O professor J.S. Bach

Concerto faz interessante recorte de obras do autor e de seus alunos

O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2012 | 03h07

A série Bach: Tema & Contratema realizou seu 39.º concerto mensal anteontem, no Espaço Cachuera, com um recital de Júlio Amstalden ao cravo e ao órgão. Ocasião rara de se ver um organista em ação de pertinho, porque a sala comporta apenas 50 espectadores. Além desse atrativo, o recorte conceitual foi muito feliz, pois abordou um lado menos conhecido de Bach, o de professor.

Até hoje, em seu aprendizado, todo pianista passa pelas Invenções, as Suítes Francesas e Inglesas e o Cravo Bem Temperado. Como mestre de música em Leipzig por quase três décadas, Bach deu aulas a milhares de estudantes. O caminho pedagógico iniciava-se com o cravo e terminava com o órgão. E Bach tratava de formar músicos em sentido amplo. Isto é, não só grandes executantes do instrumento, mas compositores com domínio do ofício.

Por isso, as quatro primeiras peças do recital de Amstalden foram interpretadas ao cravo - um instrumento de grande sonoridade, feito por William Dowd em 1983, em Paris, com dois teclados e três registros de cordas. As três primeiras bem simples, para iniciantes: uma marcha do famoso Pequeno Livro de Anna Magdalena Bach, que ele compôs para a sua segunda mulher a partir de melodias de alunos e filhos; um prelúdio do Pequeno Livro de seu filho mais velho, Wilhelm Friedemann; e uma deliciosa e sincopada Invenção a duas vozes. O prelúdio e fuga n.º 21 do Cravo concluiu o primeiro bloco.

O espaço do Cachuera convida a uma informalidade maior. E disso se aproveitou bem Amstalden, que combinou informações interessantes com um toque competente ao cravo. As peças seguintes mostraram como Bach fazia a transição, para os alunos, do cravo ao órgão. A dedicatória do Pequeno Livro do Órgão, ao qual pertence a peça Um Dia de Muita Alegria, já demonstra sua intenção, que neste livro permite "aos organistas iniciantes desenvolver um coral em todos os estilos e aperfeiçoar-se no estudo dos pedais". A coletânea tem 45 corais desenvolvidos por Bach (ele usava as melodias que se cantavam nas igrejas locais como matéria-prima).

O órgão de tubos Link, fabricado em Giengen, na Alemanha, em 1994, é uma atração à parte do Cachuera. É um instrumento de câmara, doado à Associação Cachuera por um industrial alemão residente em São Paulo. O sexto dos Oito Pequenos Prelúdios e Fugas, coletânea de composições de alunos, é atribuído a Krebs e tem interesse musicalmente menor, mas é exemplo do resultado das aulas do mestre, assim como a Alemanda e a Corrente de Krebs tocadas em seguida.

O estilo galante de Carl Philip Emanuel, um dos mais talentosos filhos de Bach, surge já prenunciando o estilo clássico na sonata em sol menor. Amstalden encerrou seu recital com o interessantíssimo Prelúdio e Fuga em Ré Menor BWV 539, em que Bach dá mais uma mostra de seu espírito cosmopolita: o prelúdio é claramente influenciado pelo estilo francês; e a bela fuga, uma transcrição da sonata para violino solo em sol maior BWV 1001, cheia de notas repetidas, bem ao estilo italiano.

As execuções de Júlio Amstalden foram ótimas ao cravo, mas ficaram um degrau abaixo no órgão. Houve alguns descuidos, com direito a esbarros e a ralentandos em trechos um pouco mais desafiadores do ponto de vista técnico. Mais esmero e concentração na performance teriam concretizado com perfeição um recital conceitual muito bem concebido.

Crítica: João Marcos Coelho

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.