''O prêmio Nobel jamais inibiu minha escrita''

Günter Grass utiliza a história dos irmãos Grimm para falar de política

Entrevista com

Volker Hage Katja Thimm DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2010 | 00h00

Ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1999, o alemão Günter Grass, que completa 83 anos em outubro, continua saboreando a polêmica. Depois de agitar o mundo editorial e político ao confessar que foi soldado da Waffen-SS nazista, ele utiliza a vida dos irmãos Grimm, conhecidos fabulistas, para tratar do lado político e social da Alemanha em seu novo livro. O assunto dominou a entrevista a seguir.

Seu novo livro se chama Grimms Wörter - Eine Liebeserkärung (Palavras dos Grimm - Uma Declaração de Amor, em tradução literal). Como começou esse amor pelos Irmãos Grimm, os linguistas alemães que famosamente coletaram contos de fadas no século 19?

Minha relação com Wilhelm e Jacob Grimm remonta à minha infância. Cresci com os contos de fadas dos Grimm. Depois, mais tarde na vida, os irmãos influenciaram meu trabalho criativo. O Pequeno Polegar vive em Oskar Matzerath de O Tambor. Jacob e Wilhelm inspiram personagens de A Ratazana, no qual eles são retratados como um ministro e um vice-ministro que tentam impedir que as florestas morram (de chuva ácida).

O que o atrai nos irmãos?

Sua natureza intransigente, sobretudo. Em 1837, eles protestaram em Göttingen contra a abolição da constituição (do Reino de Hannover) e, portanto, contra o poder do Estado. Como os outros professores rebeldes do grupo conhecido como os Sete de Göttingen, eles perderam seus cargos. E a tarefa em que embarcaram depois isso era basicamente impossível: um dicionário alemão cheio de citações e frases exemplares. E eles só chegaram à sexta letra do alfabeto. Outros completaram a obra. Mais de 120 anos depois. Esse longo período de tempo também me fascina. Especialistas em estudos alemães das duas partes da Alemanha trabalharam nele nos últimos 15 anos. No meio da Guerra Fria, eles se sentavam calmamente em suas escrivaninhas em Berlim Oriental e Göttingen, e coletavam notas de rodapé para um dicionário pan-alemão.

Assim como a sua história pessoal neste país também tem um papel no seu livro.

Concentrei-me em meus jovens anos no livro Nas Peles da Cebola, depois em A Caixa escrevi sobre os vínculos e contratempos de minha família. Este livro é sobre o lado político e social. A vida dos Grimm, que existiram em um período marcado por mudanças radicais, assim como eu, se presta a isso.

O senhor descreve os irmãos como "detetives de palavras" e também diz: "Por um lado, as palavras fazem sentido. Por outro, elas são perfeitamente adequadas a criar absurdos. As palavras podem ser benéficas ou nocivas." Como essas facetas das palavras moldaram sua vida?

As palavras estão carregadas de emoção, criam uma euforia sedutora e são capazes de promover absurdos. "Vocês querem uma guerra total?", atribuída a Joseph Goebbels, é um exemplo. Frases assim têm significado forte, e podem exercer esse significado porque não são devidamente questionadas. Eu já ouvi minha dose de palavras nocivas. Acho chocante quando cidadãos como eu, que apontam abusos em seu país, são descritos como "bem-intencionados". É assim que uma expressão que pode ser usada para acabar com um argumento se torna parte do uso comum.

A cultura jovem tem seu próprio estilo linguístico distinto. O senhor compreende sempre o que seus netos estão dizendo?

Claro. É uma vantagem maravilhosa que eu possa, com a ajuda dos netos, me manter atualizado no jargão corrente. Em geral, concordo com Jacob Grimm e acho que devemos permitir mudanças e um crescimento incontrolado na língua. Embora isso também seja uma ameaça potencial ao desenvolvimento de novas palavras, a língua precisa se renovar. Na França, onde a Academia Francesa praticamente policia a língua, podemos ver que esta se torna formal e rígida quando é protegida em demasia.

