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Ignácio de Loyola Brandão
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O professor que procurava ceriantos

Quem foi o padre Duarte? Quem foi Bento de Abreu para merecer estátua? Perguntas que fazíamos aos professores, que vez ou outra sabiam. Quando me lembro disso, vejo como é curioso não estudarmos a história de nossas próprias cidades. E pensar que o fundador de Araraquara teve vida aventureira, polêmica, agitada, daria filme ou romance. 

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

13 de maio de 2016 | 03h00

Agora que se pensa em mudança de currículos, por que não abrir um nicho, para que haja em cada comunidade noções das origens locais? Quem nos fez, como nosso núcleo se desenvolveu, quem foram os que nos formataram? Acaso não somos micropeças do grande jogo da História do Brasil? Aí, penso nesses energúmenos patéticos, os políticos, gente que rouba até merenda de estudantes e quase desanimo. Por que se interessariam por tais assuntos?

Fala-se muito, hoje, da preservação da memória histórica, cultural, patrimonial. Acabo de ter belíssima surpresa. A professora Zina Bellodi acabou de me enviar um pacote com os primeiros fascículos dos Personagens da História de Jaboticabal. Mergulhei neles meio desconfiado, imaginando que fossem burocráticos, insossos, escritos naquela estéril linguagem acadêmica. Mordi a língua, fiquei fascinado. Criados por Luiz Carlos Bedushi e Dorival Martins de Andrade, mais uma equipe de 30 voluntários apaixonados por história, aqui estão perfis de notáveis que estruturaram a cidade e a sociedade.

Fatos atuais e antigos, pitorescos, curiosos, jornalísticos, comoventes. Agora, à medida que novos volumes chegam, jaboticabalenses podem saber quem são as pessoas que deram nome a ruas, praças, rodovias, prédios públicos. Sabem o papel que os imigrantes, principalmente italianos e japoneses, tiveram na trajetória. Há uma atenção especial às professoras que educaram gerações.

Muitos leram sobre a Romi-Isetta, carro produzido em Santa Bárbara d’Oeste nos anos 50-60. Ou o Gurgel, de Rio Claro. Mas alguém ouviu falar que Jaboticabal também teve uma montadora, que colocou nas ruas o automóvel Joagar, que foi, inclusive, apresentado ao presidente JK? Em uma fase industrial, dali saíram tornos, beneficiadoras de arroz e café, arados. E também os aparelhos de gasogênio, que foram fundamentais durante a guerra, produziam um combustível alternativo que substituía a gasolina racionada.

Uma delícia ver a reprodução de antigos anúncios da Fábrica de Chapéus Poli. Homem que se prezava usava chapéu e o tirava diante de uma senhora; hoje, a meninada vive com o boné enterrado na cabeça até para comer, falha grave para os bens educados. Não é que existiu na cidade uma Escola Superior de Caligraphia (assim com PH), filial (hoje seria franchise) da célebre escola Di Franco? Alguém sabe o que é caligrafia, curso que nenhum médico frequentou? Daí os garranchos das antigas receitas. A esta cidade pertenceu Campos Sales. Não o presidente, mas um preto centenário, lavador de chão de residências e de casas comerciais, que, depois de morto, fez milagres. Também milagres fazia a menina cega, a quem se ergueu uma capela, depois uma igreja, enfim santuário. Grandes e pequenos, ricos e pobres, célebres e anônimos, todos são história. 

Há uma pessoa que me impressionou e a quem foi dedicado um volume inteiro, o professor Carlos Nobre Rosa. Numa época em que se fala tanto de tecnologia e ciência, houve um homem que trabalhou idealisticamente em Jaboticabal, ensinando Ciências Naturais, apaixonado que era por Zoologia e Fisiologia Geral e Animal. 

Nobre criou na cidade uma biblioteca de História Natural, melhorou os laboratórios do colégio, realizava anualmente uma viagem de alunos ao litoral para a coleta de material para conhecer ceriantos (ou flor animal pelo seu aspecto belíssimo, que brota no fundo do mar) ou o raro Hydrodiction, uma alga unicelular. Ele fundou o primeiro Clube de História Natural do Brasil. As iniciativas de Carlos Nobre acabaram sendo o embrião das futuras Feiras de Ciência, hoje disseminadas pelo País e tão incentivadas e elogiadas por estudiosos sérios, como J. Reis. Se o programa Cientistas do Amanhã existe se deve ao pioneirismo de Carlos Nobre, autor, entre outros, de Os Animais de Nossas Praias e Invertebrados. Ele despertou o gosto pela Biologia e Oceanografia. Espantei-me ao saber que Nobre não só fez conferência sobre Biologia e Aviação (eu adoraria ouvir) como também batalhou por uma linha aérea São Paulo-Jaboticabal pela Vasp. Outro filme, ou seriado de tevê da HBO. 

Um homem que jamais deixou sua cidade. Recusou sempre cátedras em faculdades ou universidades, não queria se separar do seu laboratório e do seu museu (que, mesmo abrigando mais de mil exemplares da fauna e da flora marinha, desapareceram). Se já existissem estes Personagens da História, museu e laboratório estariam conservados.

O escritor Caio Porfirio Carneiro disse sobre os fascículos: “Os autores dão vida cinematográfica aos personagens que fizeram sua história, arrastando o leitor para dentro do corpo e espírito do município”. Tanto Caio quanto eu, chegamos a um mesmo ponto. Imaginamos que cada município possa um dia montar sua própria história, estudando-a nas escolas municipais. O modelo está pronto. Teríamos outra história do Brasil. Do micro para o macro. Será que Heloisa Starling, Jorge Caldeira ou Lilia Moritz Schwarcz gostariam da ideia?

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