Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

O que fazer com estátuas, filmes e livros com discurso de ódio?

Após derrubada de estátuas e retirada de filmes do ar, legado dessas obras é colocado em discussão

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 21h00

Estátuas derrubadas, filmes retirados de cartaz, obras artísticas postas em xeque: a luta antirracista que ganhou projeção global na forma de passeatas e manifestações após o trágico assassinato de George Floyd nos Estados Unidos vem suscitando um debate urgente a respeito do que a sociedade deve fazer com monumentos e peças de arte que reflitam valores inadequados aos tempos atuais. São ilustrativos casos como o da escultura do traficante de escravos Edward Colston lançada em um rio na cidade britânica de Bristol e o do clássico ...E o Vento Levou, retirado temporariamente da plataforma de streaming da HBO e tornado disponível com uma introdução crítica do contexto racista da obra. Diante de exemplos como esses, surge a discussão: o que fazer com o patrimônio cultural apologético ao racismo?

“Houve um tempo em que nós defendíamos mais abertamente a ideia de uma arte pura, alheia às questões políticas, e penso que nesse contexto em que vivemos é preciso chegar à conclusão de que toda arte é política. Não é porque uma obra não diga diretamente respeito a uma questão eminentemente política que ela deixa de ser política”, afirma a historiadora Lilia Moritz Schwarcz. “Não se trata de censurar, mas de politizar essas obras. Tirar da penumbra e trazer pro primeiro plano esses aspectos políticos que são, de alguma maneira, inseparáveis da estética da obra.”

“É plenamente compreensível a fúria da população que ataca monumentos públicos com os quais ela não se identifica, até porque eles sempre foram introduzidos de uma forma hierarquizada, era uma parte pequena da população que os impunha aos demais”, afirma o professor Paulo Garcez Marins, chefe da Divisão de Acervo e Curadoria do Museu Paulista. Embora ele compreenda esses atos, em sua opinião a mera destruição dos objetos não soluciona o problema.

“Precisamos desafiar esses monumentos. É preciso entender o momento em que foi possível esse tipo de homenagem. Já se sabia das barbaridades que muitos desses personagens cometeram, mas ainda assim se fez. É importante manter o monumento não apenas para discutir esses temas, mas a ação que os colocou ali. O monumento faz referência ao personagem mas também a quem o erigiu. E também a como nós os encaramos”, acrescenta o professor, lembrando de uma intervenção na estátua de Colston proposta pelo artista plástico Bansky, que sugeriu colocá-la de volta ao pedestal e esculpir os manifestantes retirando-a de lá de modo a eternizar aquele instante.

Para Schwarcz, a questão tem sido tratada de uma maneira errada no debate público. “O termo ‘vandalizar’ é mal utilizado, porque já carrega uma conotação negativa. O que tem sido proposto não é uma vandalização, é uma revisão de narrativas de cunho histórico expressas nessas obras. Também um termo usado com uma mesma conotação negativa é ‘apagamento’. De novo, não se trata de apagar nada, se trata de trazer à luz.”

A historiadora e escritora Mary Del Priore aposta na educação como peça fundamental para solucionar o problema. “Não acredito que destruir monumentos ou apagar autores literários vá destruir o racismo. Destrói-se racismo com educação. E em casa. Mas, hoje, grupos que são portadores de uma história, a da escravidão por exemplo, sentem-se estigmatizados por ela. Isso é o signo de uma memória conflitual e de narrativas históricas não consensuais.”

Essa estigmatização é sentida pelo escritor e pesquisador de literatura negra Plínio Camillo desde a infância: “Eu não me via na obra do Monteiro Lobato. Eu não era o Pedrinho, a Emília… A personagem mais próxima era a Tia Anastácia”, lembra o autor, que já lançou uma obra voltada ao público infantojuvenil, O Namorado do Papai Ronca (2012), além de diversas coletâneas de contos em que analisa a questão racial. “Os livros do Lobato são um espaço para a discussão.”

