos vão me dar”, explica a psicóloga.

Outro vício que tem se acentuado entre muitas pessoas é o uso excessivo do celular. “Toda a comunicação com os amigos, toda interação humana que a gente tem é através dele, né?”, diz Mariana Gallardo, de 33 anos, admitindo que, durante a quarentena, o tempo que passa usando seu smartphone aumentou “uns 70%”. “Eu me pego não conseguindo focar na TV porque eu estou no celular. Antes eu assistia muitas séries e filmes e agora eu estou com mais dificuldade de assistir as coisas. Parece que eu não consigo focar direito”, diz ela.

Como são muitas informações dentro das redes sociais, não existe um objetivo claro do que fazer ou focar e a tendência é a procrastinação. “Acontece muito de eu salvar as coisas para ver depois no Instagram, mas acabar nunca vendo nada. E não só isso. Às vezes posso responder uma amiga, mas não respondo. Tá ali na sua mão, mas você não responde”, diz Mariana. Quanto a esse aspecto, a psicóloga Alessandra ressalta a importância da administração do tempo: “Isso (de usar muito tempo as redes sociais) gera tanta angústia, pois, muitas vezes, quando chega o final do dia, a pessoa percebe que passou o tempo todo no Instagram. Quando se tem um planejamento, inclui um tempo para isso porque é bacana, mas sempre com uma visão consciente”.

Com feeds infinitos e uma série de novidades, a internet é realmente muito sedutora e, por isso, demanda que essa “visão consciente” contemple um outro problema que pode surgir em tempos de enclausuramento: a comparação que se faz com cada foto compartilhada pelos outros. “Tanto observando e fazendo parte das redes sociais, como nos meus atendimentos clínicos, vejo uma pressão por ser positivo e produtivo o tempo inteiro. Essa dinâmica, de mostrar nas redes e ficar muito feliz, traz uma disputa por quem tem a vida mais significativa, interessante”, conta a psicoterapeuta Érika Maracaba sobre o termo Positividade Tóxica, lançado por ela em suas redes sociais. “A gente vê as coisas de uma maneira muito dualista. Somos assim politicamente, socialmente e emocionalmente também; meio que separamos as pessoas em pessoas felizes e pessoas tristes; positivas e tóxicas, mas não é bem assim”, complementa.

É nesse sentido que a psicóloga Alessandra destaca a importância de observarmos a “régua da autocobrança”. Em sua visão, por estarmos vivendo um período excepcional, devemos ser mais flexíveis com nossos “deslizes” do dia a dia. “Ter uma rotina é fundamental, mas nos dias em que não se está bem, dá para acolher esse sentimento e viver de uma forma mais leve, cuidando de si, descansando. Trabalhar dentro de um planejamento ajuda, pois as coisas que ficaram para trás, você pode redistribuir no dia seguinte”. 

Muitas vezes, essa autocobrança mencionada por Alessandra é direcionada para a questão do cuidado com o corpo e a aparência em geral. Nessa onda de alta produtividade, algumas pessoas estão utilizando o período dentro de casa para malhar mais ou até fazer dietas que, com a rotina anterior à pandemia, não poderiam ser feitas. “Como eu estou em casa, não estou saindo para nada, é bom porque eu consigo ficar muitas horas sem comer. Então aproveitei para fazer o jejum intermitente”, conta a maquiadora Natalia Modesto, de 22 anos. “Eu acordo, tomo um café não muito pesado e almoço. Essa é a última refeição que eu faço. Fico só na água até o outro dia. Nem café eu tomo as vezes porque durante a quarentena não acordo muito cedo. Então acaba dando 24h de jejum, mas é sempre bom ficar acordada sem comer, não vale dormir”, explica. Segundo ela desde março, dois quilos foram perdidos com a ajuda da dieta e menor ingestão de carboidratos. 

