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O que é ser conservador?

É preferir o fato ao mistério, o atual ao possível', disse o filósofo Michael Oakeshott

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2017 | 02h00

Decidi atender a um pedido de algumas pessoas para tentar definir o que viria a ser um conservador. O campo é gigantesco e, claro, daria espaço para um texto mais desenvolvido do que esta crônica. Pretendo apenas indicar algumas linhas e bibliografia sobre o conservadorismo e despertar o interesse pelo conhecimento do campo. Você que é conservador e quer aprender mais sobre sua posição, você que está mais à esquerda e deseja conhecer a cabeça do outro time e, por fim, você que ainda não tem bem certeza do que é politicamente: todos podem aproveitar estas curtas linhas.

Poderia voltar mais no tempo, mas inicio o conservadorismo político pela obra de Edmund Burke: Reflexões Sobre a Revolução na França. Situemo-nos: o ano é 1790. A Revolução mal completou um ano e o autor do outro lado do Canal da Mancha já vê nela uma sementeira de problemas. 

Primeira lição: o conservador desconfia de saltos, de rupturas, de processos violentos que destruam o consuetudinário, ou seja, a tradição dos costumes. Burke acredita que a França (que ainda era uma monarquia quando ele escreveu) substituiria a tirania de um rei pela opressão de um grupo político.

 

Para Burke, a sociedade é um contrato entre os habitantes do presente e os do passado e futuro. Não tenho direito de destruir tudo que recebi e não tenho direito de violar o futuro com uma ruptura revolucionária. Segundo o irlandês, a tirania gerada pela revolução seria baseada mais na inveja dos bens alheios do que no sentimento de justiça. O conservador crê na conservação: a tradição, o sistema jurídico e a evolução lenta das leis e dos costumes. A desigualdade entre os humanos seria um dado natural e nunca poderia ser eliminada completamente. O conservador pouco acredita na perfectibilidade do humano. Ninguém pode se dizer um conservador de verdade sem ter analisado a obra de Edmund Burke.

 

Falei de um clássico, mas recomendaria iniciar a jornada com um pequeno livro de João Pereira Coutinho: As Ideias Conservadoras Explicadas a Revolucionários e Reacionários (Ed. Três Estrelas). O autor português estabelece uma crítica a dois polos: o reacionário que inventa uma ordem perfeita no passado para a qual deve retornar, e o revolucionário, que cria uma ordem perfeita à frente para a qual deve avançar. Importante: o conservador pode ser conservador politicamente e liberal (ou até vanguardista) em termos de liberdade pessoal. Assim, um conservador que, tradicionalmente, resiste à interferência do Estado na economia ou no controle do cidadão, pode defender a união civil de pessoas do mesmo sexo. O conservadorismo, indica Coutinho, volta-se à defesa do indivíduo e da sua liberdade. 

Nesta direção, o livro Por Que Virei à Direita (Ed. Três Estrelas) reúne textos de João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé e Denis Rosenfield e é uma boa leitura introdutória sobre o pensamento conservador.

 

Na obra de João Pereira Coutinho está citado um pensamento basilar de Michael Oakeshott: “Ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, o testado ao nunca testado, o fato ao mistério, o atual ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao abundante, o conveniente ao perfeito, o riso presente à felicidade utópica”. (OAKESHOTT, Michael. Rationalism in Politics and other essays). Em resumo, o conservador não crê que os seres humanos possam ser perfeitos em sociedades harmônicas e igualitárias. Para ele, a realidade contraria a utopia. Reafirmando Burke, nossa desigualdade seria estrutural e só superável por processos lentos, metódicos, sem rupturas. Ao Estado caberia, no máximo, evitar o inferno, nunca garantir o paraíso.

 

Para acompanhar essas ideias, o livro The Conservative Mind: From Burke to Eliot (obra de 1953) faz uma lista dos pensadores e das suas ideias conservadoras. Completam bem esse campo os textos de Isaiah Berlin: Estudos Sobre a Humanidade e também o clássico Ideias Políticas na Era Romântica. 

No curso que dei na Unicamp sobre Conservadorismo, também analisei a obra de Thomas Sowell: Os Intelectuais e a Sociedade. O autor norte-americano faz uma pesada crítica aos intelectuais, especialmente os de esquerda, alegando que falam sobre todos os temas sem os conhecerem de fato. Os intelectuais, ao contrário de engenheiros e médicos, não precisam verificar suas ideias e, no fundo, dizem o que a maioria ressentida desejaria ouvir. Economista e negro, Sowell representa a tradição de desconfiança do Estado. Sowell deve ser acompanhado do texto O Que É Conservadorismo, de Roger Scruton (The Meaning of Conservatism), aqui traduzido pela É Realizações Editora. O enfoque de Scruton é mais sobre leis e impostos e menos sobre cultura.

Há muitas outras obras. Não tenho espaço para destacar a excelente análise de Gertrude Himmelfarb ou o pensamento de Alexis de Tocqueville e Thomas Hobbes sobre Estado e indivíduo. Lendo estas e muitas outras fontes, refletindo e criticando, você poderá definir sua postura e aprofundar seu viés político. Observe o mundo ao seu redor, analise pessoas e ideias, leia muito e defina sem preconceitos, por você mesmo, o que é um conservador e por que ele é diferente de um reacionário ou de um revolucionário. Ler e pensar dá um pouco mais de trabalho do que berrar palavrões em rede social. Boa semana para conservadores e revolucionários. 

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