Nos últimos anos, com a enxurrada de novas edições de Lobato alavancada pela entrada de sua obra em domínio público, seus textos passaram por um duro processo de reavaliação  por conta de temáticas claramente racistas abordadas em seus livros. Apesar disso, Camillo não defende o apagamento de sua obra. “Deve-se publicar, porque em literatura se fala sobre o passado, sobre o futuro, mas sempre com o olhar presente. Acho que pode-se publicar com todas as contextualizações devidas.”

Entretanto, ele afirma que é importante que a leitura não se limite a autores cuja visão de mundo já não reflete os valores da contemporaneidade. “Acho mais interessante hoje termos outros escritores. Pode-se ler, deve-se ler Lobato, mas para as crianças temos outra literatura para uma formação antirracista, temos outros escritores que estão produzindo coisas também muito interessantes”, afirma ele, citando autores como Júlio Emílio Braz e Fábio Kabral como exemplos de boa literatura contemporânea.

Para Mary Del Priore, a censura de obras que veiculem teor racista não cessa seus efeitos, mas consumi-las acriticamente também é temerário. “Penso que é preciso encontrar um espaço entre a supressão de monumentos e livros e sua contextualização; entre arbitrar e discutir coletivamente; entre atiçar ódios e desmontá-los. Esse espaço será necessário, pois há um movimento global que desmancha a complexidade de cada situação, preferindo consensos apressados.”

É como o exemplo de ...E o Vento Levou, que ainda pode ser assistido, mas está acompanhado de uma contextualização. O pesquisador da história do cinema e doutor em estética e história da arte Donny Correia defende a releitura crítica de filmes como esse. “Toda obra de arte que acaba se tornando universal, canônica de alguma forma, tem que ser analisada primeiro com os olhos da época em que foi produzida”, explica ele. “No caso de …E o Vento Levou, todas as passagens do livro original que faziam apologia ao surgimento da Ku Klux Klan e à revolta dos confederados foram tiradas do roteiro, já tendo em mente que poderiam causar algum mal estar.”

No entanto, existem filmes clássicos nos quais o racismo não é apenas um elemento circunstancial, mas um fator constitutivo. A obra de D.W. Griffith, que representa a KKK de modo heroico, e a de Leni Riefenstahl, a documentarista de Hitler, entram nesse contexto, embora sejam de relevância fundamental para o desenvolvimento da linguagem cinematográfica de ficção e documental, respectivamente. “No caso do Griffith, de O Nascimento de uma Nação, é diferente, porque a Guerra Civil já tinha acontecido fazia 50 anos. Era uma coisa muito viva na história americana e o Griffith vinha de uma família de confederados. Já na época houve bastante revolta”, conta Correia.

Apesar disso, é inegável a influência que os filmes de Griffith, mesmo que veiculando discurso de ódio, tiveram para a evolução do cinema. E é importante, na opinião do estudioso, separar forma e conteúdo em casos como esse. “Temos que olhar aquela obra com os olhos da época pra entender o que acontecia para que uma obra daquela surgisse e se estabelecesse. Temos que pensar nessas obras como contribuições à própria cultura cinematográfica. Quando a Leni Riefenstahl faz coisas como Triunfo da Vontade, como Olimpia, a gente sabe hoje em dia o que estava atrás como subtexto, mas temos que olhar para a inovação técnica. Ela inovou a linguagem do documentário.”

Para Correia, impedir o acesso a esses filmes é um erro, pois contextualizá-los seria uma forma de preservar suas qualidades formais e educar as novas gerações para que compreendam o que havia de reprovável no conteúdo dessas obras. “Ao retirar um filme do ar, você não está prestando um serviço a favor da dissolução do racismo. Você está incitando as pessoas que compartilham de sentimentos racistas a pensar que aquela obra conversa com elas e a transformá-la em objeto de culto. Se você expõe o que deve ser condenado do ponto de vista histórico, dá a oportunidade de as pessoas aprenderem com isso.”

