O que mamãe me ensinou

São Francisco, 1995. Noite. Voltávamos na minha van de um restaurante do outro lado da baía.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

Adriana, minha ex-mulher, dirigia. Espalhados, eu, Amy, do New York Times, atual editora do caderno de cultura, Susan, da ABC, produtora de Oprah, Dick, escritor de Montana, que, quando bebia, dava em cima da Adriana, Amy e Susan, e David, da Newsweek, cara de nerd, excelente repórter que cobria o caso O. J. Simpson.

Eram meus amigos yankees da Universidade de Stanford, onde passamos um ano de licença dos nossos empregos para estudar graças a uma bolsa.

Amy havia largado o carro dela pelo caminho, numa estrada escura e deserta, para atravessarmos a Golden Gate no meu.

Ao estacionar na volta para deixá-la com Susan, observei seu pneu furado. Não havia uma alma viva a milhas. As duas desceram. Esperei que os dois samaritanos também descessem, para ajudá-las. Silêncio no carro. "Aí, rapaziada, vão deixar duas moças sujarem as mãos?"

Eles me reprimiram com o olhar. A resposta de Amy, já abrindo o porta-malas, foi cáustica: "Você acha que duas mulheres não conseguem trocar um pneu? E nem precisam esperar, podem ir."

Não repliquei que eu fora educado de outra maneira. Apenas olhei para os dois colegas no banco traseiro, que indicaram: "Bora." O que mamãe me ensinou não vale mais. Fomos.

Eu era o excêntrico sul-americano, onde os homens matam as mulheres impunemente, como dita a nossa fama, que não entendia as regras locais, reescritas e sufocadas pelo politicismo correto.

Não duvidava da capacidade de uma mulher americana montar um macaco, afrouxar as porcas, levantar um veículo, retirar o pneu furado, para substituí-lo por um estepe, nem quantificava os gêneros em sexo frágil e forte, apenas quis ser gentil e seguir a máxima que dita que oito mãos trabalham melhor do que quatro.

Nos primeiros meses de Estados Unidos, meus foras eram constantes. As divergências culturais pareciam não ter fim. Especialmente no meio estudantil, que criou a contracultura e indicou o que era correto ou não ser dito, como se o controle pudesse modificar anos de diferenças que, por vezes, dão ares de preconceito.

Eu era visto como um exótico sexista. Costumavam perdoar os meus mal-entendidos, lembrando que eu viera das selvas e tinha, entrando pela janela, macacos e cobras. Com o tempo, gostei do papel de provocador e passei a exercê-lo com mais contundência.

Amy era uma espécie de representante do neofeminismo. Morou um ano na Califórnia sozinha, enquanto o marido continuou em Nova York. Nunca o vi por lá.

Era daquelas que diziam que as mulheres não devem ter filhos. Não apenas para interromper as carreiras, mas porque o mundo está abarrotado. Naquela época, as mulheres militavam nessa causa. Desconfiava-se que o planeta não tinha recursos para alimentar tanta gente.

Um ano depois, num restaurante de Nova York, com a mesma turma, Amy surpreendeu ao anunciar que estava grávida. Após brindes e uma dúzia de congratulações, o selvagem aqui perguntou se fora casual ou planejada.

Na verdade, quis saber se ela mudara de opinião quanto aos suprimentos mundiais. Silêncio na mesa, até Susan esclarecer: "Marcelo, é uma pergunta íntima."

Naquela altura, eu já andava cheio de tantos foras, assumira a minha formação subdesenvolvida e apenas expliquei que, no meu país, era comum perguntarmos.

Nem sei se é. Mas comecei a usar uma das armas do ????politiques correto, o respeito pelas culturas estrangeiras, para justificar os meus foras.

***

Richard era texano. Meu colega de uma matéria sobre literatura em Stanford. Boatos diziam que ele tinha ficado com a mais gata do câmpus, uma romena que trabalhava na biblioteca.

Certa tarde, almoçávamos numa praça, quando ela passou e nos cumprimentou. Montou na sua bike. Alongou as pernas e a cintura para sentar. Estava de saia. E se foi.

Olhei para ele. No Brasil, eu diria: "Que gostosa..." Lá, eu disse: "Que mulher interessante..." E emendei: "Por que não deu certo entre vocês?"

Esperei todo o tipo de resposta: cheira mal; é irritantemente ciumenta; louca, pega no pé; é frígida; não ri das minhas piadas; ronca.

Não. A reposta pareceu outra piada: "Nossos valores não combinam." Valores?! Quem estava interessado nos valores daquela romena escultural?! Bem, talvez seja a forma de eles dizerem: "Não é tão gostosa assim." Ou são bem mais evoluídos e racionalizam os sentimentos mundanos.

Não foi à toa que a primeira coisa que fiz ao retornar ao Brasil foi escrever a peça E Aí, Comeu?, em que três amigos pseudomachões, um solteiro, um casado e um recém-separado, revelam que o discurso de mesa de bar sobre as mulheres são, no fundo, da boca pra fora, que as amamos e respeitamos, que somos influenciados por elas e as queremos sempre lindas.

***

Interessante como no Brasil a discussão sobre o aborto atingiu um grau de histeria inquisitória.

Na maioria dos países, ele é liberado. Mas a saúde pública e o número de adolescentes que morrem ou sofrem sequelas por causa de abortos clandestinos não serve de argumentos, para quem defende a sua descriminalização. Por que nós somos diferentes?

A postura de Dilma e Serra sobre o tema envergonha quem os conhece. Evidente que ambos, que vieram da geração 60, influenciados pela luta dos direitos civis, defendem uma coisa, mas propagam outra.

Dilma foi mais longe, em busca do voto de grupos religiosos fundamentalistas, e se colocou contra a união civil homossexual. Duvido que ela realmente seja.

Chegou a assinar um patético compromisso que enumera as teses mais conservadoras do comportamento humano.

Agora, pergunto: Como fica o eleitor progressista, que defende a descriminalização do aborto e o casamento gay? Órfão, como sempre? Será que os milhões na parada anual da Avenida Paulista não comovem?

Os candidatos se acovardaram e jogaram no armário suas convicções. O foco é ganhar a eleição, independentemente do retrocesso que causam em discussões já adiantadas pela militância.

Quem for eleito ganhará por seus méritos e algumas mentiras. A consciência pesará, ou o Poder é anestésico?

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