O que acaba com a amargura de um homem?

Já não era executivo nem CEO. O chinês era só um pai. Era sua melhor versão

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2017 | 02h00

Era um chinês elegante, sem sombra de dúvida. Feio, porém elegante. Era calvo. É raro imaginar, quando se menciona um chinês, alguém sem cabelo, mas este, de fato, não os tinha. Estava frequentemente ali, no restaurante do hotel lisboeta, na mesma mesa, na mesma cadeira, no mesmo horário. Sentava-se de frente para a televisão sintonizada na CNN e observava as notícias com ar severo.

Aliás, ele não tinha outro ar além do severo. Seu invariável terno cinza era bastante mais claro do que o astral que ele evidenciava. Era magro e alto, com um belo porte, mas tinha vincos marcados na testa, porque ela estava constantemente franzida. Era como se ele estivesse sempre descontente com alguma coisa, formando aquela ruga entre as sobrancelhas, que as pessoas descontentes sempre têm.

Via-se que ele ocupava algum cargo importante. O hotel, o terno e o astral cor de carvão não mentiam. E seu ar tão compenetrado nas desgraças cotidianas anunciadas pela CNN alocava-o facilmente em alguma multinacional à qual cada movimento na economia e na política norte-americana interessava muito. Sem dúvidas, era presidente, CEO, CFO ou qualquer outra sigla moderna que representasse poder e angústia.

Ninguém gostaria de tê-lo como chefe. A sensação era a de que ele, apesar dos gestos delicados para espetar os pedaços de abobrinha, poderia, a qualquer momento, fechar aquela mão magra e longa, dando um soco silencioso na mesa, que assustaria muito mais do que berros escandalosos e raivosos de figuras menos austeras. Era um homem silencioso. Sua voz não existia. E eu tinha medo dele, apesar de ele nunca ter me dirigido um único olhar naquele restaurante que dividíamos algumas vezes por semana. 

Perguntava-me se a total ausência de leveza ou de qualquer indício distante de sorriso era fruto de uma infância dura, de um regime totalitário, de uma carreira sofrida ou, simplesmente, de uma personalidade amarga. Julgava-o absolutamente incapaz de sorrir. Estava certa de que era um homem que não sabia sentir. Que era composto unicamente por regras, horários, metas e planilhas.

Até que aconteceu. A garota entrou pela porta automática do hotel, com a pressa típica dos 17 anos. Era bonita. Alta, rosto branco e oval, rasgado por um par de olhos asiáticos perfeitamente enfeitados com delineador preto. Os cabelos lisos tinham as pontas pintadas de vermelho e as longas pernas eram coroadas por um par de botas coturno. Vinha apressada em direção ao restaurante, com sua mochila roxa pendurada em um ombro só, quando ele a viu.

Ela, sorrindo por inteira, disse “Pai!!”, bem alto, em chinês. Eu não sei como se diz pai em chinês. Mas qualquer um, croata, indiano ou uruguaio, identificaria que aquela expressão de conforto e aqueles braços que se abriam só poderiam dizer “pai”. O chinês levantou-se automaticamente, num inédito gesto brusco.

Seus olhos apáticos foram acometidos de uma overdose de vida. Seus ombros se alargaram, seu peito magro cresceu. As rugas da testa que pareciam não resistir a dose nenhuma de botox, subitamente desapareceram por completo. Seus dentes apareceram, pela primeira vez.

Numa fração de segundos, seus olhos ficaram umedecidos, seus braços se esticaram na direção da menina e sua voz ecoou uma palavra doce, que eu reconheceria até em sânscrito. Filha. Filha, filha, filha. Ele repetia com uma voz alegre e trêmula que eu jamais poderia imaginar naquela figura. Abraçaram-se. A mochila roxa caiu no chão.

Aquele homem amargo e impassível foi embora no instante em que a menina chegou. No lugar dele, um homem desconhecido floresceu. O chinês já nem era mais feio. E já nem era tão elegante. O chinês já não dava medo, nem inspirava angústia. Já não era executivo nem CEO. O chinês era só um pai. Era sua melhor versão.

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