Valeria Gonçalves/Estadão
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Leandro Karnal
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O presente de amor

O presente é um desapego de tempo, de olhar, de reservas financeiras. Sem ele, o amor periclita

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2022 | 03h00

Aviso de utilidade pública: em poucos dias, será o Dia dos Namorados no Brasil. O alvo do meu lembrete é o gênero dos homens. As mulheres possuem uma área cerebral indelével para datas. “Você se esqueceu de que hoje é aniversário do nosso primeiro beijo?”, diz a esposa desolada. 

Agora eu avisei, não existe dificuldade: hora de comprar presente! Nunca, eu disse nunca, confie na frase de que ela ou ele preferem não pensar na data, não querem presente, a ocasião seria muito comercial, etc. É sempre mentira e é um teste para você. Todo mundo gosta de ser lembrado. 

A arte de dar presentes já foi alvo de análise minha há alguns anos. Vou insistir em um ponto: dar presente é pensar no outro. “Ah, eu adoro este perfume!” Ótimo! Compre litros para você! Seu gosto é irrelevante. Todo mundo que errou comigo sempre partiu do mesmo ponto, comprou algo para si, não conseguiu me ver. As vezes nas quais eu também errei foi pelo mesmo motivo: egoísmo. 

Conhece bem a pessoa? Sabe que bebidas ou perfumes ela ou ele gostam? Há restaurantes que falam ao coração da cara-metade? A chave do bom presente é sempre a mesma: rebaixar um pouco o meu eu e observar com generoso olhar a pessoa que eu amo. O presente é um desapego de tempo, de olhar e, eventualmente, de reservas financeiras. Sem desapego o amor periclita.

Muitas pessoas dão pistas. Estão vendo televisão com você e soltam uma frase no meio de um comercial: “Que legal este aparelho!” Qual a necessidade dela? Uma vez dei um livro de cartas amorosas. Estava com pouco dinheiro. Incrementei o presente destacando, nas declarações de grandes autores, quais os pontos que eu vi na nossa relação, sublinhando e comentando. Presentes com intervenções pessoais são muito especiais. 

Cuidado com o sucesso! Você deu um porta-retratos no Natal e foi recebido com emoção? Que bom! Não precisa repetir o objeto para sempre. 

Eu diria que o bom presente é pensado com antecedência, possui um toque pessoal, remete a uma boa memória e mostra seu grau de atenção. Surpreenda, porém, a partir do que ela ou ele são. O presente é um ato de generosa doação, independentemente do valor.

A relevância do presente está no carinho e cuidado, nunca no valor. A data é comercial. Se o fato lhe incomoda, presenteie no dia 11 ou 13 de junho. Uma oferta é um termômetro do amor. O valor pecuniário é apenas um recibo da sua renda. Tenho esperança no amor.

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