O que acontece com gente dramática

Um vaso de hortelã provoca a inveja de outros vasinhos na varanda na disputa pela água do regador

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

30 Abril 2017 | 04h00

Na varanda ensolarada viviam cerca de dez vasinhos. Alguns vieram com pedigree: a hortelã, o alecrim, a orquídea, o tomateiro e a samambaia. Outros, não se sabe bem se por serem menos nobres ou por seus proprietários serem um bocado ignorantes, recebiam nomes menos afortunados como: aquela lá da florzinha vermelha/branca/amarela, o pinheirinho seco e “aquela coisa que brotou parecida com rúcula”. 

Viviam em harmonia: as cores dialogavam bem e nunca era flagrados trocando provocações nem xingamentos vegetais. Mas havia um momento no qual se travava uma disputa árdua e silenciosa: o momento da rega. A moça chegava com seus braços brancos e longos segurando o regador e começava a distribuir água entre os vasos, mas um certo mal-estar começava a tomar conta do ambiente, no qual se sentia que as plantas se comportavam como irmãos de 5 e 7 anos, gritando “ele ganhou mais que eu, isso não é justo, ele ganhou mais”.

O fato é que algumas plantas se aguentavam com pouca água e seguiam seus caminhos sem grandes dramas. Outras amanheciam abatidas, amareladas. Mas havia uma, em especial, que causava um verdadeiro incidente diplomático diário. Era a hortelã. Enquanto o alecrim amanhecia sempre bem disposto e a samambaia um pouco pálida, a hortelã fazia questão de roubar a cena. Acordava derrotada, moribunda e infeliz como aquelas senhoras amargas que vão à farmácia para reclamar do remédio comprado na véspera.

Da primeira vez que o fato aconteceu, o jovem casal quase chamou o padre da Igreja de São Domingos para dar a extrema-unção à hortelã. Os caules na horizontal, as folhas desidratadas e absolutamente murchas. Tratava-se de uma visão fúnebre. Lamentaram o ocorrido, mas, ainda assim, despejaram na planta um copo cheio de água e vazio de esperança, apenas para que ninguém pudesse dizer que eles não tentaram.

Sentaram-se para ver televisão e, pouco depois, olharam para varanda e lá estava ela. Firme. Forte. Radiante. Reluzente. Exibida. Caules em direção ao céu, folhas saudáveis no mais belo tom de verde e um perfume que poderia ser sentido pelo vizinho do primeiro andar. O casal, incrédulo, comemorou a ressurreição da plantinha.

Ocorre que a hortelã gostou da brincadeira. E decidiu repetir a performance diariamente. Jogava os finos galhos em direção ao chão como se estivesse num capítulo de novela mexicana, triste e exausta, lamentando a traição de Carlos Lopez com Viviana Espinoza. E pouco depois de uma rega, como num quase deboche, se transformava em rainha de bateria de escola de samba, entrando na avenida com seus membros rijos, peito aberto, frescor e exuberância.

O casal começou a ficar cansado daqueles caprichos. Mas a situação era ainda pior entre as plantas, que perceberam que a parcela de água do regador que era destinada à hortelã era cada vez maior, sobrando para cada um eles uma dose muito próxima do insuficiente. Depois de uma reunião de emergência, decidiram ficar todas abatidas propositalmente – inclusive o alecrim – como forma de manifestar a injustiça da situação, numa espécie de Satyagraha da jardinagem.

O casal assustou-se com o fenômeno e lamentou ter que fazer 3 viagens com o regador até satisfazer a sede de toda população jardinária. Perceberam rapidamente que aquilo se devia ao fato de estarem dando mais água à hortelã do que às demais. Era um desequilíbrio visível. Pensaram e tomaram a decisão.

No sábado, jantaram carré de cordeiro com molho de hortelã, mojitos, salada de grão-de-bico com hortelã e abacaxi com hortelã no final. Até chá fizeram. O vasinho ficou pelado. Só sobraram os cotocos dos caules. A hortelã ficou constrangida com aquela exposição e repensou seu comportamento. Suspendeu o drama, se desculpou, entendeu o recado e agora segue saudável com 50 ml diários.

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