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O que está por vir

É como se boa parte do país estivesse assistindo, em câmera lenta, ao avanço de um trem desgovernado. E não falo apenas de eleitores de Hillary Clinton

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

09 Janeiro 2017 | 02h00

Uma conhecida me convidou para ir a uma sinagoga. Não porque quer me converter ao judaísmo, a tal sinagoga de Manhattan está se tornando, como várias igrejas católicas e protestantes, ponto de encontro para conversas sobre como enfrentar o que está por vir.

Recebi um e-mail do prefeito Bill de Blasio, que começava assim: “Sei que muita gente está nervosa com o que pode acontecer depois de 20 de janeiro...” e continuava lembrando que uma cidade tem alguns recursos para se defender do governo federal, como, por exemplo, proteger imigrantes e policiar de maneira humana. Nova York, assim como São Francisco e Los Angeles, é uma das chamadas “cidades santuário”, em que o governo municipal se recusa a caçar imigrantes sem documentos. Por isso, corre o risco de ser punida por cortes de ajuda federal ameaçados pelo presidente eleito.

A palavra “surreal” é repetida por pessoas distintas como o porteiro do meu prédio, senadores, empresários. Todo dia um choque, seja por violação de normas éticas, um tuíte que derruba ações de uma multinacional, uma declaração de amor ao autocrata de Moscou que quer ver Washington pegar fogo. O crime de traição, o único definido na Constituição - por ajuda e conforto ao inimigo - começa a ser citado até pela esquerda.

É como se boa parte do país estivesse assistindo, em câmera lenta, ao avanço de um trem desgovernado. E não falo apenas de eleitores de Hillary Clinton. A população de assustados inclui republicanos, moderados ou conservadores, horrorizados com a euforia radical que toma conta de Washington. Alguém abriu uma conta de rede social para eleitores arrependidos desabafarem.

O jornalista republicano David Frum, ex-redator de discursos de George W. Bush, prevê: “A construção do aparato de vingança e repressão vai começar de maneira caótica e oportunista.” Soubemos que o escritório federal de Ética no Governo, responsável por examinar os nomeados da próxima administração, admitiu, em novembro, que não conseguia acesso à equipe de transição. Com um gabinete de bilionários e milionários, o chefe do escritório avisou, na semana passada, que as audiências de confirmação no Senado estão sendo apressadas e sua equipe não tem como examinar caso por caso para determinar conflitos de interesses.

A revista New York foi atrás de psicoterapeutas para saber se havia aumento de casos de stress e ansiedade pós-eleitoral. A redação foi inundada por tantos telefonemas que parou de atender chamadas. Um dos terapeutas comentou: “O eleito disse que ia trazer empregos e, no meu caso, não posso desmentir”.

Psiquiatras sérios jamais fazem diagnósticos de celebridades ou emitem juízo sobre a saúde mental de um não paciente. Pois três psiquiatras, uma da Escola de Medicina de Harvard, duas da Universidade da Califórnia, escreveram uma carta ao presidente Obama, expressando preocupação com a instabilidade mental do presidente eleito e pedindo uma avaliação médica. Não há a menor chance, claro, de o homem que afirmou, em janeiro passado, “Posso atirar em alguém na 5ª Avenida que não perco eleitores” se submeter a qualquer exame.

Há quem aponte a insistência do presidente eleito em ridicularizar as conclusões da comunidade de inteligência sobre o hacking da eleição pela Rússia como exemplo clássico de distúrbio de personalidade narcisista, ao colocar qualquer crítica à sua vitória acima da segurança nacional. Igualmente assustador e patológico é o contínuo ataque a adversários como se a campanha não tivesse acabado e ele fosse assumir a presidência de apenas uma parte do país. Infelizmente o sentimento parece ser mútuo. Nem quando a Suprema Corte colocou a presidência no colo de George W. Bush houve tal atmosfera de ilegitimidade neste país.

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