O professor Borges

Num livro sobre Shakespeare, o escritor Victor Hugo escreveu: "Paris é a capital de uma vertente da humanidade, Londres é a capital da vertente oposta." O argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), no ano de 1966, como professor de literatura inglesa da Faculdade de Filosofia e Letras de Buenos Aires, dedicou parte do tempo de uma aula a Hugo. É possível, diria-se até provável, que ele tenha-se lembrado da frase, mas não há registro disso: seus alunos tinham de se preparar para as provas e estavam interessados mesmo no curso de literatura inglesa de Borges.Um deles (não se sabe quem) gravou sistematicamente as 25 aulas daquele final de ano. Mandou alguém transcrevê-las (também desconhecido, talvez ele próprio), fez cópias e distribuiu-as aos colegas. Borges já era uma personalidade importante na vida cultural argentina, já era professor da Universidade de Buenos Aires havia dez anos e dirigia a Biblioteca Nacional, mas ainda não era uma "vaca sagrada", como hoje. No final do ano, essas aulas foram provavelmente deixadas de lado pelos colegas de classe.Um desses estudantes teve, na década de 1980, um parente que foi estudar literatura. Esse parente deparou-se com a papelada, tinha um amigo e pronto: mais de 30 anos depois daquelas aulas, em 2000, o curso do Borges professor foi publicado na Argentina, com organização de Martín Arias e Martín Hadis - ambos há pouco passaram dos 30 anos e que não foram, nenhum dos dois, alunos de Borges.Não foi uma tarefa fácil. A obra, publicada agora no Brasil com o título Curso de Literatura Inglesa (Martins Fontes, 442 págs., R$ 42,50), teve de ser trabalhada à exaustão, porque as transcrições não eram nada fiéis - segundo disse Hadis ao Estado, provavelmente, quem datilografou o que ouviu nas fitas não entendia muito bem inglês, e algo que Borges não economizava eram as citações. Mas, mesmo que soubesse, a tarefa não seria fácil: a primeira parte do curso, que soma sete aulas, é dedicada à literatura anglo-saxã (século 5 a 1066), anterior mesmo ao surgimento do inglês como língua - e que usava, inclusive, letras abandonadas atualmente. Só a partir da oitava aula (como escreve Borges: "Embora desde a última sexta-feira tenham passado para nós apenas uns dias, para nossos estudos vai ser como se houvessem passado muitos mais. Vamos abandonar o século 9 para dar um pulo no vazio e chegar ao século 18") é que começam surgir nomes como Samuel Johnson, Coleridge, Thomas Carlyle, Charles Dickens, Dante Gabriel Rossetti e William Morris, escritores que podem ser considerados, historicamente, de fato, ingleses.Cada nome próprio teve de ser localizado e, "numa estimativa conservadora", segundo Hadis, havia em média cinco deles por página. Borges, que tinha notórias dificuldades visuais (dois anos depois, disse numa entrevista: "Eu sei, ou melhor, dizem-me, porque eu não posso ver, que minhas aulas estão cada vez mais cheias de alunos"), chamava os alunos para ler cada estrofe de poema que citava e essas estrofes também foram deixadas de lado. O trabalho, contudo, parece muito bem feito - a sensação que se tem na leitura é que as aulas teriam sido revisadas pelo próprio Borges ou talvez nem isso: parece que elas foram revisadas com mais cuidado até do que Borges teria.Os dois Martíns, contudo, não procuraram "corrigir" o professor: quando a citação, feita de memória, não batia com o original, o original ia para uma nota de rodapé. Hadis descreve assim o trabalho que ele e seu colega tiveram: "Foi muito estranha a sensação de escutar através do papel."O Borges que surge desse curso, na opinião de Hadis, é um tanto diferente do conferencista, já bastante conhecido, inclusive do leitor brasileiro. Embora continue a se ancorar numa erudição impressionante, "ele mostra saber que estava se dirigindo a estudantes" - estudantes que ainda não haviam lido muitas das obras que comenta, que muitas vezes não liam em inglês e que, provavelmente, só se interessariam por alguns dos autores que cita. "É um Borges divertido, generoso, paciente. Serve para desfazer o mito de sua soberba."A relação entre a literatura inglesa e a trajetória de Borges é bastante explicitada pelo escritor e evidente em muitas de suas conferências. Mas, na opinião de Hadis, nestas aulas Borges tinha a vantagem de contar com um tempo bastante longo para falar "tudo ou quase tudo" o que queria, de forma muito clara. Além disso, Borges, que foi co-autor de um livro intitulado Literaturas Germánicas Medievales, que tem um capítulo sobre a literatura anglo-saxã, disse numa entrevista que gostaria de expandi-lo. "Acho que essas primeiras aulas realizam, de certo modo, esse seu desejo."Borges considera que dividir a história da literatura em épocas não passa de "um expediente cômodo", como diz, na aula 17, dedicada a Charles Dickens. De fato, expressões como "época vitoriana" são detalhes nas suas aulas. Em geral, ele procura partir da vida dos escritores e de seu tempo para chegar à obra. Quando fala de épocas, também procura ir além das aparências: também nessa aula, ele diz que o século 19 inglês "parece uma época conservadora, mas o auge do socialismo corresponde a essa época", um citação que ajudaria a encorpar, por exemplo, o estudo de Peter Gay intitulado O Século de Schnitzler, publicado recentemente no País. "A época vitoriana foi uma época de debates e discussões. Sua tendência não foi tão acentuadamente protestante."Embora use, em alguns momentos, a obra de Borges para incrementar as aulas, o edição não faz uma relação exaustiva entre o que ele dizia na sala da universidade e o que escrevia - o que favorece uma leitura contínua. "Ele constantemente se auto-referia, ele lia muito e continuamente", diz Hadis. "Esse seria um trabalho para a crítica, não era o que queríamos fazer." Para os fãs da mitologia usada por Tolkien em O Senhor dos Anéis, o livro também é imperdível: suas últimas páginas trazem traduções de seis textos anglo-saxões que resistiram ao tempo e que foram usados pelo professor Borges em suas aulas.

Agencia Estado,

29 de março de 2003 | 20h19

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