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O que há depois do além?

Museu de Paris exibe o mítico rolo em que Jack Kerouac escreveu 'On The Road', o ícone beat que acenava para um horizonte a ser descoberto; filme de Walter Salles sobre o livro já estreou lá

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2012 | 21h30

Um livro inteiro escrito em um rolo de papel. Foi espantoso saber disso. Jack Kerouac sentou-se entre 2 e 22 de abril de 1951, e datilografou sem parar e sem precisar tirar o papel da máquina em nenhum momento. Mais de 60 anos atrás, aquele jovem de 29 anos não sabia que tinha inventado o formulário contínuo que só entraria em cena mais de 40 anos depois. Como seria esse rolo? Estávamos acostumados a usar o papel sulfite A-4, cuja largura era a mesma do rolo das máquinas de escrever comuns. Escrevia-se cerca de 20 a 30 linhas, em espaço duplo e acabava a lauda, era preciso trocá-la. O gesto se repetia em casa, nas redações, escritórios, faculdades, escolas, por toda a parte. Puxada a lauda, colocava-se outra, girava-se o rolo e recomeçava. Nunca imaginei que precisasse explicar este processo banal, a fim de que as novas gerações crescidas com o computador, entendessem a questão. Por esta razão, ter escrito de uma vez só, em um rolo de papel, se tornou um fato mítico, único na literatura. Vinha em seguida o que o livro significou, o impacto que provocou, o espanto que ocasionou.

As notícias, naqueles anos 1950, diziam que o livro On The Road, que abalaria o mundo, teria sido escrito em um rolo de papel para teletipo, o que também poucos das novas gerações sabem o que é. Um aparelho existente em redações, escritórios, bolsas de valores, que recebia informações, notícias, cotações, vivia ligado 24 horas, parecia funcionar sozinho, uma vez que era acionado a distância. De uma cidade para outra, de um Estado, de um país. Funcionava o tempo todo, portanto necessitava ser alimentado por um rolo de papel que devia durar horas. 

Em seguida, divulgou-se que On The Road não tinha sido datilografado em rolo de teletipo. Como seria então? Passaram anos até vermos a primeira foto de Jack Kerouac, o escritor, segurando o rolo na mão. Eu vi pela primeira vez na contracapa da edição integral de On The Road publicada pela L&PM, em 2008. Mas que rolo seria esse?

A batida do jazz em uma narrativa. No entanto, fosse apenas isso, um livro escrito em um rolo de papel, tudo não passaria de mera curiosidade, uma bossa criada por um autor, nada mais. Quando On The Road foi publicado em 1957 - exatamente o ano em que cheguei a São Paulo, foi como se um tsunami tivesse acontecido na literatura. Normas caíam por terra, regras eram desobedecidas, uma nova maneira de narrar estava em curso, a palavra beat, que vinha tanto de beatitude quanto da batida do jazz, entrou em circulação. Era o grito (usou-se muito essa palavra) da geração que fumava maconha, usava benzedrina, cocaína, peyote, álcool, e não colocava limites para o sexo.

Acreditávamos que era a revolta de uma geração contra o establishment americano e ficávamos confusos. Onde brasileiros e americanos se igualavam? Contra o que eles brigavam exatamente? De que modo poderíamos seguir on the road? Teria sentido? Descobriríamos com os anos a nossa estrada. Mas o início estava ali na linguagem, na soltura, na liberdade.

Roberto Muggiati em seu artigo Kerouac, os beats e o bop (C2+Música, aqui no Estado, no último dia 9 ), diz que a expressão “on the road” já era usada nos anos 1930 no jargão dos músicos de bandas que “viviam na estrada”. O que era novo para nós? A linguagem que, no dizer de Kerouac (sempre citado por Muggiati), era “o fluxo mental tranquilo, de ideias e palavras pessoais secretas... pausas marcadas que são a essência de nossa fala... satisfazer primeiro a si mesmo e o leitor também receberá o choque telepático e o significado-excitação pelas mesmas leis que operam na sua mente”. Era um novo formato de narrativa, anticonvencional. 

À minha frente, o lendário scroll. Descobri a realidade do rolo no dia 31 de maio deste ano, em Paris. Cheguei tarde, deitei, no dia seguinte, pulei da cama, tomei café da manhã e voei pelo Boulevard Saint-Germain em busca do Musée des Lettres et Manuscrits. O rolo do On The Road estava lá. Corria ao encontro de Jack Kerouac e de mim mesmo no número 222. Atravessei a “cour”, empurrei uma porta modesta e penetrei no museu. Estava em meio a tudo o que gerou On The Road, o mais emblemático romance de uma época, que bateu de frente contra tudo o que era estabelecido, careta, quadrado, square, burguês (palavras hoje deterioradas). Quem queria escrever, naquele tempo, queria escrever o On The Road de seu país.

