O que é que a baiana tinha?

Carmen Miranda ainda influencia. Madonna que o diga

Sérgio Augusto, Especial para O Estado

18 de janeiro de 2009 | 13h02

> SÃO PAULO - Para início de conversa, ela nem era baiana. Portuguesa (de nascença) e carioca (de criação), tornou-se a quintessência da brasileirice (o jeito brejeiro de ser brasileira) e da baianidade mitificada pela música de Dorival Caymmi. Turbante e balangandãs, brincos, correntes e pulseiras de ouro, sandálias enfeitadas – tudo isso ela tinha. A saia não era engomada, um pano da Costa não cobria seus ombros, a barriga sempre à mostra, sua baiana, estilizada, carnavalizada, sexualizada, multicoloriu-se para o palco e a tela, impondo Carmen Miranda como o supra-sumo do exotismo tropical.   Já reivindicaram a autoria do Miranda Look para Alceu Pena, legendário modista e desenhista da revista O Cruzeiro. Palpiteiros Carmen encontrou aqui e ali, inclusive o Alceu, mas ela foi, mesmo, o seu próprio Pigmalião; ou melhor, a sua própria estilista. Já costurava muito bem na adolescência, quando trabalhou na loja La Femme Chic, na Rua do Ouvidor, a mais movimentada do centro carioca, desenhando e confeccionando chapéus. Não tinha mais de 25 anos quando lançou a moda dos casaquinhos masculinos e encomendou a um sapateiro do Catete o primeiro par de sapatos plataforma de que se tem notícia.   A primeira baiana surgiu no cinema, no musicado Banana da Terra, dirigido por Ruy Costa em 1938. Carmen aparecia cantando O Que É Que a Baiana Tem?, do então novato Dorival Caymmi, que, aliás, muito a ajudou nos detalhes da fantasia: um bordado aqui, uma renda ali, uma bolota assim, frutas e berenguendéns. Com outra igual, Carmen abafou, no mesmo período, no Cassino da Urca, sua mais vistosa vitrine brasileira, de onde partiu em 1939 para as luzes da Broadway e de Hollywood.   Deusa camp, musa do tropicalismo, referência para gays e transformistas, com seu jeito de cantar, revirando os olhos, adejando as mãos (como "borboletas sedutoras", desmanchou-se a Vogue americana, ao cobrir sua estreia em Nova York) e gingando os quadris, com seu sorriso contagiante e a graça de seus trajes extravagantes, tornou-se, da noite para o dia, a mais conhecida, alegre e admirada síntese da mulher brasileira, nosso maior produto de exportação, depois do café.   (Depois? Café, muitos países cultivam e exportam; Carmen, somente o Brasil produziu e exportou.)   Ela foi, segundo seu biógrafo Ruy Castro, a primeira brasileira a criar para si uma personalidade pública – e a viver dela. Mais do que uma cantora singular, foi um fenômeno do show business, a condensação das fantasias que os gringos alimentavam sobre a sensualidade e a fulgurância das ninfas latinas. Bonita, no duro, não era. Boazuda, sim, para os padrões da época: seios sólidos, coxas grossas e firmes, ancas de corista. A boca rasgada, os olhos verdes e vivazes, os dentes brancos e bem alinhados, e a farta cabeleira castanho claro lhe eram únicos e compensavam qualquer deficiência, até a baixa estatura (1,52 m).   A homenagem que a SPFW lhe presta, no ano do seu centenário, é mais uma prova de sua marcante influência sobre a moda internacional. Fonte recorrente de inspiração nas passarelas (e até no guarda-roupa de Madonna), o Miranda Look já marcou presença em outras Fashion Weeks: em 2004, na coleção de inverno de Alexandre Herchcovitch; em 2005, nos biquínis da Salinas. Outras homenagens na certa virão, pois Carmen não precisa de datas redondas para ser evocada pela nostalgia fashion.

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