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Humberto Werneck
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O primeiro risco

Um choque para qualquer autor: topar com livro seu num sebo pela primeira vez

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2020 | 03h00

Poucas semanas depois estrear em livro, o poeta acaba de passar pela experiência de saber que seu primogênito já chegou ao sebo.

– Caprichei tanto na escrita e na edição! – lamuria-se ele. Inesperadamente hiperbólico, não hesita em comparar a rejeição de que se sente vítima com o sucedido a Moisés recém-nascido, posto a boiar num cestinho nas águas de um rio. Quase lhe digo: se assim foi, garantido está a seu livro um destino glorioso, comparável ao que os Céus reservaram ao profeta, comandante da cinematográfica fuga dos judeus do Egito, epopeia que o credenciou a receber do Criador em pessoa as tábuas pétreas dos Dez Mandamentos.

– Bem que você me preveniu... – prossegue ele, inconsolável.

De fato, eu havia cantado a caçapa, na tentativa de prepará-lo para um dissabor inescapável: por melhor que seja, não há autor que não se depare um dia com escrito seu nas prateleiras – ou, pior ainda, nas pilhas de livros – no cafarnaum dos sebos. 

Lembrei a ele a história, mil vezes contada, do escritor do quinto time que um dia viu ali, entregue não só às baratas como aos ácaros e traças, nada menos que a sua obra-prima – em cuja folha de rosto, aliás, escrevera uma gélida, quase repulsiva dedicatória para um confrade, também ele do quinto escalão das letras, com o qual mantinha relações de mal disfarçada hostilidade não apenas literária: “Para fulano, atenciosamente...”. Afamado por seu pão-durismo, mesmo assim comprou o livro e o remeteu – “arremessou” seria o verbo mais adequado – ao rival, não sem antes escrever, sob o citado advérbio, no caso advérbio de maus modos, numa caligrafia trêmula de ódio: “Com renovadas atenções...”. 

Reação do destinatário, posta a circular imediatamente nas rodas da província literária: “Até que enfim alguém comprou um livro dele...”.

*

Ainda na tentativa de levar consolo ao poeta duplamente estreante, relatei a ele uma de minhas experiências de autor enjeitado. 

Quinze anos atrás, publiquei por conta própria, fora do comércio, um livro de contos, cujos 500 exemplares, numerados e rubricados, distribuí a conta-gotas, com o cuidado de anotar os nomes dos presenteados. Não tardou o dia em que alguém me deu notícia do livro num sebo paulistano. 

Lá fui eu, de coração nublado. Não era a primeira vez que coisa minha desaguava nesse tipo de vala comum. Mas o caso, agora, me parecia mais grave, dado o caráter quase confidencial da edição, e sobretudo o fato de ter eu escolhido criteriosamente quem receberia meu Pequenos Fantasmas. Adiei o quanto pude o momento de pinçar o livro na estante (pelo menos não estava numa pilha) e ler, na dedicatória, o nome do ingrato: Fulano. Como se trata de prenome bem comum, presente uma dezena de vezes na minha lista de destinatários, jamais fiquei sabendo qual daqueles fulanos esnobara a minha obra d’arte. 

Escaldado, nunca mais experimentei fricotes de autor ferido em sua vaidade. Cheguei mesmo – permita-me contar de novo – a bolar a ideia pioneira de lançar livro em sebo, e não apenas como forma de queimar etapas: como em princípio o que chega ali são obras já lidas, eventuais compradores não precisariam entregar-se a tal esforço.

*

Às vezes dá vontade de presentear alguém, e, como só me resta o meu exemplar, o jeito é ir caçar Pequenos Fantasmas na Estante Virtual. Acabo de constatar que no momento há dois – um deles oferecido ao despudorado preço de 150 reais, o que me faz supor que o alfarrabista decidiu investir na perspectiva de meu falecimento, na esperança de que algum amigo ou familiar se disponha então a me prestar essa modalidade de homenagem póstuma. 

Às vezes me divirto a imaginar enredos, que prometo não converter em contos. Um dos volumes que arrematei, por exemplo, estava dedicado para um casal de amigos que se separaram – e, à distância, me pus a saborear a cena em que os dois, numa partilha sangrenta das sobras de tudo que chamam lar, quase se engalfinharam pela posse dos itens mais prosaicos, para se porem de acordo num único ponto, o de que conservar aquele livro não interessava a nenhum dos dois.

Autor certamente mais vivido do que lido, passei também pela experiência, já contada aqui, de encontrar na Estante Virtual um livro que jamais escrevi, intitulado O perfil no jornalismo. Cheguei a cogitar se não seria coisa de um dos dois Humberto Werneck que antes de mim bateram a pacuera, ambos nos anos 1970, um em Belo Horizonte, outro no Rio de Janeiro. Meu livro fantasma – favor não confundir com o citado mais acima – apareceu primeiro na capital mineira, ao preço de 10 reais, depois em Simões Filho, município vizinho de Salvador, a 25. Não me passou despercebido o fato de que entre Minas e a Bahia o escrito se valorizou 150%. Decidi comprá-lo, antes que numa terceira unidade da Federação ele se tornasse ainda mais caro – mas já era tarde. Uma pena. Adoraria ler um livro meu que não eu tivesse escrito. 

*

No empenho de acolchoar a alma e o ego de meu amigo, enquanto o correio não regurgitava a primeira unidade refugada de sua obra de estreia, aliás excelente, propus a ele a ideia de revender e recomprar, indefinidamente, o mesmo exemplar. Seu livro se tornaria assim dos mais vendidos, ou, quando menos, dos mais viajados. Dos mais lidos? Bem, não se pode ter tudo.

O autor considerava a minha ideia quando chegou o pacote da Estante Virtual – e, com ele, uma decepção suplementar: o destinatário arrancara a folha com a dedicatória e o número do exemplar. Quando a raiva passou, o merencório poeta se pôs filosófico, e sacou lembrança da tristeza em que chafurdou seu falecido pai, quando, tendo comprado o primeiro carro 0 km, uma Parati azul, passou, ainda em lua de mel automobilística, pelo desgosto de constatar que um vândalo riscara a lataria. Observação de alguém mais vivido com quem foi desabafar: “O primeiro risco corta o coração da gente”.

Na hora não me ocorreu: isso não rende poema para o próximo livro?

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