O que Deus fazia no escuro?

Comecei a ficar intrigado com Deus e o escuro nesta terça-feira, sentado na brasserie Le Jazz. Almoço terminado, os garçons moviam-se lentos, Gil tinha me enviado uma dose de grapa da Toscana com o recado para que ficasse à vontade. Ele me conhece, fico ansioso imaginando que o pessoal quer fechar a casa, descansar. Desagrada-me incomodar. O dia estava úmido, penumbra, silêncio. Minha preocupação na verdade era com a estreia de Rita Gullo na peça A Hora em Que não Sabíamos Nada Uns dos Outros, de Peter Handke, que começou ontem no Jardim da Luz e poderá ser vista de hoje a domingo e na próxima semana também. Toda a ação transcorre dentro do Jardim. Vi cenas, é instigante. Coisas diversificadas acontecem nesta cidade, devemos ficar atentos. Bem, minha ansiedade se explica, Rita é minha filha.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2010 | 00h00

Lia o ensaio A Cabala, do livro Sete Noites, em que Jorge Luis Borges discute a criação do mundo, comentando as palavras de Deus que a luz seja. Numa Bíblia que meu pai me deu, a frase era que haja luz, e luz houve. O que me intrigou foi pensar no que Deus fazia no escuro, antes de se pôr a trabalhar.

A terminologia me parece inadequada. Deus a trabalhar? Não havia a noção de trabalho. Como nomear tudo, tratando-se de Deus e abrangendo um tempo em que as palavras não existiam? A voz, essa sim, já era inerente a Deus, uma vez que Ele disse: Haja luz. No entanto, para que Deus teria voz, se nada existia, ninguém ainda tinha sido criado? Para falar com quem? Com Ele mesmo? Não bastava pensar? O pensamento não é condição do ser humano? Deus falava sozinho no escuro? Antes do mundo era Deus, o escuro, a voz e palavras?

No princípio, Deus criou o céu e a Terra, diz o livro sagrado. A Terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, um vento de Deus pairava sobre as águas. Depois disso, Deus fez a luz. Até então, sem nenhuma ocupação, não havia Terra nem céu, nem almas para cuidar, Ele vivia vagando por trevas infinitas e eternas. Pode-se usar a palavra viver para uma pessoa que não nasceu e não vai morrer?

Com a criação da luz, Deus cancelou o infinito e a eternidade das trevas. Está implícito que Deus via, mesmo no escuro. Nada via, porque nada havia para ver. Qual a razão de criar a luz? Para que o homem, que viria a seguir - Ele sabia - enxergasse? Mas o homem, que seria feito à sua imagem e semelhança, poderia igualmente enxergar no escuro.

Há quanto tempo Deus existia no escuro? Nunca li nenhuma interrogação sobre isso, mas confesso que livros de teologia nunca entraram em minha casa. Suponho que Ele perambulou pelas sombras por muito tempo. É inadequado falar em sombras, elas são produzidas pela luz. Uso sombras como recurso. E que medida de tempo aplicar? Deus teria um tempo particular? Teria ou tem? O tempo de Deus não possuía as divisões futuras estabelecidas pelos humanos, mesmo porque elas acabaram sendo diversas, não no sentido de noite e dia, porque noite e dia existem desde que a luz se fez. Mas em relação a calendários, anos, meses, semanas, dias, horas, minutos, segundos. Deus não precisava (não precisa) contar o tempo.

Só que Ele anunciou o Juízo Final. Estabelecido para quando? Vai haver um momento em que todos estarão mortos, vão recuperar seus corpos e comparecerão diante do Tribunal, cuja composição é uma incógnita. Portanto, existe em Deus a noção de tempo. Para que, chegando o instante decisivo, Ele diga: Basta, é agora! Essa noção particular de tempo Deus jamais revelou ao homem, nem mesmo ao seu filho crucificado aos 33 anos. O que significavam 33 anos para Cristo e para Deus? Era uma medida e ninguém percebeu?

Retornemos às trevas primordiais. Em que momento Deus se deu conta - quase disse tomou consciência, o que levaria à confusão, uma vez que consciência é atributo humano - de que as trevas estavam a oprimi-lo? E pode-se usar o termo oprimir, tratando-se de Deus, supremo e único? Aí está! Como aplicar a Deus nomenclaturas e terminologias humanas? O que seria flutuar nas trevas? Pairar no ar? O ar não existia. Vento de Deus lê-se nos textos. Quer dizer que a noção de vento existia antes de a natureza ter sido criada? Vento é o ar em movimento.

Deus repousava em algum lugar? Repousar no sentido de estar, ficar, assentar, jazer. Nenhum lugar tinha sido criado. E a treva surgiu de onde? Deus seria o próprio escuro? Ele convivia com Ele mesmo, suportava-se, raciocinava, refletia, pensava. Pensar o quê? Nada havia sobre o que pensar. Raciocinar a respeito de que assunto, que matéria? Talvez sobre as trevas. Ou Deus tinha a memória do futuro? Aqui, sim, se confere grandiosidade à sua figura. Ele podia pensar sobre as coisas que viriam. São Tomás de Aquino escreveu sobre Deus conhecer o presente, o passado e as coisas que vão acontecer. Da mesma forma que não podemos manipular a memória do passado, ela é um bloco sólido, Deus decidira não intervir na memória do futuro, fosse qual fosse, por mais terrível que pudesse parecer, por mais tenebrosos que se mostrassem os acontecimentos.

Como Deus tinha noção das trevas se a luz não existia? As trevas existiam porque não era necessário enxergar. Nada havia para se ver e como tudo eram trevas não havia o olhar, atributo desnecessário. Sentia-se apenas o silêncio. Na verdade, não existindo barulho, não se podia dizer que havia o silêncio, os dois funcionam em oposição. De qualquer maneira, utilizemos a palavra. O silêncio existia e Ele pode ser opressor. Teria sido o silêncio o motivo de toda a Criação? Termino a grapa, saio na chuva. Desnorteado, vou procurar respostas. Deus está me deixando louco ou apenas racional?

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