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O prazer de não ter nada a ver com isso

Esse sentimento não significa indiferença. Na verdade, torço para que tudo dê certo sempre

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

07 Maio 2017 | 02h00

Há um certo tempo ando refletindo sobre os maiores prazeres da vida. E acho que cheguei à conclusão de que uma das maiores delícias do mundo é não ter nada a ver com isso. Com isso o quê? Não importa. E é exatamente esse o encanto.

Tudo começou na festa de aniversário de uma amiga. De um lado da mesa havia cadeiras, do outro havia um banco. E eu fiquei naquele lugar infeliz, bem no meio do banco. Aquele que, caso você queira fazer xixi, precisa deslocar sete pessoas. Mas foi aí que aconteceu: uma amiga da ponta da mesa derrubou o copo de cerveja, que tombou molhando três pessoas e dois celulares. Muitos começaram a se levantar para ajudar e eu simplesmente não podia fazer nada. Eu não estava molhada, meu celular não estava molhado, eu não havia derrubado o copo, eu não tinha condições de levantar para ajudar ninguém e, no fundo, estava tudo bem. Que coisa maravilhosa. Finalmente, uma coisa para dizer “eu não tenho nada a ver com isso”.

Passei, a partir daí, a curtir o sabor de não ter nada a ver com isso. Outro dia, foi uma moça que perdeu a tarraxa do brinco no restaurante. Começou todo aquele movimento de busca, só faltou o corpo de bombeiros. Eu não conhecia a moça, ela já tinha quatro ajudantes e eu estava sem óculos. Que delícia. Não tenho nada a ver com isso. Minha taça de vinho até ganhou um sabor mais especial.

As situações de não ter nada a ver com isso são muito raras, porque para não ter nada a ver com isso você precisa encontrar uma situação na qual você não sinta nenhuma obrigação de agir, mas também não sinta nenhuma angústia. Porque se você fica angustiado você já passa a ter a ver com isso. A Lava Jato é um bom exemplo. Eu não recebi dinheiro nenhum da Odebrecht, nem tenho nada a esconder nas minhas contas (exceto o fato de ter comprado uma torta de limão monstruosa em plena quinta-feira, fato que estou tentando esconder de mim mesma), mas não consigo dizer que não tenho nada a ver com isso. Porque é o meu país e, obviamente, isso me angustia.

Não ter nada a ver com isso é um luxo raro. Outro dia, me deparei com a notícia de uma mulher que encontrou 95 cobras dentro da sua casa em um período de seis meses. Minha primeira reação foi procurar em que lugar do mundo foi isso. Se dissessem que era no Brasil ou em Portugal eu teria a ver com isso. Mas foi em Minnesota, nos Estados Unidos. Então, pronto, eu já pude curtir o prazer de não ter nada a ver com isso.

Na verdade, o sentimento de não ter nada a ver com isso não está associado à noção de indiferença. Eu torci para que os celulares não estragassem com a cerveja, torci para que a moça encontrasse a tarraxa, bem como torço para que as cobras parem de importunar a senhora de Minnesota. Eu só não posso fazer nada por eles, nem estou disposta a ganhar rugas de preocupação com esses assuntos. É uma sensação muito peculiar e agradável.

No restaurante, um casal discutia sobre quem iria buscar a Tia Nena na sexta-feira. O homem dizia que não conseguiria porque sairia tarde do trabalho, a mulher argumentava que estaria sem carro. Eu nem sei quem é Tia Nena. Nem sei onde eles vão. Nem sei quem são eles. Quer coisa melhor? Não tenho nada, absolutamente nada a ver com o transporte de Tia Nena. 

Agora, caminho pelas ruas mais sorridente porque frequentemente sou presenteada com o fato de não ter nada a ver com isso. Uma mulher tentando desgrudar um chiclete da sola do seu sapato. Um homem com dificuldades para fazer uma baliza. Uma fila imensa dentro da lotérica. Um rapaz cujo sorvete de casquinha estava derretendo e escorrendo por cima dos dedos. Desejo, com toda minha sinceridade, muito boa sorte a todos eles com seus pequenos grandes desafios cotidianos. Mas que delícia, que coisa tão boa, que maravilha que é não ter nada a ver com isso.

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