O mundo transfigurou. Em um segundo, me vi em São Paulo na Alameda Santos, 93, nos meus 23 anos. Era a pensão da Nina. Mais do que pensão, aquela casa foi o ponto de partida de um grupo pertencente à mesma geração. Ali nos reuníamos, conversávamos, discutíamos Sartre, Simone, Camus, Marx, Stanislavski, Grotowski, Carson Mccullers, Henry Miller. Ali bebíamos, brigávamos, escrevíamos, tocávamos violão e cantávamos. Havia ainda tantos mundos a serem percorridos ao longe.

Como sair do nada e ver lá na frente?. Aqueles quartos de pensão, minúsculos, com três ou quatro, às vezes mais, jovens empoleirados, eram tão sufocantes quanto nossa cidade natal tinha sido, quanto São Paulo era, e o Brasil também. Em que país estreito vivíamos? Como sair disso? Líamos demais, víamos filmes e teatro demais, roubávamos revistas e jornais estrangeiros das bancas e livrarias (não tínhamos como pagá-las, eram caras) e tínhamos uma certeza, o mundo ia além daquilo. Queríamos saber o que havia para a frente, queríamos buscar lugares distantes, pessoas longínquas, línguas estranhas, não queríamos repetir a mesmice e não sabíamos o que sonhávamos criar.

Os sábados eram particularmente excitantes quando o caderno de variedades do Jornal do Brasil chegava com artigos do Nelson Coelho, então o especialista em literatura americana. Não se passava semana sem uma notícia sobre a beat generation. Correspondente do Jornal do Brasil em Nova York, Nelson estava no olho do furacão. E o JB era dos mais importantes e lidos do Brasil.

Eu era o primeiro que acordava, trabalhava das 10 ao meio-dia. Corria à Praça Osvaldo Cruz e comprava dois JB. Na praça, tomava o café da manhã, média de café com leite e um misto. Lia ali no balcão, sonhando com as mesas dos cafés que víamos nos filmes e nas fotos de Paris, de Nova York, das “cidades” civilizadas. Na volta, o caderno de variedades corria de mão em mão, depois era guardado no quarto do Zé Celso Martinez que enchia os artigos de frases sublinhadas.

Um dia, essa loucura será publicada integral. Havia uma febre para ler On The Road, de maneira que a primeira edição legível que nos chegou (era difícil comprar livros americanos por aqui) foi a da editora argentina Sudamericana: Por La Carretera, um título que nos soava horrível, mas sabíamos que seria complicado ler Kerouac no original. Linguagem coloquial, gírias, expressões do jazz, havia de tudo. Também em espanhol não foi fácil, perdíamos o ritmo. Somente duas décadas depois leríamos On The Road em português, com o título Pé na Estrada, editado na Brasiliense por um Caio Graco inquieto, ousado, mente aberta. Foi em 1984. A Brasiliense já tinha Luis Schwarcz, que ali começou? On The Road teria a sua mãozinha?

Sabe-se que a primeira edição americana, na qual se basearam, por décadas, todas as traduções, sofreu cortes e interferências do editor Malcolm Cowley. Informam as legendas da exposição que Kerouac, pressionado, edulcorou o texto, fez cortes, cedeu, estava cansado de batalhar e ser derrotado. Em uma carta, exibida no museu, Allen Ginsberg, outro ícone da beat generation, previa: “Um dia, On The Road será publicado integralmente, em toda sua loucura.” Foi. Em 2007, finalmente a Viking Press lançou o texto original, no Brasil lançado em 2008 pela L&PM, em tradução de Eduardo Bueno e Lúcia Brito. Na contracapa, Jack Kerouac segura o célebre rolo.

O manuscrito que é uma “estrada” também. Já se sabe tudo o que o livro é, foi, será. O que estava ainda em minha cabeça - e na de muitos - era a questão do rolo. Como se fosse um papiro sagrado, uma Torá. Assim entrei no Musée des Lettres et Manuscrits, paguei e desci correndo, tinha avistado a vitrine onde repousava o rolo. Naquela hora da manhã, não havia ninguém no museu. A vitrine tem nove metros de extensão e o rolo de 36, 5 metros repousa (estará ali até agosto) sobre um tecido macio para não ser machucado. Ao olhar, entendi. Não era papel de teletipo e sim papel vegetal, de desenho, que Kerouac montou página a página, colando com durex. Uns dizem que Kerouac comprou o papel, outros que foi um amigo dele, desenhista, Bill Cannastra, que lhe deu de presente. 