O senhor deve estar horrorizado com os rumos do mercado livreiro. As vendas de livros eletrônicos estão crescendo rapidamente nos EUA.

Não acredito que isso seja o fim do livro. Ele assumirá um valor diferente. A produção em massa será reduzida, e o livro novamente tomará a aparência de um objeto que vale a pena guardar e passar para nossos filhos.

Consegue imaginar Palavras dos Grimm num iPad?

Não muito. Mas também firmei um acordo com minha editora de que nenhum de meus livros será oferecido para isso até uma lei de proteção aos autores se tornar efetiva. Só posso aconselhar qualquer escritor a desenvolver a mesma autoconfiança nessa relação.

Sua linguagem mudou ao longo das décadas a despeito disso?

No princípio, tentei tirar todos os pontos. Quando escrevi O Tambor, O Gato e o Rato e Anos de Cão, era um tempo em que muitos escritores mais velhos sentiam que a língua alemã jamais poderia ser usada novamente para excessos.

O senhor se posicionou veementemente contra a reunificação. Qual é o seu veredicto hoje?

Ainda acredito, como no passado, que não deveríamos ter anexado a Alemanha Oriental daquele jeito apressado. É absurdo que tenhamos perdido uma enorme oportunidade. Não deveríamos ter contido aquele momento em que, após duas ditaduras, a autoconsciência democrática florescia naquelas quatro famosas palavras: "Nós somos o povo!" (slogan entoado por manifestantes pela democracia na Alemanha Oriental nos meses que antecederam a queda do Muro de Berlim). Não demorou para o país e sua indústria serem liquidados, enquanto a Treuhand (a agência que privatizou as empresas estatais da Alemanha Oriental) vendia seus ativos por uma ninharia. Durante o longo período do pós-guerra, aqueles 17 milhões de pessoas (na Alemanha Oriental) tiveram de suportar sozinhos os principais padecimentos da uma guerra que foi travada e perdida por todo os alemães.

O que o senhor teria feito?

Eu teria aumentando fortemente os impostos e não teria feito a reunificação com recursos emprestados. Há muita autoilusão na ideia de que agora, no ano do 20º aniversário da reunificação, estamos nos congratulando com a maneira maravilhosa que tudo saiu. Os fatos dizem o contrário: o alto desemprego, as áreas despovoadas. E o fenômeno que as pessoas chamam de "o Muro em nossas mentes" persiste.

Em Palavras dos Grimm, o senhor não faz menção a possíveis erros em suas opiniões políticas. Nunca esteve errado?

Após a reunificação, temi o surgimento de uma espécie de Grande Alemanha com um poder centralizado em Berlim. Felizmente, porém, o federalismo alemão foi suficientemente forte para contrabalançar essas tendências. Por inconveniente que isso muitas vezes seja, acredito que o contrapeso dos estados é a melhor opção para a Alemanha, afinal.

O Nobel o coloca sob pressão?

O prêmio não me inibe absolutamente em minha escritura. Isso provavelmente porque eu o recebi em idade avançada. Na verdade, o prêmio que recebi do Grupo 47 (uma prestigiada associação de escritores alemães no pós-guerra) em 1958 foi mais importante para mim porque eu era pobre de doer na época. E ele me foi dado por colegas escritores, o que lhe conferia um significado inteiramente diferente. Não digo isso para menosprezar o Prêmio Nobel, mas ele não teve um impacto tão influente na minha vida. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

QUEM É

GÜNTER GRASS

ESCRITOR ALEMÃO

Nascido em 1927, é autor de O Tambor, entre outras obras. Ganhou o Nobel de literatura em 1999. Há quatro anos, surpreendeu a comunidade internacional de escritores ao confessar ter integrado as tropas de elite nazista durante a 2ª Guerra Mundial.

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