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O que a luta das diplomatas tem a ver com a sua carreira

Maria José Rebello se tornou a primeira diplomata e obrigou o Itamaraty a fazer banheiro feminino

Luciana Garbin, O Estado de S. Paulo

13 de janeiro de 2022 | 03h00

Veja se o enredo lhe parece familiar: mulheres muito bem formadas, cujo desempenho ou capacidade nada deve ao de colegas homens, mas que jamais alcançarão os melhores postos da carreira. Parece cena de ambiente corporativo? Mas se passa no serviço público. 

Para começar essa conversa, é preciso voltar a 1918 e conhecer Maria José de Castro Rebello. Aos 18 anos de idade, ela resolveu disputar vaga num concurso para diplomatas. Coube ao então chanceler Nilo Peçanha autorizar sua participação num despacho pra lá de machista: “Não sei se as mulheres desempenhariam com proveito a diplomacia, onde tantos atributos de discrição e capacidade são exigidos (...) Melhor seria, certamente, para seu prestígio, que continuassem à direção do lar, tais são os desenganos da vida pública, mas não há como recusar a sua aspiração, desde que disso careçam e fiquem provadas suas aptidões”. 

Houve reação, artigos em jornais. Mas Maria José passou em primeiro lugar, tornou-se a primeira diplomata e primeira funcionária pública concursada do Brasil e obrigou o Itamaraty, ainda no Rio, a fazer um banheiro feminino. Sua carreira, porém, foi breve. Após casar com um colega, teve de se licenciar para acompanhá-lo ao exterior. Em 1934, para sair novamente do País, pediu aposentadoria precoce, por invalidez. Dois anos depois, faleceu. 

Com a Reforma Oswaldo Aranha, em 1938, as mulheres foram simplesmente impedidas de ingressar na carreira. Essa proibição durou 16 anos. De lá pra cá, ganharam batalhas, mas ainda são cerca de um quarto do pessoal do Itamaraty e ocupam um terço das chefias em consulados gerais. O Brasil nunca teve uma mulher à frente do Ministério das Relações Exteriores ou como secretária-geral. Nunca houve embaixadora em cidades consideradas chave, como Washington, Buenos Aires e Londres. 

E o que esse domínio do terno e da gravata significa ao País? Para a embaixadora Irene Vida Gala, uma enorme perda de talento. “É quase inevitável que mulheres estarão nesses postos. A questão é em quanto tempo. Até lá ótimas profissionais vão se aposentar sem conquistar posições de destaque que homens até menos preparados conquistaram.”

Tudo isso está em Exteriores – Mulheres Brasileiras na Diplomacia (2018). Dirigido por Ivana Diniz, o documentário no YouTube merece 52 minutos de seu tempo também por ir além da classe diplomática. No fim das contas, mostra que a luta das brasileiras contra desigualdades hierárquicas se repete em vários cenários. Independentemente da profissão.

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