Sérgio Lima/AFP - 7/72021
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Roberto DaMatta
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O que diz a cartomante

Bolsonaro foi eleito prometendo agressivamente acabar com essa visão negativa do político como um picareta

Roberto DaMatta*, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2021 | 05h00

Escrevo, ansioso, no domingo. 

Estou com minha amiga Exordia Lemos, filha caçula de Dilermando Tortura, um amigo e colega do Colégio São José, de Juiz de Fora, uma instituição infelizmente desaparecida. Fomos alunos de Português de D. Mariola, uma senhora alta e magra, extremamente dedicada a nos ensinar a língua pátria. Conforme ela dizia, “A prova de saber uma língua jaz em escrevê-la”. Foi sentado ao lado de Dilermando que tomei gosto pela criação literária e pela escrita.

D. Mariola nos fazia descrever cenas, apreciar filmes e nos estimulava a ler como fonte para escrever. Eis uma de suas frases inesquecíveis: “Quanto maior o campo, mais batata nasce”. Sentença pronunciada quando tínhamos que terminar o texto em 50 minutos. Com D. Mariola, eu aprendi a escrever claro e a encurtar sentenças. 

Se D. Mariola, tentando nos ensinar a escrever nos 50 minutos de uma aula, Exordia‚ a cartomante, tem como profissão descobrir o amplo e incerto futuro.

Com sua enigmática bola de cristal, ela atende num pequeno cômodo mal iluminado, embora sua casa seja um confortável apartamento no Bairro das Roseiras, em São José do Grotão, Goiás Velho, conforme ela gosta de acentuar.

Exordia confia plenamente nos seus poderes de pressagiar o futuro. Eu a conheci num congresso sobre Rituais e Fantasias realizado em Belo Horizonte. Ali apresentei um trabalho crítico sobre o animismo – a projeção do humano em objetos – e Exordia dele discordou com veemência, argumentando que só o descrente acredita que o crente acredita no animismo pois, para o crente, a sua crença é conhecimento, é real como fato experimentado. Fiquei pasmo com a observação.

Diante da enorme mesa, Exordia embaralha cuidadosamente um conjunto de cartas mágicas. Ela olha mais para dentro de si mesma do que para o baralho preso em suas magras mãos. Ela as ordena em colunas que, conforme diz, são mais confiáveis do que as dos jornalistas. 

– Professor – diz –, eu lhe devo uma (naquele maldito Brasil e Alemanha, ela leu nessas mesmas cartas que nós venceríamos de 4 a 2...), o que o senhor quer saber?

Como toda a torcida do glorioso Flamengo, eu quero simples e modestamente saber no que vai dar as convocações no dia 7 de setembro por um Bolsonaro sabotador de instituições nesse comício para si mesmo, já que – dias passados – ele profetizou o seu terrível e messiânico destino de ser preso, morto ou vitorioso. 

Ela olha para as três impecáveis colunas e declara:

– A primeira diz sim; a segunda, não. Ambas, contudo, têm a carta das “doze horas do nunca” e sinalizam que estamos diante da bulha de um Rei das Trevas e de um furioso rodamoinho demoníaco que torna em sangue as águas cristalinas do lago. 

Olho pela janela e obviamente nada vejo, exceto o retorcido deserto do cerrado goiano onde estou reunido. Encaro Exordia nos olhos e questiono antropologicamente, mas o que podemos entender de tudo isso? Qual é o sentido dessas colunas? Você está dizendo que a coluna da direta é maligna e que o Capitão é um Capetão?

Exordia devolve o olhar. Ela é, eu sabia, simpática ao estilo de Bolsonaro e, como todo mundo (menos os petistas mais radicais), entendia como a esquerda havia se perdido nos labirintos do embaralho nacional, e que os membros do Congresso Nacional não são vistos como nossos representantes, mas como “políticos”, como gente muitas vezes sofrida e comum, mas eleitoralmente alçada a um elitismo degenerativo, de viés aristocrático, por meio de inúmeros privilégios embutidos nos cargos que receberam do povo. 

– Exordia, pelo amor de Deus, entenda que tanto o Legislativo quanto o Judiciário são fáceis de serem intrigados com o povo, pelos homens e mulheres comuns que hoje têm uma visão negativa e pessimista da política e, acima de tudo, dos políticos.

Veja como concebemos o político e a política. Bolsonaro foi eleito prometendo agressivamente acabar com essa visão negativa do político como um picareta (como disse Lula); como um malandro que usa a eleição para se arrumar ou sair do mundo...

– Roberto, não sou eu quem fala, mas as cartas da coluna da direita, disse uma Exordia conclusiva.

– Então as cartas da esquerda seriam o símbolo do povo que não votou em Bolsonaro? Esse Bolsonaro que nomeou Moro, o primeiro e talvez único juiz na nossa história que encarou pôr na prisão um presidente envolvido, conforme consta da Operação Lava jato? 

– E as do meio? – solicita Epaminondas, professor de grego da Faculdade de Filosofia e Ceticismo, membro da nossa mesa.

– Bem, as do meio são como as chaves que abrem portas fechadas; as pontes que ligam as margens opostas dos rios; e os corações que, a despeito de tudo, ainda amam a acreditam no Brasil. Na sua tolerância positiva e otimista, as cartas do meio equilibram igualdade e liberdade...

*É JORNALISTA E CRÍTICO DO ‘ESTADÃO’, AUTOR DE ‘CINEMA. ENTRE A REALIDADE E O ARTIFÍCIO’

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