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O presente como beco

Deixando o futuro para trás, William Gibson explora terror atual da alta tecnologia na trilogia ‘Blue Ant’

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

10 Janeiro 2014 | 20h10

Blue Ant é uma agência de publicidade transnacional dirigida por um bilionário belga chamado Hubertus Bigend. É também o nome da trilogia do escritor norte-americano William Gibson, cuja última parte, História Zero, será lançada em julho no Brasil, pela mesma editora Aleph, que publica agora o segundo volume da série, Território Fantasma. Ela não se chama Blue Ant por acaso. É uma trilogia um tanto venenosa, como a formiga australiana Diamma bicolor, que, afinal, nem formiga é, mas serviu para batizar a série de Gibson. Território Fantasma retrata o presente como um beco sem saída. Não é preciso mais recorrer a androides, bichos artificiais ou à chuva ácida das megalópoles do futuro para causar horror. A atualidade já é por si um pesadelo cibernético em Território Fantasma.

Arma secreta. A agência de Bigend, no livro, tem uma revista para a qual escreve a freelancer Hollis Henry, ex-vocalista de uma banda rock dos anos 1990 que trocou os palcos por um computador. Plugada, ela cobre a cena alternativa de Los Angeles, mas não resiste ao apelo de saber como a arte virtual pode ser instrumentalizada. Nesse “território fantasma”, as Forças Armadas estão desenvolvendo uma nova tecnologia geoespacial que usa a internet sem fio, o GPS e a computação gráfica com propósitos um tanto escusos. Lembram das drogas criadas pelos militares americanos para uso bélico? Pois é: Gibson lembrou, mas trocou substâncias que levam a estados alterados pela alta tecnologia.

Baixa consciência. O outro lado da história é um cubano-chinês com nome de ditador, Tito, ligado a uma organização mafiosa cubana, que deve entregar uma série de iPods com dados reveladores a um misterioso senhor. No meio do campo está um agente de uma organização secreta que quer saber como os EUA agiram durante a guerra do Iraque. Com a ajuda de um ex-viciado. Como se vê, a dobradinha alta tecnologia e baixa consciência continua a ocupar parte do imaginário de Gibson, que, em Território Fantasma, está mais para John Le Carré que para Philip K. Dick.

A abertura da trilogia Blue Ant, Reconhecimento de Padrões, já anunciava uma devassa impiedosa no cyberspace. Os efeitos negativos da comunicação internética, conforme a conclusão da leitura do livro inaugural, são devastadores – e não se resumem ao fim da privacidade e à disseminação indiscriminada de dados pessoais pelo computador. Nele, a ‘coolhunter’ Cayce Pollard, uma profissional caçadora de tendências, não só identifica padrões de comportamento de consumidores. Ela é ambiciosa e aceita uma proposta inusitada: saber quem está por trás de uma série de vídeos postada de forma anônima na web.

Qualquer cristão disposto a rastrear sabotadores industriais, hackers e mafiosos que circulam pela rede sabe que um dia será inevitavelmente atirado aos leões no coliseu virtual das almas perdidas. Neil Gaiman, o criador de Sandman, diz que Reconhecimento de Padrões “mostra a nossa realidade como se a estivéssemos vendo pela primeira vez”. De fato, a descolada Cayce Pollard criada por William Gibson parece nunca ter visto qualquer coisa real – ela vive no mundo da publicidade, do consumo, das logomarcas – até aceitar de uma agência de publicidade a missão de descobrir quem é o autor dos fragmentos de vídeos cultuados na web por uma comunidade virtual (da qual ela faz parte). É só quando Cayce entra no submundo japonês, nos subúrbios ingleses e nos covis de mafiosos moscovitas que essa realidade – suja, abjeta – toma forma diante dos seus olhos.

Pai. Por trás da pesquisa insana de Cayce está a busca do Santo Graal cibernético, uma solução – ainda que precária – para a ausência de um pai que coloque ordem na caótica rede de informações circulante na web. Não por outra razão, a moderna Cayce descobre que não vive num futuro anódino, dominado pela lógica das multinacionais japonesas, mas num presente podre em que as pessoas trocam a alma por uma droga qualquer. A metaforização da figura do Grande Pai por Gibson vem através da figura do pai da coolhunter, desaparecido nos ataques do 11 de Setembro em Nova York, cujo paradeiro ela tenta descobrir.

Numa entrevista, Gibson disse que tentou com a trilogia “recalibrar a maquinaria de seu imaginário do futuro com esses livros”. O presente, observou o escritor, “é muito mais peculiar e complexo do que havia imaginado quando escrevia livros sobre o futuro”. Isso, naturalmente, tem a ver não com conteúdo, mas forma. Na obra que completa a trilogia, História Zero, essa preocupação estilística resulta mais sofisticada, ainda que seja uma conclusão anticlimática da série, segundo críticos estrangeiros.

O tema de História Zero, a moda, revela como a construção formal do romance tenta relacionar o irrespirável ambiente fashion a uma profusão de adjetivos vazios. Eles são usados por Gibson na tentativa de descrever, de maneira razoável, as transformações sociais vistas através das roupas. Como sempre, vive-se num mundo de imigrantes. Londres, em História Zero, é um formigueiro de rostos estrangeiros. O vilão da história continua sendo Hubertus Bigend. Nela se cruzam Hollis Henry e Cayce Pollard, além de Milgrim, encarregado de fotografar uniformes militares na Carolina do Sul. Bigend está curioso por saber a razão de as fardas serem tão parecidas com a chamada streetwear. De fato, a ex-roqueira Hollis conclui que, nos últimos 50 anos, a roupa masculina, em particular, se tornou refém de uma estética militaresca. O próprio Bigend, antecipando a farda do futuro, usa uma roupa cuja cor não pode ser reconstituída pelas câmeras de vigilância.

Com a militarização do mundo, parece dizer Gibson, o presente volta ao passado e só a tecnologia ainda nos dá a impressão de que temos um futuro. Triste ilusão. Para lembrar uma frase de Einstein, ninguém que sinta uma vontade irresistível de marchar quando ouve música funciona bem da cabeça.

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