O que era respingo pode se transformar em jorro visível

Análise: Helena Katz

O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2011 | 03h06

Ele realizou o sonho de consumo de muita gente. Ismael Ivo tornou-se uma celebridade internacional da dança depois de consagrar-se como bailarino, diretor de companhia e coreógrafo, sobretudo na Alemanha. Dirige hoje dois dos festivais de maior prestígio na Europa - o ImpulzTanz, em Viena, que criou em 1984 com o gestor cultural Karl Regenburger, e a Bienal de Dança de Veneza, que assumiu há oito anos.

A sua poderia ser somente uma história de conto de fadas, e já valeria a pena ser contada. Um jovem pobre de Vila Prudente, periferia da cidade de São Paulo, participa da Oficina Nacional de Dança Contemporânea, em Salvador, Bahia, em 1983, o mais importante evento desta área do seu país. É visto por um dos mais renomados coreógrafos do mundo, Alvin Ailey (1931-1989), que se encanta com o seu solo O Rito do Corpo em Lua e o convida para estudar na sua escola, em Nova York.

Desse trampolim, salta para a Europa, que se encanta com aquele bailarino de 1,83 m que mais parecia uma estátua de proporções clássicas. Capaz de preencher o palco com sua figura carismática, que quando abria os braços fazia neles caber o teatro inteiro, acabou aprendendo a falar seis línguas, e, desde 1986, fez de Berlim a sua casa no mundo.

Até aí, a sua vida poderia assemelhar-se à de alguns outros que, como ele, partiram de uma condição desfavorável e venceram no mundo regido pela lógica da corrida de obstáculos. Mas Ismael Ivo se singulariza porque lá do topo de todas as glórias, nesse momento de uma carreira mais que consolidada, decidiu voltar a participar mais diretamente da dança que acontece no país onde nasceu.

Programou a Lia Rodrigues Companhia de Dança para a próxima Bienal de Veneza. Lá, iniciou um projeto de formação de jovens bailarinos. Na primeira edição, incluiu cinco brasileiros. E, na próxima, em 2012, eles serão oito (três bolsas de estudo patrocinadas pelo Sesc e cinco pela Secretaria de Estado da Cultura).

Em cada uma das incontáveis vezes em que foi identificado como bailarino brasileiro, um pouco da projeção que conquistava ia divulgando o Brasil. Mas agora, com o tipo de ação que elegeu para voltar a atuar mais diretamente aqui, o que era somente um respingo pode se transformar em um jorro visível e potencialmente transformador. Quem sabe, esteja regando o surgimento de futuros Ismaéis Ivos, em uma coreografia na qual fará o papel que Alvin Ailey teve na sua vida.

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