Lilia Moritz Schwarcz ainda complementa que existem casos em que a remoção possa ser justificada. “A ideia não é proibir a circulação de uma obra. No limite, se existirem obras muito perversas, a destruição das mesmas não fará falta a ninguém”, afirma a historiadora.

É esse tipo de discussão que o Museu do Ipiranga vai buscar fomentar quando de sua reabertura, em 2022, garante o professor Paulo Garcez Marins. “O Museu Paulista é marcado pela construção da imagem do bandeirante na medida em que foi a instituição que consolidou a maneira pela qual lembramos desse personagem, com botas de cano alto, gibão, chapéu, sempre armado. Esse é o resultado de obras de arte encomendadas para a ornamentação do acervo que criaram uma imagem heroica e positiva desse personagem do passado”, reconhece o chefe do acervo do museu, que deverá continuar expondo essas pinturas e esculturas, mas sempre de modo a estimular uma visão crítica dos supostos heróis nelas retratados.

Nessa mesma lógica, a discussão a respeito da remoção ou não de obras públicas paulistanas como o Monumento às Bandeiras, escultura de Victor Brecheret exposta em frente ao Parque do Ibirapuera, e a estátua de Borba Gato, em Santo Amaro, que chegou a receber vigilância policial recentemente para evitar vandalismo, entra em outro nível: o da viabilidade de movê-las.

“A transferência de local é possível para monumentos de porte menor ou de bronze, como as estátuas de Lenin retiradas de cidades que pertenceram à União Soviética. Mas vamos remover o Monumento às Bandeiras para colocá-lo onde? Fora o custo de desmontar uma escultura em granito. É preferível, do ponto de vista financeiro, construir um museu ao redor dela. O mesmo vale para o Borba Gato, uma estrutura de concreto e alvenaria, como retirar aquilo?”, indaga Marins.

Sobre a obra de Brecheret, Schwarcz explica: “Esse monumento, que foi chamado ironicamente pela população de ‘puxa-puxa’ ou ‘empurra-empurra’, traz uma narrativa histórica: à frente está o branco, o bandeirante, o único que está num cavalo; ele é seguido por indígenas, todos com uma cruz, o que mostra como eles seriam incorporados à civilização, portanto desapareceriam; e na seguida vêm os africanos. Ora, são indígenas e africanos que carregam os pesos, levam os barcos que saíam dos rios e vão ter que atravessar a floresta”. Para a historiadora, é necessária uma intervenção no monumento. “Eu faria pelo menos uma legenda explicativa que contextualize a obra. O momento em que foi feita, o que ela significava e como  pode ser lida  hoje. Isso não é vandalização, não é apagamento, ao contrário, é uma maneira de deixar ver.”

“O intolerável não é a estátua estar lá. É estar lá sem nenhum tipo de mediação”, concorda Marins. “Não temos nenhum texto explicativo, QR Code... Ela continua lá como estava quando foi inaugurada. Precisamos criar mediações de discussão desses monumentos, porque em alguns casos eles são praticamente inamovíveis. É mais instigante do que deixar uma escultura dentro da água, já que o racismo que perpassa essa escultura não está eliminado da sociedade.”

A questão é complementada por Schwarcz: “Como diz a Angela Davis e, no Brasil, a Djamila [Ribeiro], não basta dizer que não somos racistas, é preciso que possamos agir de maneira antirracista. Como se faz isso? Não basta ficarmos só na posição de culpa ou na questão moral. É preciso partir para os atos. Esses são atos que seriam importantes para todos nós”, acredita a historiadora. “Não teremos uma democracia no Brasil enquanto praticarmos esse racismo estrutural e institucional que tem a capacidade de deixar esses monumentos invisíveis aos olhos de parte da população.”

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