Luiza Campos, por sua vez, confessa ter engordado sete quilos desde o início da quarentena. “Eu sempre gostei muito de açúcar. Não é que eu comia pouco antes, eu sempre comi bastante, mas antes eu treinava muito, de duas a três vezes por dia”, conta ela, que praticava crossfit desde 2017. “O primeiro mês da quarentena foi maravilhoso porque eu treinei em casa, falava que ia comer direito e emagrecer, mas a quarentena foi aumentando e aí a coisa foi desandando, a minha força de vontade foi indo embora”, diz. “Eu não sinto que treinar em casa seja a mesma coisa. Acho que meus amigos são o grande motivo pelo qual eu treino com tanta vontade… E eu fui ficando muito ansiosa. Mesmo continuando com a terapia semanal”, conta ela, que para controlar a tal ansiedade, passou a fazer vários “lanchinhos” ao longo do dia. “Chocolate, besteira… meio que tudo. A gente acaba ficando muito preso nesse negócio de fast food, né? Acaba sendo mais fácil. Você não sai, não come fora e acaba pedindo besteira”, diz Luiza.

As mudanças nas dinâmicas de trabalho também podem afetar a saúde, física e mental. “De certa forma, trabalhar fora e trabalhar de home office é quase a mesma coisa. O que muda não são as reuniões, não são as atrações em si, mas sim o que acontece no cafezinho, no corredor, o contato humano”, explica a psicóloga Érika. “Então, o dia do trabalho é só para trabalho mesmo, não tem distrações, é um negócio focado e esse hiperfoco é mais cansativo”.

Cláudia, que prefere não ter o seu verdadeiro nome revelado, sentiu esse baque. “Eu era muito ativa no meu trabalho. Saía da minha baia para reuniões, subia e descia escada para andares diferentes… E na quarentena não tem essa de eu sair da minha mesa. De vez em quando me pego oito horas do meu dia sentada, sem levantar, nem pra ir no banheiro, para nada. Me pego imersa no meu trabalho e não saio daqui”, revela ela.

“A gente vem de uma cultura em que, quando se vai para o trabalho, a vida pessoal fica em casa, e vice-versa. O home office veio para quebrar esse paradigma – é a mesma pessoa que está transitando entre esses ambientes. O importante é administrar tudo isso de uma forma mais generosa, lembrar que muitas pessoas também estão passando por essa situação”, avalia a psicóloga Alessandra, ressaltando, mais uma vez, a importância de se buscar criar um planejamento, “com metas claras e cuidado com excessos”.

Além disso, é importante salientar que o trabalho durante a pandemia expõe diversas realidades. “Tem aqueles que estão em home office e muitas vezes não sabem distinguir a hora que o trabalho começa e quando ele termina. E quem trabalha de autônomo consegue distinguir menos ainda, pois a pressão por estarmos em quarentena, faz com que você tenha de trabalhar mais para recuperar o que foi perdido com o isolamento social”, reflete Érika. 

Apesar de continuar malhando de segunda a domingo, como costumava fazer antes da quarentena, Cláudia acabou ganhando peso em função da nova rotina. “O que mudou mais foi a movimentação do meu dia a dia que eu tinha bastante, e a minha alimentação. Eu passei a comer o que a minha mãe fazia e comida de mãe é a melhor comida do mundo, então eu acabava repetindo, comendo mais. Quando eu vi, engordei quatro quilos”, diz ela. “Antes da quarentena eu era mais consciente da minha alimentação. Eu não tinha todo estresse, e ansiedade que eu estou vivendo nesse momento”.

Para controlar seus sentimentos, Cláudia intensificou a malhação. “Acho importante falar que eu não faço exercícios para, exclusivamente, perder peso. Eu gosto porque me faz bem e ajuda com a minha saúde mental, com minha saúde física. E principalmente agora, na quarentena, é essencial”, diz ela. Esse foco em práticas que estão ao nosso alcance vai ao encontro de algo sugerido pela psicóloga Alessandra: “pequenos passos são essenciais para nos mantermos motivados. Temos a percepção de que estamos evoluindo”.

Nesse sentido, a avaliação de ambas as especialistas é de que o momento demanda autoconhecimento. Essa percepção individual facilita no aprendizado de válvulas de escape para amenizar as angústias do momento. “O autocuidado é importante, mas é importante entender o que o autocuidado representa para cada pessoa”, diz Alessandra. “Olhar o seu corpo e analisar”, sugere Érika. “A gente vai tendo hábitos tão automáticos ditados pelo externo que acaba que você não olha para o melhor finalizador do que te faz bem ou mal, que é o seu próprio corpo. Dentro ou fora da pandemia é importante que a gente esteja atento a ele”, acrescenta.

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