Reuters
Reuters

O purgatório do imigrante africano

No romance Mundos Roubados, o neozelandês Lloyd Jones conta a saga de uma camareira da Tunísia que engravida de um hóspede alemão e viaja clandestinamente para resgatar o filho

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

28 Janeiro 2012 | 03h00

A vida dos imigrantes ilegais transportados por barcos clandestinos com excesso de gente e falta de recursos é o tema transverso de Mundos Roubados, romance do escritor neozelandês Lloyd Jones agora lançado pela Rocco. A editora já publicou do autor o premiado Senhor Pip, um dos cinco finalistas do Man Booker Prize em 2007. Em Mundos Roubados, Jones narra a viagem de uma negra africana, Inês, camareira de um hotel à beira-mar na Tunísia, que engravida de um hóspede alemão, tem o filho roubado pelo mesmo e embarca rumo ao continente europeu. Jones faz de sua história uma parábola sobre a errância de imigrantes sem identidade no mundo globalizado - drama que o Brasil vive atualmente com os haitianos que entram por Brasileia, no Acre, em busca de uma vida melhor.

Em entrevista ao Sabático, Lloyd Jones revela que a sombra do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003), hoje internacionalmente aclamado, pairou sobre todo o romance, ambientado na Alemanha, onde o escritor morou com uma bolsa do governo da Nova Zelândia. Isso fica claro lá pela metade do livro, quando Defoe, o inquilino de Ralf, o velho cego alemão que emprega Inês por dois anos, lembra ter visitado quando criança, em Wellington, um navio a vela chileno, o Esmeralda, usado pela ditadura de Pinochet como prisão e lugar de tortura de militantes políticos.

Em comum com Bolaño, Lloyd Jones adota, em Mundos Roubados, o artifício de desvincular o protagonista do narrador. Não há mais o narrador onisciente, mas narradores. Todos os envolvidos na história de Inês - nome, aliás, inventado pela protagonista - contam suas versões da história da africana antes de a principal envolvida ter a chance de narrar a sua. E, quando o faz, Mundos Roubados ganha uma dimensão trágica.

O ritual de sacrifício dessa mulher sexualmente abusada, humilhada e ofendida, que enfrenta as piores violências para rever o filho, acaba sendo uma representação metafórica da luta contra forças impessoais que roubam a identidade daqueles que hoje se encontram vagando em busca de um lugar num mundo hostil, de realidades subjetivas e virtualidade pública.

A busca da identidade é não só o tema de Senhor Pip como de Mundos Roubados, exceto pelo fato de que, em seu novo livro, a protagonista não tem o direito de contar a própria história, dependendo da voz do outro para reconstruir sua trajetória. Você concebeu a personagem Inês como um símbolo do problemático mundo globalizado às voltas com a diversidade étnica?

Não construí propriamente a personagem Inês, confiei nos outros para fazer isso por mim. O "outro" raramente existe em nossas cabeças como uma pessoa autônoma, capaz de voar com as próprias asas. Então, Inês representa essas pessoas que hoje se encontram sem identidade ou linguagem num país hostil à sua presença. Ela representa igualmente um desafio literário, porque nos primeiros esboços do romance não sabia o que fazer com ela além de levá-la até a costa italiana, por desconhecer quase tudo sobre a personagem. Felizmente, fui capaz de reverter a situação em meu benefício. Posso não a conhecer, mas outros com as quais manteve contato podiam ao menos ter uma impressão sobre sua pessoa. E é assim que ela emerge no romance, como uma metáfora para outros projetarem a própria história, preconceitos, hipocrisia e subterfúgios.

A crítica literária internacional tem observado que muitas das histórias contadas pelos escritores em seus romances ficariam melhor como trabalhos jornalísticos. A história de Inês, por exemplo, é verdadeira demais para ter sido inventada. Você considera que usar a linguagem literária é só uma questão formal ou pensou antes em fazer uma reportagem a respeito de imigração ilegal?

É engraçado, porque pensei justamente em fazer uma reportagem sobre os barcos de pesca que transportam imigrantes ilegais para a Europa, mas, no fim, decidi que não queria ficar limitado pelo jargão jornalístico. Nos romances, a linguagem pertence aos personagens. É um idioma particular, individual, que traduz a visão do mundo de cada um deles. De qualquer modo, não penso que Mundos Roubados recorra à linguagem jornalística. Todos os testemunhos são orais, cada um deles refletindo a interioridade de cada personagem. Bem, pelo menos é o que espero ter desenvolvido na trama.

Você escolheu a Alemanha para ambientar a história. Tendo vivido lá por algum tempo, essa escolha foi ideológica, quero dizer, ela teve o propósito de ser uma parábola do novo colonialismo em curso, ao fazer de Inês uma vítima de um hóspede alemão do hotel em que trabalha?

Na verdade, não se trata de um novo colonialismo, mas, antes, de um velho modelo replicado em novo formato. O velho colonialismo e as hierarquias foram reproduzidas pela indústria do turismo. Escolhi ambientar essa história em Berlim porque, tendo vivido lá, conheço bem a cidade. Mais importante que isso, de todas as capitais europeias, é a mais cosmopolita hoje, a mais internacional, um lugar onde é fácil passar despercebido.

Charles Dickens foi a voz que guiou seu premiado romance Senhor Pip, pelo qual é conhecido dos leitores brasileiros. Quais foram as referências literárias que você usou em Mundos Roubados?

Bem, tudo no romance é inventado exceto pela existência do FFF (Fuck the Fucking Fuckers), movimento político radical berlinense, e o episódio do barco quando Inês tenta cruzar o Mediterrâneo. Essa aventura é baseada no naufrágio real de um barco que transportava imigrantes ilegais africanos. O resto é inventado. Em termos de modelo? Bem, a sombra de Bolaño está em todo o romance, no sentido de que repartimos a mesma história. Não me ocorre outra influência.

Imigrantes sem papéis e sem domínio da língua do país no qual pretendem se estabelecer se tornaram personagens comuns no mundo. Como você imagina o futuro?

As fronteiras se tornaram mais porosas e o mundo ficou menor. Com certeza a Europa espera ter uma vasta população de imigrantes ilegais no futuro. Talvez não tenhamos mesmo mais fronteiras no futuro. Como diz Bernard (um francês que Inês conhece num trem e passa a ajudá-la), em Mundos Roubados, citando um grupo político local, as fronteiras têm alguma coisa de diabólico, uma maldade intrínseca.

Críticos estrangeiros já compararam seu estilo ao de Chris Cleave e Matthew Kneale. Você sente alguma identificação com a nova geração de escritores ingleses? Qual a sua opinião sobre esses autores?

Não me sinto qualificado para falar sobre a literatura inglesa contemporânea. Leio esses autores, mas não muito. Na verdade, me sinto desconfortável quando o assunto é literatura e nacionalismo. Escritores já são limitados por fronteiras e diferenças de língua e, nesse sentido, não sou diferente de outros autores. Cada um de nós cria a própria herança literária e ela pode conter escritores do mundo todo, como Bolaño. Finalmente, esse legado acaba dialogando com o lugar em que nascemos, seus sons, língua, paisagens, etc.

Em nossa última conversa, em Wellington, quando Senhor Pip ainda não havia sido lançado no Brasil, conversamos sobre a onda de suicídio entre jovens neozelandeses, provocada talvez pela sensação de isolamento. Você chegou a escrever sobre o assunto?

Não, não cheguei a escrever nada sobre suicídio.

MUNDOS ROUBADOS

Autor: Lloyd Jones

Tradução: Lea

Viveiros de Castro

Editora: Rocco

(288 págs., R$ 37,50)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.