O primeiro sucesso do holandês Rompaey

O primeiro sucesso do holandês Rompaey

Diretor fala sobre Moscou, Bélgica, sua comédia romântica coberta de prêmios

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2010 | 00h00

Logo no começo de Moscou, Bélgica, Barbara Sarafian, que representa Matty, olha para a câmera desconsolada, com aquela cara de quem diz que pior não pode ficar. Ela está saindo do supermercado, cheia de compras, desalinhada, com os filhos. Matty foi abandonada pelo marido, um professor que preferiu ficar com uma aluna mais jovem. Mas ela acredita que o ex vai voltar. As coisas pioram, sim. Logo em seguida, Matty sofre um acidente, quando seu carro é abalroado pelo caminhão de Johnny. Ela se descontrola. Libera o verbo, grita impropérios, palavrões. Não é exatamente o começo ideal para uma comédia romântica e o diretor Christophe van Rompaey, numa entrevista por telefone, esclarece que se trata de um romance, mas não de uma comédia romântica.

O repórter insiste - seria a comédia romântica que os irmãos Dardenne fariam, se por acaso se exercitassem no gênero. Van Rompaey morde a isca. "Soube que eles assistiram e gostaram. Elogiaram Barbara (Sarafian). Ela é uma atriz belga, mas como tem feito filmes em língua inglesa, é considerada em seu país uma atriz de cinemão. Espero que meu filme ajude a mudar esse conceito sobre ela e que os próprios Dardennes lhe ofereçam os belos papéis que Barbara é capaz de fazer."

Moscou, Bélgica tem sido uma unanimidade desde que passou em Cannes, integrando uma das mostras paralelas. Depois disso, o filme tem feito o circuito dos festivais menores - Denver, Zurich, Santa Barbara, Palm Springs, etc. -, sempre coberto de prêmios, especialmente para o diretor e a estrela. Ele é holandês, "from the Nederlands". Queria uma atriz capaz de se expressar com facilidade tanto em belga quanto em dutch. O espectador descobre o porquê logo nessa cena inicial. "Todo personagem necessita de uma linguagem corporal, mas a verbal também é importante. Barbara é maravilhosa naquela torrente de palavras. Creio que todo o espírito do filme já fica definido de cara."

Os atores, Barbara e Jurgen Delnaet, que faz Johnny, tiveram liberdade para improvisar? "Ensaiamos muito antes de iniciar a filmagem. Deu tempo de incorporar, às falas escritas, o que os atores poderiam agregar improvisando." O método lembra um pouco o de certos autores ingleses, Ken Loach e Mike Leigh. "Ken não é "my cup of tea" (NR - a entrevista é em inglês), mas Leigh é uma referência. Não que eu quisesse fazer um filme como os dele, mas gosto muito de seu cinema, das observações humanas e sociais e do que ele consegue extrair de seus elencos."

Van Rompaey já era um experiente diretor de curtas e de TV na Holanda. Há tempos queria fazer o primeiro longa para cinema. O projeto do filme começou com seu amigo, o roteirista e produtor Jean-Claude Rijckeghem. Nasceu bem cômico, superficial. Van Rompaey, que sonhava com uma coisa mais dark, sombria, deu-lhe profundidade. Mas a história parecia não interessar a ninguém. Durante anos, eles buscaram parceiros para o filme cuja localização parece improvável - Moscou, não na Rússia, mas na Bélgica. É um bairro da cidade de Ghent, onde Van Rompaey filmou (e onde residem seus personagem). Um bairro popular, proletário, como essas figuras que parecem extraídas de um folhetim tipo "a vida como ela é". Na Holanda e até nos EUA, para facilitar as coisas, críticos e jornalistas rotularam o filme de comédia romântica. O diretor tem razão - não é, pelo menos não no formato clássico, mas tem humor, romance e dois personagens que precisam aparar suas arestas (um tema, esse sim, clássico do gênero).

Gênese. O cineasta continua contando a gênese do filme - "Quando finalmente consegui parceiros, quase os perdi. Eles queriam que eu filmasse com atores conhecidos. Bati pé. Queria os que serviam aos personagens que estava criando." Após o sucesso de público e crítica de Moscou, Bélgica, engana-se quem pensa que a vida de Van Rompaey melhorou. Ele enfrenta os mesmos problemas para a realização do segundo filme. "Todo mundo me cobra um outro Moscou, Bélgica, mas não é o que pretendo fazer, estou pagando por isso." Ele explica por que situou a ação do filme na Moscou belga. "É a vizinhança em que nascemos, Jean-Claude e eu. Nossos personagens e a trama podem ser universais, mas se fôssemos procurar outra locação, teríamos de fazer pesquisas. Ali, estávamos em casa."

Matty tem três filhos, duas garotas - e uma tem uma ligação lésbica, que ela aceita - e um menino que quer ser piloto. Van Rompaey arrisca alguma interpretação para o sucesso internacional do filme? Aliás, imaginava que Moscou, Bélgica seria visto no Brasil? "Nem no Brasil nem nos EUA nem em Cannes. Quando começamos o projeto, já estávamos felizes (Jean-Claude eu) com a ideia de que talvez conseguíssemos um circuito interno, para mostrar o filme na Holanda e, talvez, na Bélgica. A única interpretação que tenho é a seguinte - o filme foi feito com honestidade, visando à profundidade. Não uma profundidade intelectual, baseada em ensinamentos filosóficos ou o quê. Uma coisa mais humana, mais comprometida com as pessoas, como os filmes dos irmãos Dardenne e de Mike Leigh."

Trailer. Veja trechos de Moscou, Bélgica no site

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