''O que me interessa são sempre as pessoas''

Claire Denis fala de Minha Terra, África, de Doris Lessing e Isabelle Huppert

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2010 | 00h00

Embora tenha sido escrito em 1950, o primeiro romance de Doris Lessing, The Grass Is Singing, só saiu no Brasil em 1980, com o título de A Canção da Relva. O livro é autobiográfico, fala dos pais da escritora, que eram fazendeiros na África do Sul. Claire Denis, a diretora de Minha Terra, África, explica sua ligação com o livro e também por que não quis adaptá-lo. "Mesmo que tenha ido muitas vezes à África com minha família e lá tenha vivido, não éramos ligados à terra, como Doris e seus pais. E havia o problema de que o livro dela se passa na África do Sul antes de Mandela. Sugeri a Isabelle Huppert algo mais contemporâneo, baseado no que ocorre na Libéria, em Serra Leoa."

Minha Terra, África nasceu do desejo de Isabelle de filmar com Claire Denis. Apesar do desvio de rota, algo de Doris Lessing permanece no filme. "Sim", concorda a diretora. "Principalmente a construção da família." E há a guerra civil, os soldados crianças - muita coisa que Claire mostra em Minha Terra, África está em Um Homem Que Grita, de Mahamat Saleh-Haroun, naturalmente que com outro foco. O filme dela é sobre essa mulher, Maria, que tenta salvar a plantação e a família enquanto a guerra civil avança e a África colonial de seu sogro desmorona. Como diz a diretora, Maria pensa que é diferente, que tem outra sensibilidade - está preocupada com o filho, em meio à tormenta -, mas a pele é determinante.

A própria Claire é muito branca, quase leitosa. Seus atores, Isabelle, Christophe Lambert e Nicolas Duvauchelle, exibem todos o mesmo "white material" (título original). A eles se opõe o negro Isaach de Bankolé, como o rebelde que ameaça a plantação da família. São muitas as cenas em que Claire cola sua câmera à pele dos personagens, justamente para buscar esse contraste. Cultuada como grande diretora, ela está sempre se interrogando sobre a linguagem, testando seus limites. Mas revela: "Seria incapaz de fazer um filme só pela linguagem, ou só baseada na intenção de um comentário político. O que me interessa são as pessoas".

Minha Terra, África constrói-se como um flash-back, com a heroína neste ônibus - e o espectador se pergunta quando, e como, a viagem vai terminar. "O filme nasceu com outra estrutura. Era linear, cronológico. Mas quando filmei a cena do ônibus vi que teria de mudar tudo. Nunca me ocorreu antes, mas era a chave para o processo de conscientização de Maria, sobre quem é, realmente." O natural é que Claire também encerrasse Minha Terra, África do ângulo da personagem. O derradeiro plano é do jovem negro, ator de Darrat (de Haroun). "Queria que o filme terminasse com uma nota de esperança e ela só poderia vir dos africanos. Seria reacionário permanecer atada ao white material." Sobre Isabelle Huppert, não deixa por menos. "Isabelle tudo pode. É uma atriz em controle da sua emoção, por isso não a teme. É uma coisa que me agrada muito."

MINHA TERRA, ÁFRICA

Nome original: White Material, Direção: Claire Denis. Gênero: Drama (França/ 2009, 106 min.)

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