Para caber na máquina de escrever, uma Underwood (exposta no museu), Kerouac acertou as margens. Pode-se ver ainda o picotado da tesoura em certos pontos. Para economizar, o espaçamento entre as linhas é o mínimo possível, acho que o 1, de modo que as frases praticamente se amontoam, apertadas. Imaginei o editor com aquele rolo na mão, tentando ler. Legendas explicam que o final do rolo inexiste. Segundo o autor, ele foi comido pelo seu cachorro Potchky. Cada detalhe alimenta uma lenda. Há uma imagem usada pelos que viram o rolo na vitrine: ele simboliza a estrada, the road. Datilografado a toda velocidade, sem parágrafos, 6 mil palavras por dia (12 mil no primeiro dia, tal a febre, e 15 mil no último, tal a ânsia de terminar), Kerouac confessou que foi alimentado a café. Como Balzac fazia?

Imenso banner num canto do museu traz as edições pelo mundo. Línguas estranhas, indefiníveis para mim naquele momento e que prefiro deixar assim, como um mistério: Kelije - Op weg - Na Gestei - Vejene - Naputu - Pe Drum - B Dopoze - Uton - Kepyak - Aopote - Á Vegum Út. Sabe-se que o livro foi traduzido para 95 línguas. Não vi a capa de nenhuma das edições brasileiras.

Numa das vitrines estão as cadernetinhas de capa preta envernizada que Kerouac usava para suas anotações. Centenas delas, todas iguais. Emocionei-me ao ver como ele trabalhava, anotando sem parar. Organizado, comprava sempre as mesmas cadernetas. Em Na Estrada, filme de Walter Salles, o personagem usa um bloco semelhante. Produziram para a filmagem ou tais cadernetas ainda existem nos Estados Unidos? Essa permanência das coisas me fascina.

Cinco anos de trabalho para um longa-metragem. O filme está em cartaz em Paris simultaneamente. Fui ver em uma de minha salas prediletas, o cinema Pagode, na Rue Babylone. Foi um templo chinês decorado com dourados, e brocados, cheio de charme em sua decadência. Ali está sendo a exibida a versão original com legendas em francês. Quando o livro saiu, em 1957, Kerouac escreveu a Marlon Brando, tido como um ator da contestação, oferecendo a adaptação e o papel, Brando jamais respondeu. Os direitos foram comprados por Francis Ford Coppola em 1968. Godard recusou, depois também Gus Van Saint. Finalmente, Walter Salles entrou na estrada. Foram cinco anos de versões e revisões, de viagens e busca de locações. Walter Salles imprimiu o ritmo duplo que domina o livro: movimento, velocidade, e momentos de introspecção e contemplação. Pausas e acelerações. Num entrevista, o cineasta fez uma declaração que me emocionou: “A modernidade de Kerouac estava em seu desejo de explorar tudo, de viver, de sentir tudo à flor da pele. De não recusar o momento.” Um dia, Walter e Lawrence Ferlinghetti, 93 anos, ícone majestoso da época beat (a sua livraria e editora City Lights era o ponto de convergência dos beatniks), circulando por São Francisco, pararam na ponte de Berkeley, imobilizada pelo congestionamento. Nesse momento, o poeta exclamou:

- You see, there’s no more away!

Algo como: veja só, não há mais nada depois do além. E o cineasta comenta: “Naquela época do On The Road ainda havia um mundo a ser descoberto, cartografado. Borges dizia que o grande prazer da literatura era nomear o que ainda não havia sido nomeado. Hoje, temos a impressão de que tudo está visto, fotografado, documentado, repertoriado... On The Road é um antídoto contra o imobilismo e isto é que me fascinou no livro.” Ou seja, não há mais nada a se procurar. Mais de 50 anos depois, Ferlinghetti e Walter Salles respondiam àquela inquietação que tivemos aos 20 anos.

Kerouac, que morreu aos 47 anos, faria neste ano 90. Os expoentes da beat morreram: Allen Ginsberg, Gregory Corso e William Burroughs. Resta Ferlinghetti, hoje com 93 anos. Estranha foi a morte de Kerouac, vivendo ao lado da mãe, mergulhado em programas estúpidos de televisão, reacionário, alcoólatra, inchado, deprimido, desiludido com tudo, negando ter provocado uma revolução na literatura. Enquanto hoje desesperadamente procura-se a mídia e a exposição, a imensa visibilidade funcionou ao contrário para Jack. Levou-o ao inferno.

IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO É JORNALISTA, ESCRITOR E COLUNISTA DO CADERNO 2

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