O que aprendemos com o Coachella

O colossal Coachella Festival, o primeiro grande festival do calendário mundial de grandes festivais, aconteceu no último final de semana em Indio, Califórnia, com perto de 170 bandas procurando ou confirmando seu lugar ao sol de 39º, de queimar os miolos mas agradar aos ouvidos. De Kanye West a Twin Shadow, de Arcade Fire a Tame Impala, o Coachella 2011 jogou suas fortes luzes na música rock, indie, rap, pop de tal maneira que este colunista saiu de lá pensando que?

Lucio Ribeiro & Indie, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2011 | 00h00

1. ?o rap é o novo pop. Ou o black é o novo white. Já tem sido há algum tempo, na verdade, mas a coisa segue se confirmando. No Coachella 2011, quatro eram os headliners. Três bandas de indie rock e o rapper superstar Kanye West. Adivinha quem atraiu mais público dentre todos os shows do festival, incluindo na "galera" astros do cinema, de seriados da TV, loirinhas californianas de biquíni, chicanos, etc.? Mas pegar o Kanye West, com uma carreira já superconsagrada, é covardia. Então vamos focar no jovem rapper WIZ KHALIFA, de 23 anos, de Pittsburgh. Tocou no começo da tarde de domingo, com o maior sol do mundo esquentando palco e público, e ainda assim manteve sempre em alto grau de animação sua performance, com excelente resposta da audiência, que cantava junto muitas de suas músicas. Khalifa já tinha lançado dois discos independentes até que neste ano, não faz um mês e puxado por um single (Black and Yellow) que toca sem parar nas rádios e em music televisions, lançou seu primeiro álbum de gente grande, o falado Rolling Pappers, e caminha rapidamente na trilha sucessória megaestrelada de Jay-Z e do próprio Kanye West. Junto com Bruno Mars e B.O.B., Khalifa está abraçando o pop.

2. ? os STROKES ainda são os Strokes. Aceite isso. A banda mudou o rock no começo dos anos 2000, deu uma parada esquisita de cinco anos longe de estúdio e shows e voltou recentemente com um muito malhado novo álbum. Mas, como um dos principais chamarizes do Coachella 2011, o grupo de Nova York fez um show inspiradíssimo por onde quer que se olhasse. Recheou a apresentação de seus velhos hits matadores, mostrou como ficam boas ao vivo algumas das músicas novas. Julian estava uma metralhadora falatória, disparando contra o "grande Kanye West", contra os veteranos do Duran Duran, rindo de piadinhas internas da banda, pedindo para o baterista Fabrizio Moretti começar logo as músicas para impedi-lo de falar tanta bobagem. As guitarras, que sempre foram boas mas protocolares na construção do culto aos Strokes, estavam gritando, saindo da rotina da banda, o que deu um toque diferente para as músicas sempre iguais, já que musicalmente um show dos Strokes é igualzinho a um disco dos Strokes. Se a banda mantiver sua inspiração de 2001 neste 2011, o Brasil vai ver uma ótima comunhão banda plateia em novembro, quando os Strokes se apresentam em São Paulo, no festival Planeta Terra.

3. ? a Austrália é a atual meca indie. Quanto mais se mexe na música independente australiana, mais bandas boas saltam de lá para virem brilhar no Ocidente. O show do grupo de electropop CUT COPY, já algo conhecido no circuito Londres-Nova York-São Paulo, foi de emocionar. Ultra dançante, superpop, algo roqueiro, a banda é a melhor do indie a usar a fórmula músicas tranquilas gostosas com refrões que parecem nunca chegar, mas quando chegam explodem e viram máquinas de fazer dançar como se não houvesse amanhã. Ou como se o Cut Copy fosse o amanhã. É um dos grandes shows de 2011. Melhor para nós, que vamos poder ver o Cut Copy em São Paulo no dia 10 de junho, no HSBC Brasil. Também da Austrália e também com brilho se apresentou no Coachella o novíssimo Tame Impala, banda de três anos de estrada oceânica e composta por uma molecada hippie psicodélica já tida por gente destes lados ocidentais tal qual Dave Grohl (Foo Fighters) como a "banda nova predileta". Outra a tocar sob sol forte, o Tame Impala e seu show causaram efeitos interessantes no Coachella. Em um certo momento já não dava para saber se aquele delicioso som viajante dos meninos era essa maravilha toda mesmo ou se o calor já estava provocando delírios.

4. ?o CANSEI DE SER SEXY ainda tem bastante lenha discopop para queimar. A banda brasileira que brilhou no primeiro disco a ponto de ficar dois anos excursionando pelo mundo todo (mas depois deixou a desejar com um segundo disco sem o frescor e a energia de sua estreia), parece que retomou o caminho das apresentações explosivas comandadas pela tresloucada cool Lovefoxxx. As músicas novas que a banda paulistana experimentou no Coachella, um dos pontos de partida da nova fase do CSS, tiveram boa aceitação por parte de um público gringo nada pequeno para ver o que o grupo ainda tem para aprontar. E não parece pouco.

5. ? o Britpop ainda está vivo. A trinca de ouro do britpop nos anos 90 era Oasis, Blur e Pulp. Mas sempre que era necessária a inclusão de um quarto elemento nessa soma, chamava-se o SUEDE, também campeões de vendas de singles e a mais glam rock das bandas inglesas da época. O tempo passou, o Blur voltou, acabou de novo, o Pulp está voltando, o Oasis acabou para sempre até que Liam e Noel resolvam voltar. E olha o redivivo Suede escalado para o Coachella 2011. O show foi ótimo. Os hits, poderosos, continuam atuais, sem aparência de mofo. O senhor Brett Anderson, com a marcante voz em dia, parecia um jovenzinho de novo. Talvez o segredo dessa "volta íntegra" do Suede é fazer o que 90% das bandas velhas que voltam não faz: tocar bem alto, sem rearranjos e releituras. Brett Anderson sabe disso. Ali, naqueles 50 minutos de show numa tenda qualquer das muitas do Coachella, com cinco outras atrações disputadas tocando ao mesmo tempo em outros lugares, o Suede anos 2010 era o Suede anos 90.

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